Ombudsman Folha   Folha Online
 
12/12/2001

BERNARDO AJZENBERG

O acerto prévio no Congresso para um aumento do salário mínimo é a manchete na Folha ("Acordo prevê mínimo de R$ 200") e no "Globo" ("Acordo garante aumento do mínimo para R$ 200"). O "Estado" opta pela redução dos juros básicos norte-americanos ("Juros nos EUA caem a 1,75% para estimular consumo") enquanto o "JB" festeja às escâncaras (et pour cause...) a votação na Câmara: "Aprovada lei que abre mídia a capital externo". "Globo" e "JB" registram em suas edições locais (que fecham mais tarde) o sequestro de Washington Olivetto, assim como o "Diário de S.Paulo". A Folha, por razões conhecidas, não traz a informação (ao contrário do UOL hoje, registre-se).

O diploma
O quadro "Como obter o registro de jornalista", dentro da reportagem "Juiz mantém o fim da exigência do diploma" (Brasil, pág. A8), traz informações práticas, mas não explica quais são as condições para essa obtenção. A pessoa precisa estar trabalhando em órgão de comunicação? Há quanto tempo? Precisa ter curso superior (algum)? Essas dúvidas não derivam apenas de uma falha de serviço por parte do jornal, mas também dizem respeito, indiretamente, a questões, digamos, conceituais sobre a discussão a respeito da obrigatoriedade do diploma.

Nova guerra
1) A idade de Zacarias Moussaoui é 33 nos textos e 53 na arte "1o suspeito é indiciado" (Mundo, pág. A9). Qual é o correto? A foto indica ser 33.
2) O texto principal ("EUA indiciam 1o suspeito de ataques" (mesma página) assume em seu oitavo parágrafo que os 19 homens apontados pelos EUA como sequestradores dos aviões usados nos atentados o são verdadeiramente. Faltou cautela (algo do tipo "apontados como...").

Minúcias venezuelanas
Não dá para entender por que, afinal, a CVT, central de trabalhadores, está contra o governo Chávez, se as medidas deste último, em tese, favorecem uma distribuição agrária, entre outros pontos que contrariam claramente interesses da elite do país. É uma central sindical direitista? São pelegos? É preciso explicar ("Central venezuelana ameaça greve geral", Mundo, pág. A11).


Números
1) A arte "A crise da Transbrasil" informa que a empresa possui 2.100 profissionais. Já o texto da reportagem (capa de Dinheiro) afirma que são 2.500. Em qual número deve o leitor se fiar?
2) O texto "Novo corte deixa EUA com juros 'negativos'" (Dinheiro, pág. B5) afirma que todos os outros cortes de juros feitos ao longo deste ano nos EUA foram de meio ponto percentual. Segundo a arte da reportagem, no entanto, o corte feito em agosto foi de 0,25 ponto percentual em relação a julho.

Análise e didatismo
Na reportagem "'Fast track' deve ficar ainda pior para o Brasil" (Dinheiro, pág. B3) e na respectiva arte, utilizam-se os termos dumping e antidumping sem qualquer explicação. Para os iniciados, tudo bem. Mas não para o público leitor médio. Falta didatismo.

Sobre esse assunto (as limitações que a TPA aprovada para Bush impõe na prática ao comércio mundial), o jornal deve explicações: há contradição entre isso e os resultados tão comemorados da recente reunião da OMC em Doha, da qual a diplomacia brasileira saiu como amplamente vitoriosa. Análise na edição de ontem arranha o assunto por meio de uma citação. Texto no "Estado" hoje também lembra o tema. É preciso trazê-lo à tona.

Faltou didatismo também na retranca "Protestos nas ruas argentinas se intensificam" (pág. B10), no qual se fala que "no mercado, o Merval subiu 1,78%". O que é esse tal Merval?

O "ex" agora é o quê?
Frequentemente o ex-diretor do BC Sérgio Werlang é ouvido em reportagens sobre a política monetária ou câmbio. Hoje ele é protagonista de uma retranca inteira ("Venda diária da moeda deve parar, diz Werlang", em Dinheiro, pág. B4). Independentemente de sua competência, pergunto: o que faz hoje Werlang? É empresário? Tem uma assessoria? Além da ausência desse tipo de informação, registro que soa artificial ouvi-lo apenas como um "ex". Por que, então, não ouvir, em revezamento, outros ex-diretores dessa área (Política Econômica) do BC?

Fertilidade
A capa de Cotidiano ("77% das casadas usam contraceptivos") não traz informações a respeito da evolução desse índice. Qual era a porcentagem dez anos atrás, por exemplo? Esse dado, entre outros, poderia ajudar a entender melhor a própria evolução das taxas de fecundidade, que diminuiu. Se ele não existe, valeria registrar a lacuna.

Voz do Palácio
Na reportagem "FHC veta estabilidade para portador de HIV" (Cotidiano, pág. C8), está obscura a argumentação do Planalto para essa atitude antipática. Fala-se em inconstitucionalidade, mas não se explica com clareza onde esta reside. Os dois parágrafos que falam da CLT e da Constituição aparentemente serviriam para isso, mas não conseguem ser claros.

Sísifo
O texto "'Senhor dos Anéis' chega à internet" (Informática, pág. F12) não informa quem é o escritor J.R.R. Tolkien, autor do livro que deu origem ao filme. Está vivo? É britânico? É neozelandês? O "Caderno 2", do "Estado", traz hoje esses dados básicos.

300 mensagens
Registro a chegada ao ombudsman de mais de 300 mensagens de protesto contra a reportagem da capa de Esporte da edição de ontem ("É a menor final do Brasil"). Não tive tempo de lê-las, ainda, mas obviamente se trata de torcedores indignados com o que chamam de "parcialidade" da matéria (isso os mais educados!) contra o Atlético-PR. Descontada a ira e o fanatismo possivelmente contidos nas mensagens, o que chama a atenção é que não se trata de uma simples reprodução de envios baseados num texto padrão, mas sim de registros "pessoais", apesar de obviamente estimulados pelo site do clube (no caso, o Atlético-PR).

A meu ver, o texto faz algumas generalizações que poderiam ter sido evitadas ou que caberiam em análise pessoal ou comentário (sobre a qualidade do futebol das equipes finalistas, sobre o "fato" de que o time paranaense pára jogadas com jogo duro, por exemplo). Além disso, não há dados sobre as médias de público alcançadas pelos demais clubes no atual torneio, de modo a que se sustentasse a informação essencial da reportagem (o potencial pequeno de público dos dois finalistas). Também não dá para entender a afirmação do título e do lide, já que, como o próprio texto afirma, a decisão de 1978 teve 27 mil torcedores, a de 1991, 12,5 mil, sendo que o potencial para cada jogo, neste ano, é de 30 mil.

     
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