Dos principais diários nacionais, só a Folha ("Argentina decreta estado de sítio") não deu a notícia da queda do ministro Cavallo, ocorrida no início da madrugada de hoje. O "Globo" conseguiu "enfiar" a informação ainda em manchete em exemplares da edição local ("Cavallo deixa governo com Argentina em estado de sítio"); o mesmo fez o "JB" em linha-fina sob a manchete "Argentina entra em convulsão" ("Ministro Cavallo renuncia ao cargo e crescem as especulações sobre saída do presidente De la Rúa"). O "Estado" trouxe a notícia em chamada ("Cavallo cai, com todo o gabinete") logo abaixo da manchete ("Argentina decreta estado de sítio" em exemplares da edição SP. O segundo destaque do dia, em todos os jornais, foi o Censo 2000.
Argentina 1) É quase como morrer na praia. A edição da Folha é visivelmente a mais bem preparada e mais completa a respeito do dia de ontem, mostrando que o jornal atribuiu grande importância ao que ocorria na Argentina. Incompreensivelmente, essa dedicação editorial não se refletiu no momento final (a demissão de Cavallo). A Folha Online deu a notícia às 2h01. Segundo me informa responsável ligado à impressão do jornal, se uma troca tivesse sido feita por volta das 2h15, teria pego ainda 10% da edição SP (cerca de 25 mil exemplares). Um número, portanto, nada desprezível. Onde foi parar a agilidade da Folha? 2) Na Primeira Página, faltou destaque para as mortes ocorridas nos saques (certamente uma das estrelas abaixo da manchete deveria incluir essa informação). Ela também, erroneamente, não recebeu nenhum título à parte, no caderno Dinheiro; 3) A Folha ficou devendo ao leitor na edição de hoje um "cronograma da crise", uma arte, por exemplo, que registrasse a evolução dos eventos políticos e econômicos mais relevantes da crise nos últimos anos, ou ao menos meses, que culminaram com a decretação do estado de sítio; 4) Na arte "Na província de Buenos Aires e capital federal" (pág. B6), em sete casos se utiliza "a" em vez de "há" (verbo haver). Exemplo: "A um supermercado em Don Torcuato".
Diferenças O texto "Para petistas, pacto da base aliada é frágil" (Brasil, pág. A5) cita avaliação do deputado petista Aloizio Mercadante segundo a qual os partidos da aliança do governo (PMDB, PFL, PSDB) "estão divididos em tantas facções e se digladiam internamente que não podem sustentar um pacto assim". Em seguida, a Folha contrapõe: "A situação não é diferente no PT: a contragosto, o presidenciável Luiz Inácio Lula da Silva terá de disputar uma prévia com o senador Eduardo Suplicy". Ora, é preciso forçar muito a barra para dizer que não há diferença entre uma situação e a outra. Ninguém em sã consciência acha que Lula não será o candidato do PT e que o PT vai sair com candidatura própria. A "crise" interna, nesse partido, não tem nem de longe o mesmo grau de indefinição que ainda paira nos partidos da coalizão. Soa, mais uma vez, a "marcação" gratuita em cima do partido de Lula.
Clareza e didatismo 1) Faltou um "Entenda o caso" na reportagem "Verba do BNDES cobriu rombo da Caixego" (Brasil, pág. A18). O desvio de dinheiro percorre um caminho cheio de nomes e entidades. Li o texto três vezes e não sei se entendi bem como ele ocorreu; 2) A retranca "Europeus divergem sobre força de paz" (Mundo, pág. A23) menciona a expressão "fogo amigo" (usada pelo chefe do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA, Richard Myers) sem explicar o que isso significa. Mesmo no contexto, seu sentido não se explicita;
Mortes na Intifada O jornal hoje continua a separar "israelenses" de "árabes israelenses" na contabilização do número de mortos desde o início da nova Intifada no Oriente Médio, revertendo decisão de meses atrás ("Hamas diz que pode suspender ataques", Mundo, pág. A24). Qual é o critério? No conflito, o que há são israelenses (árabes ou judeus) e palestinos. A única explicação que poderia (em hipótese absurda) justificar essa separação seria a vontade de separar judeus israelenses de árabes israelenses. É isso?
Confissão de Bin Laden Mais uma vez o jornal se comporta como porta-voz do governo americano ao assumir que são incontestáveis as confissões do terrorista saudita sobre sua participação nos atentados de 11 de setembro ("Clinton abateria avião para matar Bin Laden", Mundo, pág. A26). O correto seria colocar tal admissão no condicional, explicitando, ainda que resumidamente, que o vídeo foi divulgado pelos EUA etc.
E o 4-2-4? A interessante reportagem de capa de Esporte ("Final do Brasileiro faz alegria da prancheta") registra que na década de 70 prevalecia o esquema tático 4-4-3 nos times de futebol. Posso estar enganado, mas creio que, embora esse esquema tenha sido usado por Zagallo, o que realmente predominava, então, era o 4-2-4, com um ataque que sempre trazia dois pontas, um centroavante e um quarto atacante. A verificar.
O Censo 1) Em época de vagas bem magras, a Folha dedica um caderno especial ao Censo 2000, decisão a meu ver correta e louvável. Esse esforço, porém, não foi correspondido na chamada da Primeira Página, que deveria "vender" bem mais o caderno como uma edição especial, o que, aliás, faz o "Globo": "Nesta edição, caderno especial "Retratos do Brasil"; 2) Duas pequenas observações que talvez exijam Erramos: a) na quinta linha do quinto parágrafo de "Analfabetismo se concentra na população mais velha" (pág. Especial 3), escreve-se "5,8 pontos percentuais a MAIS", quando o correto seria 5,8 pontos percentuais a MENOS; b) na tabela inferior da arte da pág. Especial 6, a porcentagem de domicílios com rede de abastecimento de água em São Paulo consta como 1,1%. Houve algum erro de digitação, certo?
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