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21/12/2001

BERNARDO AJZENBERG

Registro as principais manchetes em mais um dia histórico deste 2001:
Folha: "Revolta pára Argentina e leva De la Rúa à renúncia"
"Estado": "Isolado, De la Rúa renuncia"
"Globo": "Argentinos desafiam estado de sítio e derrubam De la Rúa"
"Jornal do Brasil": "Queda do presidente testa democracia na Argentina"
"Valor": "De la Rúa renuncia e peso pode flutuar"
"Gazeta Mercantil": "De la Rúa sai e a incerteza continua"

Argentina
Em grau inferior, guardadas as devidas proporções, a Folha procura reeditar, na queda de De la Rúa, o esforço editorial dedicado à cobertura do 11 de setembro. Graficamente, há evidente adoção daquele modelo (vitorioso), com destaque para a capa do caderno especial. Nesse sentido, traz uma edição mais rica do que a dos concorrentes. A seguir, algumas observações:
1) Nada indica que, com a renúncia do presidente, a questão institucional esteja resolvida. Pode haver recrudescimento da mobilização ocorrida nos últimos dois dias, apesar de eventual acordo para uma transição rumo a um novo governo. Se há exagero, a meu ver, no uso da palavra "insurreição" (como faz o "JB") para caracterizar o ocorrido, também faltou à Folha, nos textos, caracterizar mais claramente o que aconteceu. Usam-se as palavras "revolta", na manchete e no editorial, e "rebelião", numa estrela da capa do caderno, mas os textos evitam a definição. Só no caso da contracapa se afirma que a sociedade argentina se levantou "não apenas contra o governo do presidente De la Rúa mas contra todo o sistema político e as instituições". Creio ser necessário aprofundar a análise sobre tudo isso. Houve uma rebelião popular organizada? Uma revolta atomizada? Por que o presidente ficou tão isolado? Em resumo: creio que, se há, no caderno, uma dose adequada de economia, há, também, pouca política;
2) Na arte "Os nove pacotes do governo..." (pág. 2), aparece a data de 26.mar.01 para o pacote de Murphy. Certamente a data é anterior, já que esse ex-ministro renunciou em 19 de março e Cavallo apresentou o seu pacote em 21 de março. Não seria o caso de Erramos?
3) Faltaram os perfis (trajetória, características, fotos etc) de De la Rúa, Cavallo e do que era o provável substituto temporário do presidente, Ramón Puerta (essa falha foi parcialmente corrigida na edição da 1h30);
4) A retranca "Centrais mantêm greve geral para hoje" (pág. 4) fala em "choques entre a polícia e o povo...". Não é o fim do mundo, mas verbete da página 94 do "Manual" sugere que se evite o termo. Em circunstâncias como essa, o mais adequado seria utilizar, por exemplo, "manifestantes";
5) A retranca "Entenda a dívida" (pág. 6) é, na verdade, uma reportagem sobre as expectativas do "mercado" quanto ao comportamento argentino em relação à sua dívida. Ao contrário do que o chapéu indica, não tem características didáticas. Não explica a origem da dívida, sua evolução etc. Vale retomar;
6) Falta, no caderno, material sobre a repercussão internacional dos eventos, tanto na mídia quanto entre governantes de diferentes países;
7) Vale a pena, também, "descer" um pouco a cobertura para o nível da vida concreta das pessoas: os teatros de Buenos Aires estão fechados? Cinemas? Restaurantes? Os turistas brasileiros deixaram o país?

Nova guerra
1) Não vi na Folha informação publicada pelo "Daily Telegraph (reproduzida hoje no "Globo") de que os EUA teriam deslocado 24 mil homens para o Golfo Pérsico, num momento em que muito se fala sobre uma possível expansão territorial da ação americana contra o terrorismo (vale dizer, principalmente, Iraque);
2) Outra importante informação trazida pelo jornal carioca, desta vez a partir do "Guardian", diz respeito ao primeiro levantamento independente do número de mortos no Afeganistão: mais de 3.700 pessoas, superando, assim, o total de mortos nos próprios atentados de 11 de setembro.

Caso Medeiros
Não faz muito tempo a imprensa, Folha inclusive, fez bastante barulho a respeito de suposta conta no exterior e desvios de dinheiro por parte do deputado Luiz Antônio Medeiros. O texto "Promulgada extinção da imunidade parlamentar" (Brasil, pág. A5) informa, discretamente, que esse caso foi arquivado pela Câmara ontem. Ora, vai ficar por isso mesmo?

Roseana na TV
Um pastel estratégico prejudicou o entendimento do sétimo parágrafo do texto "Ex-ministro do TSE avalia anúncios do PFL" (Brasil, pág. A8). É justamente o trecho em que o jornal estaria informando a partir de que dia seria deslanchada a nova ofensiva televisiva do PFL. Está escrito: "A nova ofensiva... está prevista para acontecer a partir do dia janeiro (sic), quando serão veiculados...". Qual é o dia de janeiro?

Caso Caixego
Sem querer ser impertinente: realmente continua muito confuso o noticiário sobre os desvios em Goiás que teriam favorecido Iris Rezende. O "Entenda o caso" (Brasil, pág. A9) só vai até certo ponto. Não explica por que houve uma devolução ao banco. Foi por determinação judicial? Foi por livre e espontânea vontade? Juridicamente falando, qual é a acusação formal? Falta clareza e didatismo, já que o caso é, de fato, complexo.

Marta e a educação
Escreve-se, no abre da capa de Cotidiano, que, "na prática", o projeto da prefeitura para a educação implica redução da verba efetivamente aplicada no setor. Pode ser verdade, não sei. Falta, porém, o jornal demonstrar ser verdadeiro o que afirma. Isso não acontece nesse material. Por que, afinal, significará redução?

Senghor
Não corresponde à importância histórica e simbólica do personagem a pequenina nota na pág. C4 registrando morte do ex-presidente do Senegal Leopold Sedar Senghor. Acho que o jornal deveria recuperar.

Números
Está errada a afirmação de que "dos 9,57% repassados às universidades, cerca de 5% vão para a USP, 2,3% para a Unesp e 2,1%, para a Unicamp" ("Universidade estadual terá mais R$ 50 mi", Cotidiano, pág. C4). Esses percentuais de cada instituição se referem ao total da verba, não a uma porcentagem dos 9,57%. Exemplo: a USP receberia 5% da verba total, não 5% dos 9,57% --o que daria muito, muito menos dinheiro, certo?

Sísifo
Na Panorâmica "Investigador tem patrimônio de R$ 1 milhão" (Cotidiano, pág. C7), faltou a idade do investigador José Carlos de Castilho. Dado importante, nesse caso, já que o argumento do advogado de defesa afirma que Castilho construiu seu patrimônio antes de ingressar na polícia.

Errei
Na nota "O Censo", na crítica de ontem, leia-se "vacas bem magras" em vez de "vagas bem magras".

Esclarecimento
Em referência ao item 4 da nota "Argentina", de ontem, recebo do coordenador do Programa de Qualidade, Rogério Ortega, via SR, a seguinte mensagem:
"Na arte "Na Província de Buenos Aires e capital federal", não se deve substituir o "a" por "há", do verbo "haver". Ao lado do título dessa arte, foi incluído um símbolo (semelhante a um homem correndo) que significa saque. Em muitos tópicos, o que segue é a continuação disso: saque a quatro supermercados (em San Fernando), saque a um supermercado (em Lomas de Zamora) etc. O objetivo da arte não é informar que há quatro supermercados em San Fernando, mas sim que houve saques a quatro deles. Até imagino qual seja a objeção: isso deveria estar mais claro no infográfico, porque o símbolo do "saque" está meio escondido. Concordo e acho que os tópicos também poderiam ter sido uniformizados. Mas não há erro de português na arte."

Aviso
Estarei em férias a partir da próxima semana. A crítica interna volta a circular em 31 de janeiro de 2002.

     
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