Ombudsman Folha   Folha Online
 
04/07/2002

BERNARDO AJZENBERG

Sem dúvida a notícia do dia reside na decisão do Banco Central de intervir diretamente no mercado, com venda de dólares, para "acalmar" os investidores e segurar o real -tema de manchete na Folha, "Estado" e "Globo". O fato jornalístico, porém, está na Folha: não sei se para "compensar" politicamente o enorme "Erramos" das palmeiras (ver nota específica) e mostrar que não se intimidou com isso, o jornal resolveu trazer hoje duas chamadas de capa e cinco abres de página (70%) anti-PT em Brasil, em evidente desequilíbrio editorial. O jornal não precisa disso. Ainda assim, deixou de expor as importantes e contundentes críticas feitas por Serra a Ciro e Lula, acusados de alimentar o nervosismo na economia.

Caso das palmeiras

É óbvio que o caso das palmeiras da Prefeitura é grave e já entrou para a história dos erros mais evidentes cometidos pelo jornalismo. Não foi o primeiro nem, infelizmente, será o último. A questão é saber quais lições tirar do episódio. Algumas observações:

1) Ao contrário do que fez o "Agora" em sua capa, a Folha escondeu na Primeira Página o erro. Não só lhe conferiu espaço bem menor do que o da chamada original, de domingo, como fez uma formulação ("Prefeitura de SP não pagou mais por palmeiras usadas em paisagismo") obscura, que só os mais atentos e os que se lembram da reportagem de domingo poderiam identificar como uma informação diferente da anterior (e ainda assim não explicitamente de que teria havido um erro do jornal). É como se a Folha quisesse poupar a sua vitrine, deixando apenas para as páginas internas o reconhecimento de um erro grave, que abala sua credibilidade. O mesmo se pode afirmar da nota do "Erramos", na pág. A3, em que se diz que a referida reportagem continha "alguns erros". Não, ela estava totalmente equivocada na sua essência. O comportamento da folha hoje não foi um bom exemplo de absoluta transparência;

2) Não sei se todos os pontos levantados no Painel do Leitor pelo presidente da Emurb estão corretos. De todo modo, na reportagem de Cotidiano em que admite o erro, o jornal não esclarece dois itens ali expostos: o preço de um tipo de palmeira no edital (que seria R$ 2.000, e não R$ 2.600) e o fato de que a prefeita não tem responsabilidade formal ou institucional pelas compras realizadas, dado o estatuto legal da empresa;

3) Parece-me evidente que o jornal cometeu, além disso, dois erros estruturais: a) falta de preparo e de checagem técnica por parte do reportariado; b) leniência no tratamento que deve ser dado à questão -tão cara ao jornal-do "outro lado". A Folha não deveria precisar do "sermão" dado a este respeito pela carta no Painel do Leitor para saber que um de seus principais pilares de credibilidade (o "outro lado") foi aqui seriamente maltratado. Não custa nada tomar esse triste exemplo como elemento para discutir como se tem lidado, no conjunto do jornal, com essa questão;

4) Creio ser evidente, por fim, que Cotidiano -e todo o jornal-- não deve permitir que esse erro grave acabe intimidando sua pauta em relação às administrações municipais (em especial as petistas, por terem sido objeto deste caso). A melhor forma de garantir que isso não ocorra é fazer o balanço aberto e transparente do comportamento da Folha no episódio e identificar como puderam acontecer as falhas apontadas.

Caso Santo André

1) Ao citar a analista financeira Gislene da Silva, o abre "Depoente diz que recolhia dinheiro para 'fazer troco'" (pág. A4) afirma "...eu repassava de R$ 100 a R$ 120 mil mensalmente para o sr. Irineu...". Deve ser "R$ 100 mil", não? A verificar;

2) A própria coluna Janio de Freitas chama a atenção para divergência entre o que lhe declara Luiz Antônio Marrey e o que retranca específica sobre o assunto coloca, também hoje, na boca do procurador-geral. Na coluna, se a entendi bem, Marrey admite haver uma testemunha secreta real, que não é João Francisco Daniel. Já na reportagem, o mesmo Marrey explica que, sim, os dois depoimentos são da mesma pessoa, tendo isso ocorrido por uma questão técnica. Pergunto: e o leitor? Como ele fica?

3) Faltou o "outro lado" de José Dirceu na retranca "Promotoria descarta testemunha e diz que Jobim fez 'leitura desatenta'" (pág. A6). Como a esquisita entrevista com a "testemunha anônima" saiu ontem, esperava ver no jornal hoje esse "outro lado".

Estevão

1) A Panorâmica "Justiça mantém arresto de bens de Luiz Estevão" (pág. A6) menciona que o ex-senador foi condenado pelo TCU mas simplesmente ignora que, em processo paralelo, o ex-senador acabou de ser absolvido em primeira instância na semana passada no caso TRT. Basta ler a mesma reportagem no "Globo" (que contextualiza a situação) para verificar como o "outro lado" foi mais uma vez negligenciado pela Folha;

2) Não vi na Folha notícia sobre a polêmica com Boris Casoy, que foi proibido por um juiz de mencionar termos pejorativos em relação a Estevão em seus telejornais (está no "Estado").

O BC e as reservas

1) O abre de Dinheiro ("BC retoma ração diária para segurar dólar") afirma, no pé, que as reservas líquidas do país somam US$ 28 bi; que, descontados pagamentos de dívida externa, sobram US$ 9 bi para as intervenções do BC; que, se o banco fizer o previsto, essas intervenções gastarão US$ 6,4 bi até dezembro. Com tudo isso, diz o texto, as reservas cairiam, então, para US$ 17,6 bi. Como é possível? Ora, é óbvio que a conta, matematicamente, não fecha. De duas uma: ou a conta está errada mesmo ou o jornal não explicou ao leitor corretamente o que são as tais reservas líquidas. É preciso esclarecer;

2) Faltou repercutir com os presidenciáveis a decisão do BC. Creio que seria uma forma de mostrar concretamente aos leitores o que pensam os candidatos ou seus assessores, para além da retórica genérica.

Questão de estilo?

Não há como não registrar a diferença entre a indagação dirigida a Rivaldo por FHC segundo a Folha e a mesma frase na versão do "Globo". Folha: "Você ainda está puto comigo?". "Globo" ("coluna "Panorama Político"): "É verdade que você ficou bravo comigo?".

     
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