Ombudsman Folha   Folha Online
 
20/02/2003

BERNARDO AJZENBERG

O assunto -juros- era evidente como opção de manchete, mas, tal como já aconteceu com o noticiário sobre o discurso de Lula no Congresso, Folha ("Governo sobe juros e sufoca economia") e "Globo" ("Juros sobem de novo e críticas à política econômica crescem") trazem títulos com tom crítico, enquanto "Estado" ("Inflação leva BC a aumentar juro para 26,5% e a retirar dinheiro de circulação") e "JB" ("BC eleva juros para 26,5% e tira R$ 8 bilhões de circulação") adotam o lado descritivo. Só a Folha trouxe (na edição SP) foto dos radicais do PT (Babá e Luciana Genro) com os servidores na capa (ver nota específica).

Primeira Página

O texto legenda "Nas linhas inimigas" (edição SP) afirma que na imagem os servidores estão fazendo protesto em frente ao Planalto. Será isso mesmo? O local parece ser um ambiente fechado. Não seria a Câmara, onde foi lançada a campanha salarial da categoria? A verificar.

Para reflexão

Parece-me fora de discussão a necessidade, o compromisso assumido inclusive publicamente, de o jornal fazer uma cobertura crítica do novo governo e, também, das fissuras que podem ocorrer dentro do PT. Pergunto-me, porém, se não tem havido exagero na exposição dos chamados parlamentares radicais (Babá, Luciana Genro, Lindberg Farias etc), exposição desproporcional ao seu real peso político (interno e externo em relação ao PT) e simbólico. A Folha traz na capa (edição SP) o protesto dos servidores (assunto relevante), mas o destaque são Genro e Babá, os quais, na minha opinião, têm-se comportado, em grande parte, como papagaios de pirata, cavalgando a mobilização legítima (a foto do "Globo" mostra o deputado vestindo a camiseta dos servidores em pose que sugere acima de tudo um marketing pessoal). Na página A3 ("T/D"), há artigo de Farias. Em outras palavras: será que a Folha não está "enchendo a bola" demais, artificialmente, desses parlamentares? Será que não têm ocorrido medidas polêmicas e até mesmo gafes do governo o bastante, nas últimas semanas, para o exercício (de certo modo por elas facilitado) de um jornalismo crítico em relação ao governo Lula? O próprio jornal vem mostrando que sim.

O mandacaru

Das fotos publicadas hoje com Lula recebendo de presente um mandacaru, a da Folha é, sem dúvida, a pior. O presidente quase não aparece.

Padronização

O deputado federal Aldo Rebelo (PC do B) é chamado duas vezes de Aldo (em vez de Rebelo, como o jornal recomenda) na retranca "Governo proporá fundo a Estados" (Brasil, pág. A4).

Irmã de Berzoini

1) Não tenho elementos para dizer se a Folha está certa ou errada ou se a personagem em questão tem uma espécie de personalidade dupla, mas é curioso observar como a retranca "Irmã de Berzoini diz que não abre mão de pensão" (pág. A6) vai numa linha exatamente oposta à retranca do "Globo" sobre o mesmo assunto, intitulada "'Por que eu não iria abrir mão?'";

2) Observa um leitor que, em tese, por ser casada (usa até o sobrenome do marido), a irmã do ministro já não teria mais direito à pensão decorrente do fato de ser filha de militar. Esse direito só seria válido para filhas solteiras. A verificar.

Nomes

O nome do delegado da PF responsável pelo inquérito do grampo na Bahia aparece como Gesival Gomes na retranca "Ex-namorada de ACM vai depor na PF" (pág. A13) e como Gesival Souza na retranca "Ex-motorista de grampeado acusa senador", na mesma página. Qual é o sobrenome correto?

Os juros

1) Por mais que o jornal explique o que é o recolhimento compulsório dos bancos, cuja alíquota foi aumentada ontem, uma coisa ainda não fica clara: o que é feito desse dinheiro pelo BC? Ele fica parado? Os bancos não têm nenhum tipo de acesso a ele?

2) Faltou atualizar a taxa Selic no quadro fixo da página B2;

3) O texto "Impacto na dívida do governo é de R$ 4 bi" (pág. B4) afirma que dos títulos emitidos pelo governo, 62,4% (ou seja, R$ 397,5 bilhões) são corrigidos pela Selic. Já a arte da pág. B5 fala em 47,23% de um total de R$ 636,86 bilhões, o que daria um valor absoluto bem menor. A verificar;

Números

1) Afirma o abre "CUT perde terreno para a Força, diz IBGE" (pág. B10) que caiu 18%, de 2.149 para 1.720, a média de associados dos sindicatos do país. Pela conta que fiz, isso dá 20% de queda (não 18%). A verificar.

Pastel

Parece haver um na nota "Imóveis" (Dinheiro, pág. B3): "...índice a ser aplicado à correção dos financeiros imobiliários (sic)...".

Didatismo

Na reportagem de capa do Equilíbrio, sobre fertilidade, senti falta de alguma explicação sobre o que vêm a ser a varicocele e a endometriose, apontadas, dentre outros, como fatores que podem levar à infertilidade no homem e na mulher respectivamente.

Edição

A diagramação da página C4, a meu ver, prejudicou o conteúdo do bom material sobre a chamada "violência moral" nas escolas. Não há foto. O texto principal não tem um intertítulo. A sensação é de tijolaço. Afugenta o leitor.

Médio?

O abre da pág. C4 ("Aluno de 14 anos é assassinado por colega") afirma que os garotos estudavam no terceiro ano do ensino médio. Será isso mesmo, com 14 anos de idade? Deve ser ensino fundamental, não? A verificar.

Crase

Não é atribuição do ombudsman apontar erros gramaticais, mas chama demais a atenção a crase do abre da página E5 (Ilustrada): "Recepção à Colker se divide em Berlim". Salvo engano, ela não faz sentido.

     
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