Ombudsman Folha   Folha Online
 
21/05/2003

BERNARDO AJZENBERG

Ao abrir hoje com o título "Mais índices apontam queda da inflação", a Folha, que não tem o hábito de dar em manchete notícias boas, reforça a impressão de ter assumido, objetivamente, nos últimos dias, uma mini-campanha para pressionar o Copom a baixar os juros e/ou para, na prática, imprimir um desgaste político ao Planalto numa eventual decisão do BC em outra direção. Jornalisticamente, na minha opinião, os índices de inflação mereciam destaque na capa, sim, mas a manchete deveria ser dedicada às invasões do MST.

Dois furos

1) Não vi na Folha a notícia de que teria havido acordo entre a Enron (ela mesma!) e a AES para desvalorizar a Eletropaulo por ocasião do leilão de privatização da empresa em 1998. O caso, que virou manchete no "Valor" e ganhou reportagem no "Estado", estava no entanto "disponível" no site do "Financial Times" desde ontem à noite;

2) Registro para revelação, pelo "Globo", daquela que seria a proposta da Casa Civil para as mudanças que reduzem o poder das agências reguladoras, assunto polêmico em pauta desde os primeiros dias do governo Lula.

Primeira Página

Merecia mais do que uma pequena chamada no pé da capa a suspensão do Campeonato Brasileiro por causa do novo estatuto do torcedor assinado pelo presidente Lula. A queda-de-braço entre clubes e governo promete ser dura.

Ética

Informe publicitário na pág. A 7 traz a assinatura de uma colunista do jornal. O fato, a meu ver, vai de encontro ao que apregoa o verbete "Ética" do "Manual" (págs. 41/42), segundo o qual "o jornalista da Folha não deve participar de anúncio comercial. Fica facultada, porém, a possibilidade de atuação em campanhas de interesse público, com autorização prévia da Direção de Redação".

A propaganda em questão --lançamento imobiliário-- não me parece encaixar-se na definição de "interesse público".

MST

Editorial de hoje e a coluna "Janio de Freitas", com chamada na Primeira, destacam, corretamente, a relevância política daquilo que se apresenta como uma provável inflexão do MST em sua relação com o governo Lula. No material noticioso sobre o tema (Brasil, pág. A 11), porém, faltou investimento que refletisse essa relevância: mapas, arte com declarações anteriores de várias partes, aspas de alguns invasores ou reféns no caso de ontem em PE, por exemplo.

Fumo

A reportagem "OMS aprova tratado mundial antitabagista" (Mundo, pág. A 15) não informa quais reflexos essa decisão teria no Brasil, que já possui uma legislação relativamente rígida para o assunto.

EUA x Cuba

Faltou o "outro lado" do governo cubano no material "Em fala a cubanos, Bush ataca 'ditadura'" (pág. A 13), que ocupa toda a metade superior de uma página.

Combinação heterodoxa

É sempre positiva a idéia de introduzir no árido noticiário econômico alguns sides, material mais leve. A capa de Dinheiro hoje faz isso, mas, me parece, de modo um pouco distorcido. O título do side "Diversões heterodoxas" faz sentido no caso da participação do ex-BC Armínio Fraga no "Casseta & Planeta", mas não tem nada a ver com o outro texto editado ao lado, com declarações de Malan (ex-Fazenda) sobre a situação econômica do país. Este não tem nada de "divertido".

Deu mal 1

O presidente da República se reúne com os maiores pesos-pesados da indústria de base do país, além de um banqueiro super-pesado, e a Folha dá para o caso apenas um pirulito em pé de página (pág. B 3). Não dá para entender.

Deu mal 2

1) Basta comparar as coberturas da Folha, "Estado" e "Globo" para verificar como o jornal subestimou e cobriu com menos ênfase do que a merecida o Fórum Nacional, encontro anual que, segundo a reportagem (publicada abaixo da dobra, na pág. B 4) é "a principal arena de discussão de temas econômicos no país";

2) Por que os representantes do governo (Mercadante e Marcos Lisboa), contrariando o previsto, faltaram ao encontro? A reportagem não responde.

Artigo

Exigia um chapéu "Análise" ou "Artigo" o abre da pág. B 5 ("EUA tentam dividir o custo de seu ajuste"), editado, equivocadamente, como se fosse uma reportagem.

Indução ao preconceito

O título "Policial é suspeito de participar de assassinato de empresário libanês" (Cotidiano, pág. C 5) me parece equivocado. Que relevância tem, até o momento, o fato de o empresário em questão ser de origem libanesa, ainda mais que se trata de alguém naturalizado brasileiro? Pelo que a notícia mostra, nenhuma.

Corja de ladrões

Na reportagem de capa de Esporte ("Contra lei do torcedor, clubes param futebol"), o presidente do conselho deliberativo do Atlético-MG, contrário à suspensão, chama seus colegas de "corja de ladrões que não querem obedecer às leis". Uau! Não valeria um pingue-pongue com esse homem?

Mc Donalds

O "Diário de S.Paulo", que segunda-feira deu furo sobre a querela entre a rede Mc Donalds e a Receita estadual, informa hoje que o secretário estadual da Fazenda terá de dar explicações à Assembléia Legislativa sobre o ocorrido. A Folha, que ontem tratou do assunto --sem mencionar o "DSP", aliás--, esqueceu-o na edição de hoje. Cabe, creio, manter o leitor informado sobre este caso.

Sucesso?

A nota "Alegria" (com foto) na coluna Mônica Bergamo (Ilustrada) conta da festa para 300 convidados que "comemorou o sucesso de 'Carandiru' no Festival de Cannes". Sucesso? De público, pode ser, mas caberia relativizar a afirmação. Pois, como mostra reportagem na pág. E 3, o filme de Hector Babenco, tão festejado e balado pela mídia no Brasil, "foi o que mais desagradou à crítica" do festival francês.

Esclarecimento

Sobre o item 2 da nota "Juros" da crítica interna de ontem, sobre em que momento o Brasil, em tese, chegaria ao topo do ranking mundial de taxa de juro real (setembro ou novembro), o editor de Dinheiro, Marcio Aith, esclarece, via SR, que:

"A informação publicada está correta. A dúvida do ombudsman provavelmente deve-se ao fato de ele ter considerado que a taxa de juros da Turquia (10,4% em abril) não sofreria variação no tempo. Na trajetória que a consultoria Global Invest traça para os países, todas as taxas vão mudando mês a mês, e a do Brasil, segundo essa estimativa, será mais alta que as demais em setembro".

Agradeço o esclarecimento. Ele deixa claro, creio, que a reportagem teria sido melhor se expusesse a explicação de critérios agora explicitada pelo editor.

     
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