Ombudsman Folha   Folha Online
 
01/08/2001

BERNARDO AJZENBERG

O assunto energia elétrica ganhou hoje a manchete dos dois principais diários em SP. Folha: "Residências poupam 38% de luz"; "Estado": "Governo libera R$ 711 milhões para obras de energia". "O Globo" sai com "Corte tira do Orçamento reajuste dos servidores", antecipando, de certa forma, o que poderá resultar de novo acordo com o FMI. O "JB" traz interessante manchete sobre o acidente de Maresias: "Vôo de Diniz era irregular".
Mas o dia, hoje, sem dúvida, é de Gal Costa (veja a nota "Jogralismo", mais abaixo).

Banana com laranja
O título da chamada da Primeira Página "Blair é 'blefe' para Lula e 'brilhante' para Marta" é tendencioso, forçado e não reflete o que diz o próprio texto. Lula disse ser blefe "...a declaração de Blair de que pretende defender o fim do subsídio agrícola na União Européia". Ao contrário de Marta, não se referiu à pessoa do primeiro-ministro britânico.

Blair no Brasil
A cobertura da visita do chefe de governo britânico tem se limitado à retórica, para não dizer à perfumaria. Como mostra, de passagem, a coluna "No ar", hoje, há uma comitiva empresarial britânica de peso trabalhando nestes dias enquanto o governante promove o lado "político-social". Seria muito mais rico jornalisticamente que a Folha -além de tratar da superfície, é claro- tentasse revelar ao leitor, com informações concretas, o que realmente está em jogo: a ofensiva política e econômica européia (vide a recente visita do francês Lionel Jospin) em direção ao Brasil e aos países mais importantes da América do Sul. O que estão fazendo os executivos e empresários que vieram com Blair?


Inversão?
A retranca "Congresso volta com pacote anticrise" (Brasil, pág. A8) afirma, sobre pendências de precatórios no STF, que "São Paulo tem 2.862 dos 2.463 pedidos por quebra de ordem judicial". Há alguma coisa errada nesses números.

Corrida eleitoral
Os dados da nova pesquisa da CNT sobre a corrida eleitoral ("Tucanos querem ida de Malan para o PSDB", Brasil, pág. A8) mostram que, na verdade, diferentemente do que afirma a reportagem, o segundo lugar continua tão embolado como na pesquisa anterior. As mudanças, todas, nessa faixa, estão dentro da margem de erro da pesquisa. Ciro foi de 13,2% para 11,8%; Garotinho, de 12,5% para 13,4%; Itamar ficou nos 13,8%. Ou seja, com a experiência acumulada que tem com o Datafolha, o jornal não deveria dizer, simplesmente, como diz o texto, que Ciro perdeu posição para Garotinho... Tampouco basta informar que a margem de erro é de três pontos percentuais. O correto, mesmo, seria afirmar que tudo se mantém embolado.

Maluf e Jersey
Registro novamente que o concorrente local parece estar mais "antenado" do que a Folha em caso levantado pelo jornal. O "Estado" traz hoje a informação de que uma juíza federal quer que o caso das contas do ex-prefeito no Reino Unido passe para a esfera federal.

Sísifo
1) A reportagem "Israel mata 8 em bombardeio a Nablus" (Mundo, pág. A12) menciona duas vezes o nome "Arafat" sem explicar (nem antes nem depois) de quem se trata, pressupondo que o leitor seja desde sempre conhecedor prévio do noticiário sobre o conflito israelo-palestino;
2) "CPFL começa amanhã a cortar luz de indústria" (capa de Dinheiro) não informa durante quanto tempo a luz deverá ficar cortada para alguns consumidores em função de não cumprimento reincidente de metas. Será que todos lembram precisamente o que dizia a esse respeito o receituário do "ministério do apagão"?
3) Faltou a idade de Randal Quarles no perfil dele traçado em "Advogado de bancos será novo fiscal norte-americano no FMI" (Dinheiro, pág. B3).

Informação conflitante
A retranca "Achado corpo de piloto a 5 km de Maresias" (capa de Cotidiano) informa que o cadáver "deve ser levado hoje para Vinhedo... ou para natal...". Já a retranca "'Ele salvou quem deu para salvar'", na mesma página, informa que "...será cremado hoje, às 11h, no Crematório da Vila Alpina...".
Sobre o caso, registre-se a possibilidade, levantada pelo "JB", de falha humana como causa do acidente, além da irregularidade do vôo, apontada pelo mesmo jornal.

Jogralismo
O lançamento do novo CD de Gal Costa ganhou hoje as capas de quase todos os cadernos culturais, numa demonstração, a meu ver, de incrível e unânime pobreza editorial, como se os jornais formassem uma espécie de jogral, prontos para reproduzir, exatamente no mesmo dia, os desejos da indústria fonográfica. Veja alguns títulos:
"Entre o amor e a política" (Folha)
"Amorosa e patrulhada" ("Globo")
"Suave e magoada" ("JB")
"O amor a patrulha" ("Correio Braziliense")
Comento o seguinte:
1) A julgar pelas críticas ou comentários (não só da Folha) que acompanham o material (entrevistas, fotos etc), o CD deixa bastante a desejar, o que já seria motivo para se perguntar se vale mesmo uma capa;
2) A cantora, sem nenhuma dúvida orientada por algum especialista, repete em todos os textos a "idéia", o "bordão" de que seu apoio a ACM foi "moral" e não "político" (adiou por dois meses o lançamento do CD até encontrar uma estratégia para se defender...). E ninguém lhe observou, em texto ou entrevista, que o ato de ACM que o levou, no fim, a renunciar não foi apenas político mas também moral (imoral) e ético (antiético)!;
3) O pingue-pongue de Gerald Thomas com a intérprete na capa da Ilustrada é, na verdade, um pequenino bate-papo elogioso entre os dois. Não passa disso. Por que a Folha não conseguiu fazer uma entrevista de verdade com Gal Costa em momento delicado de sua carreira?
4) Será que a Folha precisava mesmo se prestar a fazer parte desse coral de divulgação? Não estava na hora de o jornal afirmar um outro tipo de jornalismo cultural que não seja aquele ditado pela velha e boa "indústria cultural" e sua unicidade midiática? Esta teria sido uma excelente oportunidade;
5) Se a questão era "não ser furado", por que o jornal não publicou o essencial num "em cima da hora", em Cotidiano ou Brasil, na edição de terça-feira, posto que a coletiva com Gal Costa aconteceu durante o dia na segunda-feira?
6) Mais adequadamente, e de modo literalmente excepcional, agiu o "Estado", ao colocar o lançamento em abre de página interna.

     
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