Ombudsman Folha   Folha Online
 
02/08/2001

BERNARDO AJZENBERG

Mais uma vez a Folha e o "Estado" dão como manchete a crise argentina ("Recessão reduz receita e ameaça ajuste argentino" e "Novas ameaças ao ajuste agravam situação argentina", respectivamente). "O Globo", na linha de tentar valorizar as suas exclusividades ou assuntos por ele levantados, sai com "STF diz que reajuste de servidores é obrigatório". O mesmo faz o "JB", com o caso Maresias: "DAC oculta falhas no vôo de Diniz".

Primeira Página
1) A Folha traz hoje a reportagem exclusiva mais importante do dia, senão das últimas semanas ("Espionagem do Exército admite violar direitos civis"). Em vez de elevá-la à condição de manchete, porém, opta pelo óbvio, pelo burocrático e previsível (crise argentina). Não dá para entender essa decisão, ainda mais quando se prega a seletividade no noticiário, a necessidade do "furo" (algo, diga-se, cada vez mais raro). Onde foi parar a ousadia do jornal? Onde foi parar a sua capacidade de ser e de se mostrar diferente dos demais? Se uma reportagem como essa não merece manchete, o que, então, merece, além do supostamente evidente?
2) Falha o jornal ao não dar na capa nem sequer um resultado da primeira rodada do Campeonato Brasileiro de ontem à noite. Será que devido à manipulação "global" o público interessado em futebol vai deixar de querer acompanhar esse torneio e de considerá-lo, de fato, o campeonato brasileiro? É claro que não.

Como se constrói uma mentira
A nota "Para inglês ver" do Painel (pág. A4) traz uma "ironia" do deputado Delfim Netto baseada em afirmação que Lula não fez e que foi, no entanto, artificialmente trabalhada pela Folha: "A Marta chamou o Blair de charmoso. O Lula chamou-o de blefe. Os dois acertaram, não há contradição. Ele é um blefe charmoso", diz o economista na nota. Como afirmei na crítica de ontem, o título da Primeira Página que uniu a declaração de Marta e a suposta declaração de Lula estava errado. Lula disse que uma proposta de Blair sobre subsídios é um blefe, não que o governante britânico o seja. Essa nota amplia o erro, e assim, aos pouquinhos, de modo às vezes ingênuo, se vai construindo uma mentira. O Painel poderá sempre argumentar que quem falou foi o deputado, não o jornal, tendo este apenas reproduzido a brilhante ironia. Ora, se esta tem uma premissa falsa, o jornal deveria, no mínimo, contextualizá-la.

E a senadora gaúcha?
O quadro "Saiba mais" (Brasil, pág. A4) mostra os parlamentares que mudaram de partido na atual legislatura. Ou estou enganado, ou faltou mencionar o caso da senadora gaúcha que entrou para o PT alguns meses atrás. A verificar.

Publicidade
1) Os dizeres "informe publicitário" das duas páginas pagas (A10 e A11) de hoje conseguem estar ainda mais camuflados do que estavam no encarte do real comentado em recente coluna do ombudsman. O aspecto gráfico da propaganda de hoje não "chupa" tanto o da Folha como aquele fazia, mas o problema de fundo é exatamente o mesmo: uma tentativa de ludibriar o leitor, fazendo passar por notícia aquilo que é publicidade. Claro que a publicidade é indispensável, quanto mais nos tempos de dificuldades em que se vive, mas, ao não exigir que esses dizeres estejam bem claros e explícitos para qualquer leitor, o jornal corre o risco de se tornar cúmplice de um engodo;
2) O "Fato relevante" (publicidade) publicado pela Odebrecht à pág. A15 consegue explicar de modo didático o que afinal de contas foi vendido no leilão da Copene, semana passada. Deve servir de exemplo para a Redação, que teve dificuldade para mostrar ao leitor o que estava em jogo naquela disputa.

Subestimação
Mais de cem mil pessoas participaram ontem em Nablus do funeral das vítimas de um ataque israelense perpetrado anteontem. Foi uma manifestação gigantesca, registrada, no entanto, apenas no último parágrafo de "Israel defende ação 'preventiva' de Nablus" (Mundo, pág. A14). Houve, aí, uma inversão, já que a posição israelense era mais do que previsível, enquanto a dimensão do protesto dos palestinos -fato sem dúvida mais importante--, não.

Sísifo
1) Faltou informar quantos habitantes tem hoje o planeta em "População mundial deverá cair até 2100" (Ciência, pág. A16);
2) Faltou a idade do economista e ex-ministro na Panorâmica "Roberto Campos tem melhora gradual" (Brasil, pág. A12);
3) Faltou informar qual é o risco-país da Nigéria na reportagem "Mercado vê Argentina à beira da moratória" (capa de Dinheiro), segundo a qual o "risco-país Argentina chegou ontem a níveis próximos aos da Nigéria, que tem os maiores índices de desconfiança entre os países emergentes". Ou seja: quanto falta para a Argentina "chegar lá"?

Anonimato involuntário?
A reportagem "Grávida, freira some e simula sequestro" (Cotidiano, pág. C4) omite por trás de iniciais (J.P., um perueiro) o nome do homem casado que engravidou a missionária Luzia Postes. Por quê? Terá sido o "pecado" dele maior do que o dela, se é que houve "pecado"? O jornal não dá explicações. A reportagem sobre o assunto no "Agora" informa que identidade do perueiro não foi divulgada e que ele foi apresentado pela polícia apenas pelas iniciais. Ao menos aí se dá uma satisfação ao leitor.
Ainda assim, após ler o mesmo caso no "Diário Popular", que traz o nome completo do homem (Jason Manuel dos Santos), fica uma dúvida: ou a Folha e o "Agora" foram incapazes de obter o que o outro jornal obteve, ou houve uma decisão de não publicar o nome... Claro: não se descarta uma terceira hipótese, a de que o "Diário Popular" tenha inventado um nome --algo que, ao que parece, foi feito pelo "Jornal da Tarde" (que fala em "Gledson" simplesmente).
Em qualquer uma dessas hipóteses, alguma coisa a Folha ficou devendo ao seu leitor.

     
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