Ombudsman Folha   Folha Online
 
03/08/2001

BERNARDO AJZENBERG

Como nos dois dias anteriores, uma vez os dois principais diários paulistas dão manchete, hoje, para o mesmo assunto: "Líderes pressionam Jader a renunciar" (Folha) e "Conselho de Ética abre caminho para cassação de Jader" ("Estado"). "O Globo" ("Receita: maiores sonegadores do país são os fundos de pensão") e o "JB" ("Farra de carros complica deputados") buscam diferenciação.
Registre-se um ponto para a Folha com a foto do texto-legenda "Panorama paulistano", forma esteticamente bem trabalhada de mostrar de modo criativo um fenômeno, no fundo, comum.

Oito ou 80

Depois de manchetar, ontem, com a crise na Argentina em vez de fazê-lo com o material sobre o Exército _o que pressupõe ter havido uma avaliação consistente a respeito da acentuação da gravidade da crise do país vizinho--, a Primeira Página de hoje não traz nenhuma chamada sobre o assunto, o qual, no entanto, ocupa a capa e páginas internas de Dinheiro.
Há, aí, uma incoerência que beira a esquizofrenia editorial.

Garrincha disse mesmo?

Ao explicar a frase com que Jader Barbalho (" tem de combinar antes com os russos") reagiu à notícia de que líderes articulam a sua renúncia (Brasil, pág. A4), a reportagem dá "de barato" que Garrincha de fato falou a mesma coisa para o técnico Feola em 1958. Acho que o mais prudente teria sido dizer que a tal frase é normalmente atribuída ao jogador, objeto de muito folclore, como se sabe. Minha preocupação, aqui, é com que o jornal não reproduza, simplesmente, "verdades populares". Como não tenho certeza, sugiro verificar.

Fiasco ético

"Em reunião, partidos governistas descartam votação de pacote ético" (Brasil, pág. A5) mostra o quanto era vazio, apenas retórico, o discurso de que o Congresso ingressaria, agora, num período de "limpeza".
Justamente por isso, a Folha, ao contrário do que tem feito, deveria entrar mais no caso do uso indevido de verbas de gabinete pelos deputados federais.

Resíduos do caso Painel

1) Já se sabia que a punição para Regina Borges seria relativamente branda. Até por isso, o jornal poderia ter ao menos repercutido a decisão de suspensão com algumas figuras diretamente envolvidas no caso Painel ("Regina Borges recebe suspensão de 90 dias", Brasil, pág. A5). O que acham da punição ACM, Arruda, Dutra, a própria Regina Borges etc? O jornal limitou-se a trazer a informação e as justificativas oficiais para a suspensão;
2) Faltou mostrar, em "Procuradores denunciam Luiz Francisco por quebra de sigilo" (A5), a quais penas estaria ele sujeito, já que foi denunciado com base no artigo 325 do Código Penal. Pode ser preso?

Exército

1) "Inquérito vai apurar espionagem militar" (Brasil, pág. A6) informa que o ministro Geraldo Quintão (Defesa) mandou o Exército apurar o que a reportagem da Folha de ontem apontava. O mesmo texto diz que, segundo seu porta-voz, FHC "não tem conhecimento do assunto". Segundo o "JB", no entanto, foi o presidente da República, num jogo de "empurra", que cobrou tal apuração. A verificar;
2) Faltou o "outro lado" do tal major Garcia, que sofre acusações do juiz Jeferson Schneider em "Deputado pedirá abertura de inquérito militar sobre Araguaia" (Brasil, pág. A6).

Diplomacia

A dança das cadeiras na diplomacia ainda deve render material interessante.
Não está claro, por exemplo, se Paulo Tarso Flecha de Lima foi demitido (por seu apoio e sua ligação com ACM) ou se pediu demissão de seu posto em Roma. Outra informação, trazida hoje pelo "JB", é de que Raul Jungmann deve ocupar a Secretaria de Comunicação, no lugar de Andrea Matarazzo. José Gregori, aparentemente, "chora" para ter mais um tempo na Justiça antes de embarcar para Lisboa. Não é o momento de se tentar fazer uma boa "amarração" (inclusive sob a forma de arte) de todos esses movimentos?

Sísifo
1) Faltaram as idades de Radovan Karadzic e Ratko Mladic em "Principais líderes sérvios da Bósnia estão foragidos" (Mundo, pág. A8);
2) Dois detalhes sobre texto em Cotidiano (pág. C6) que noticia liberação, pelo Ministério da Justiça, de R$ 155,9 milhões para os Estados investirem em segurança pública. No título, o valor foi arredondado: "Planalto libera R$ 155 mi para segurança". O arredondamento, aqui, não seria para R$ 156 mi? E faz sentido usar Planalto no título, quando foi um ministério que liberou o dinheiro?

     
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