Ombudsman Folha   Folha Online
 
06/08/2001

BERNARDO AJZENBERG

Como costuma acontecer às segundas-feiras sem grandes espetáculos esportivos, cada jornal traz tema diferente em destaque em sua capa. Folha: "Violência tira médico da periferia paulistana"; "Estado": "Malan deve ir ao Congresso explicar acordo com o FMI"; "Globo": "Polícia do Rio vai adotar testes de honestidade"; "JB": "INSS simplifica aposentadoria". Apesar do anúncio do novo acordo com o FMI, o assunto do fim de semana foi, ainda, a caso Maresias. E, nesse quesito, sem dúvida marcaram pontos as revistas "Veja" e "Isto É", que conseguiram trazer depoimentos exclusivos, respectivamente, de João Paulo Diniz e dos pais de Fernanda Vogel.

Edição de sábado, 4 de agosto

Desperdício
Em tempo de escassez, causa especial estranheza, à pág. A10, no material sobre MST e Carajás, a publicação de duas retrancas com conteúdos praticamente iguais: "Juíza ainda aguarda novo laudo" e o "Entenda o caso".


FMI
O texto "Brasil tenta respirar com US$ 15 bi do FMI" (capa de Dinheiro) afirma que o atual programa do país com o Fundo estava previsto para acabar em dezembro de 2002. É 2001, certo? Além disso, o texto afirma que em 98 o FMI pôs à disposição do Brasil US$ 41 bi, enquanto a arte menciona US$ 41,5 bi. Uma diferença de US$ 500 milhões. Diz ainda a reportagem que, desse total, US$ 8 bi provinham de Bird e BID. Já a arte fala em US$ 9 bi neste caso (diferença de US$ 1 bi).

De olho no leitor
A reportagem "Dúvida sobre corte de luz lota telefone de distribuidora" (Dinheiro, pág. B4), ao mesmo tempo em que revela as dificuldades dos consumidores, perde uma oportunidade de prestar serviço ao leitor. Por que não uma arte ajudando, justamente, a resolução de dúvidas sobre corte de luz?

Sísifo (fim de semana)
1) Continuam as definições díspares sobre o que é superávit primário. Na pág. B4 (sábado), há duas delas. Por que não uniformizar?
2) O texto "Políticos controlam 24% das TVs do país" (Brasil, pág. A6, segunda-feira) menciona Evandro Carlos de Andrade como ex-diretor de jornalismo da Rede Globo. Faltaram entre parênteses os anos de nascimento e morte. Além disso, se não me engano, neste caso não caberia o "ex", já que o jornalista morreu ainda como ocupante, afastado, do cargo;
3) Falta esclarecer ao leitor o que prevê o ajuste fiscal argentino quanto ao corte de salários de 13%. Vale apenas para funcionários públicos, ou seria geral? A retranca "Argentina enfrenta semana de protestos contra ajuste" (Brasil, pág. A8, segunda-feira) traz as duas formulações;
4) O texto "Brasil quer mais dinheiro do Bird e do BI" (Brasil, pág. A8, segunda-feira) afirma que "por um motivo técnico", os empréstimos dessas duas instituições ajudam a elevar as reservas líquidas do país, contrariamente ao dinheiro do FMI, que só contribui para as reservas brutas. Por quê? Que motivo é esse? Como são compostas as reservas?
5) Faltou a idade do coreógrafo Mats Ek em perfil e pingue-pongue publicados na Ilustrada (pág. E1, segunda-feira).
6) Faltaram as idades da maioria dos jogadores no quadro "Como estão os tetracampeões", em Esporte, pág. D1, segunda-feira, informação básica numa pauta como essa.


Edição de domingo, 5 de agosto

Primeira Página
Causa ruído o texto-legenda "Perdidos na selva" ao descrever como "mulheres" as quatro "evidentemente" adolescentes (ou jovens, se quiser) da comunidade ecológica Atlantis (ótima pauta, aliás). Na foto interna, as moças são tratadas do modo correto.

Dúvida no ar
A reportagem "Espiões do Exército vigiam até o governo" (Brasil, pág. A10) informa em sub-lide que o Exército chega a classificar os jornais segundo a sua "posição partidária" etc. Após a leitura do texto, fica sem resposta uma curiosidade óbvia: o que os documentos dos militares trazem a respeito dos jornais? O que se diz concretamente sobre a Folha, por exemplo? Como ela é classificada? E os demais? Dá a impressão de que o jornal está "escondendo" a informação, que é evidentemente interessante.

Informação pela metade
Em "Falta estrutura para resgate no litoral norte" (Cotidiano, pág. C4), um quadro mostra em ordem decrescente o número de salva-vidas nas praias dessa região. O dado, em si, fica abstrato se não for relacionado ao tamanho/extensão das praias e ao número de frequentadores. Esse cruzamento só é feito, e de forma indireta, em três das 12 praias estudadas.

Diferença
Salta aos olhos de qualquer leitor a diferença entre a Folha e o "Estado" quanto ao espaço editorial dedicado a economia neste domingo. O concorrente traz muito mais material, espalhado em 14 páginas. A Folha tem um caderno com dez páginas, sendo 3,5 ocupadas inteiramente por anúncios.

Edição de segunda-feira, 6 de agosto

Manchete forçada
A reportagem que dá base à manchete "Violência tira médico da periferia paulistana" informa que 90 de 2.000 médicos da prefeitura deixaram o trabalho por causa da violência. Tudo bem. É interessante e digno de registro. Mas trata-se de apenas 4% do total, um percentual, a meu ver, pouco significativo para justificar uma manchete na Folha.

Oriente Médio
Diferentemente dos outros jornais de peso brasileiros e, por exemplo, do
"The New York Times", a Folha abre o material de hoje sobre o conflito israelo-palestino com "Israel mata membro do Hamas em ataque" (Mundo, pág. A10). Os outros (e o "NYT" com chamada destacada em sua Primeira Página de hoje) abrem com o ataque de um palestino a uma instalação militar (Ministério da Defesa) israelense, em Tel Aviv, o primeiro desse tipo, segundo os relatos, desde o início da atual Intifada (setembro). Pelo ineditismo do fato, parece-me que o "NYT" acertou neste caso e que a Folha inverteu o lide.


Macedônia

Afirma o texto "UE anuncia acordo parcial na Macedônia" (Mundo, pág. A11) que o acordo prevê "aumentar em 23% o número de policiais de origem albanesa, em um período de dois anos, contra um efetivo atual de 3%". Não seria um aumento para se chegar a 23%?

Caso Maresias
"Laudo poderá demorar um ano e meio" (Cotidiano, pág. C6) noticia que o delegado responsável pelo inquérito disse que investigará se houve omissão de socorro por parte de João Paulo Diniz, que contou ter perdido Fernanda Vogel no mar. Chamo a atenção para o seguinte: o jornal não deve embarcar em julgamentos a priori. Não que esteja fazendo isso, ao contrário. Mas, nesse exemplo específico, fica a pergunta: por que só Diniz teria, eventualmente, omitido socorro? E o co-piloto? Também este não poderia estar sob a mesma suspeita? Ou o delegado já está fazendo distinção, quanto a isso, entre os dois sobreviventes da tragédia?

Folhainvest
O eixo da edição ("Ponha a boca no trombone"), sobre dicas para se queixar ou tirar dúvidas em órgãos reguladores, é o serviço. Nesse sentido, a meu ver, satisfaz. Mas falta um tanto de senso crítico em relação à eficácia real desses órgãos no atendimento aos consumidores. Somente uma retranca aborda a questão sob esse prisma, e, ainda assim, limitando-se ao BC.

     
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