Ombudsman Folha   Folha Online
 
07/08/2001

BERNARDO AJZENBERG

Dos principais jornais do país, só a Folha deu a morte de Jorge Amado em manchete ("Jorge Amado, 88, morre na Bahia"), assumindo-a como a principal notícia do dia. Os demais também destacaram em suas capas o acontecimento. "JB": "O Brasil amado por Jorge"; "Globo": "Morre o maior romancista do amor"; "Estado": "Brasil perde o escritor Jorge Amado". Pode-se gostar ou não da obra e da pessoa, mas é inegável que a morte de Jorge Amado --seja por sua popularidade, inclusive internacional, seja pelo impacto de seus trabalhos e seu valor histórico, sociológico e cultural-merecia ser manchete. No mais, crise de energia, FMI, desaceleração econômica...

Jorge Amado
Achei adequados o generoso espaço e o grande destaque dedicados pelo jornal à morte do escritor baiano. Dito isso, relaciono a seguir algumas observações:
1) É lamentável, decepcionante, péssimo sinal, que o jornal tenha escolhido o texto de Paulo Coelho como o principal e único, após a manchete, para comentar JA. Nada contra haver um depoimento de Coelho, que, aliás, como se sabe, pleiteia uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (seria a de JA, que agora ficou vaga?). Mas, pergunto: que autoridade a Folha viu em PC para elevá-lo a tanto? Ou se terá guiado pelo fato de ele ser o maior best-seller brasileiro? Temo que essa escolha reflita ou simbolize uma espécie de rendição cultural do jornal;
2) Da mesma forma, inexiste qualquer retranca no caderno especial que mostre aos leitores aspectos críticos em relação à obra do autor baiano. "Globo" e "JB", este último talvez exageradamente, fizeram isso. Com exceção de algumas indagações do texto de Antonio Risério à pág. Especial 3 e de algumas sutis cutucadas (no aspecto político) de Janer Cristaldo à pág. Especial 4, o caderno é todo oba-oba. Pois seria justamente da Folha que qualquer leitor deveria esperar, além das devidas homengens, uma atitude também fria e questionadora do consenso. Isso não aconteceu;
3) A retranca "Jorge Amado morre em..." (pág. 2) chama de "Capitães de Areia" o livro "Capitães DA Areia";
4) A mesma retranca diz que "O Milagre dos Pássaros" saiu em 97, quando ele saiu em 89;
5) A arte "Obra completa" (pág. 3) deixou de incluir o livro "O capeta Carybé", que caberia na parte de biografias ou infantil;
6) A legenda da foto à pág.4 "descreve" a presença de Oswald de Andrade à dir., mas este, na verdade, foi cortado, não aparece na foto. Seu original, publicado, por exemplo, pelo "JB", mostra o autor modernista à direita, com cachecol em volta do pescoço;
7) A reprodução do texto de Albert Camus (pág. 7) não informa que, quando este se refere a "Bahia de todos os Santos", está falando, na verdade, de "Jubiabá", cuja tradução francesa recebeu aquele nome;
8) A arte "A vida do mais célebre..." informa que JA nasceu numa fazenda chamada Auriádia. Segundo uma edição especial publicada sobre vida e obra de JA pelo Instituto Moreira Salles em 97, o nome é Auricídia. A verificar;
9) A mesma arte afirma que em 1926 JA fugiu para vagar durante dois meses pelo sertão. A mesma publicação informa que isso aconteceu, na verdade, em 1924. A verificar;
10) A mesma arte diz que JA passou a viver em Praga, em 1950. Segundo o texto de Cristaldo, porém, foi, sim, na Tchecoslováquia, mas em Dobris, onde havia um castelo da União dos Escritores;
11) A arte informa que em 1961 o autor publicou "A morte e a morte de Quincas..." e "O Capitão de longo Curso". Trata-se, na verdade, de um livro só, "Os Velhos marinheiros", que contém aquelas duas novelas;
12) A arte não menciona o lançamento do livro infantil "A bola e o goleiro", de 1984;
13) Trecho "inédito" do livro "Apostasia...", à pág. 9, embora mais completo, tem pontos divergentes com o mesmo trecho publicado, em 97, pelo caderno especial do IMS acima mencionado. A verificar.

Serra
O ministro da Saúde encabeça três títulos na edição de hoje, sendo que, em dois casos, o assunto não tem nada a ver com a sua pasta: "Serra defende Embraer na compra de caças" (pág. A7), sobre aquisição de aviões pela FAB; "Serra diz que espera explicação de Quintão" (pág. A8), sobre esquema de espionagem do Exército; e "Serra volta a atacar preço de laboratório" (Cotidiano, pág. C6). Não é, no mínimo, um exagero?

Hidrobrasileira...
O "JB" vem trazendo desde ontem reportagem sobre a Hidrobrasileira, empresa do falecido Sérgio Motta. Embora não tenham aflorado elementos nítidos nesse sentido, é inegável que o material pode (ou não) constituir conexão com o dossiê Caribe. A reportagem da Folha deveria entrar no caso.

Sísifo
1) Faltaram as idades de Lino Oviedo e de Alfredo Stroessner, em "STF deve recusar a extradição de Oviedo ao Paraguai" (Mundo, pág. A11);
2) Faltou ouvir Lewis Charles Keith, o ex-executivo do HSBC pivô do caso noticiado em "HSBC montou espionagem no país" (Dinheiro, pág. B10);
3) Mais uma vez o jornal faz reportagem sobre aplicação dos cortes de luz em função de não-cumprimento de metas sem lembrar, ao leitor, quanto tempo dura o corte ("Corte de luz deve atingir quem gasta mais", Dinheiro, pág. B10).

Eliminatórias
A retranca "Brasil x Barcelona abre 'contagem regressiva'" (capa de Esporte) informa que, se perder do Paraguai, no dia 15, a seleção brasileira irá "deixar a zona de classificação para a Copa do Mundo". Certo. Mas fica uma dúvida: se isso ocorrer, quais seriam as chances de o Brasil voltar para a zona de classificação? O que precisaria acontecer, caso o time perca do Paraguai, para, mesmo assim, conseguir ir à Copa? Ou a derrota representaria definitiva eliminação?

Aviso
Devido à participação do ombudsman em seminário em Brasília, não haverá crítica interna amanhã.

     
Leia colunas anteriores publicadas aos domingos Veja quem já foi ombudsman da Folha

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.