Dos principais jornais do país, só a Folha deu a morte de Jorge Amado em manchete ("Jorge Amado, 88, morre na Bahia"), assumindo-a como a principal notícia do dia. Os demais também destacaram em suas capas o acontecimento. "JB": "O Brasil amado por Jorge"; "Globo": "Morre o maior romancista do amor"; "Estado": "Brasil perde o escritor Jorge Amado". Pode-se gostar ou não da obra e da pessoa, mas é inegável que a morte de Jorge Amado --seja por sua popularidade, inclusive internacional, seja pelo impacto de seus trabalhos e seu valor histórico, sociológico e cultural-merecia ser manchete. No mais, crise de energia, FMI, desaceleração econômica...
Jorge Amado Achei adequados o generoso espaço e o grande destaque dedicados pelo jornal à morte do escritor baiano. Dito isso, relaciono a seguir algumas observações: 1) É lamentável, decepcionante, péssimo sinal, que o jornal tenha escolhido o texto de Paulo Coelho como o principal e único, após a manchete, para comentar JA. Nada contra haver um depoimento de Coelho, que, aliás, como se sabe, pleiteia uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (seria a de JA, que agora ficou vaga?). Mas, pergunto: que autoridade a Folha viu em PC para elevá-lo a tanto? Ou se terá guiado pelo fato de ele ser o maior best-seller brasileiro? Temo que essa escolha reflita ou simbolize uma espécie de rendição cultural do jornal; 2) Da mesma forma, inexiste qualquer retranca no caderno especial que mostre aos leitores aspectos críticos em relação à obra do autor baiano. "Globo" e "JB", este último talvez exageradamente, fizeram isso. Com exceção de algumas indagações do texto de Antonio Risério à pág. Especial 3 e de algumas sutis cutucadas (no aspecto político) de Janer Cristaldo à pág. Especial 4, o caderno é todo oba-oba. Pois seria justamente da Folha que qualquer leitor deveria esperar, além das devidas homengens, uma atitude também fria e questionadora do consenso. Isso não aconteceu; 3) A retranca "Jorge Amado morre em..." (pág. 2) chama de "Capitães de Areia" o livro "Capitães DA Areia"; 4) A mesma retranca diz que "O Milagre dos Pássaros" saiu em 97, quando ele saiu em 89; 5) A arte "Obra completa" (pág. 3) deixou de incluir o livro "O capeta Carybé", que caberia na parte de biografias ou infantil; 6) A legenda da foto à pág.4 "descreve" a presença de Oswald de Andrade à dir., mas este, na verdade, foi cortado, não aparece na foto. Seu original, publicado, por exemplo, pelo "JB", mostra o autor modernista à direita, com cachecol em volta do pescoço; 7) A reprodução do texto de Albert Camus (pág. 7) não informa que, quando este se refere a "Bahia de todos os Santos", está falando, na verdade, de "Jubiabá", cuja tradução francesa recebeu aquele nome; 8) A arte "A vida do mais célebre..." informa que JA nasceu numa fazenda chamada Auriádia. Segundo uma edição especial publicada sobre vida e obra de JA pelo Instituto Moreira Salles em 97, o nome é Auricídia. A verificar; 9) A mesma arte afirma que em 1926 JA fugiu para vagar durante dois meses pelo sertão. A mesma publicação informa que isso aconteceu, na verdade, em 1924. A verificar; 10) A mesma arte diz que JA passou a viver em Praga, em 1950. Segundo o texto de Cristaldo, porém, foi, sim, na Tchecoslováquia, mas em Dobris, onde havia um castelo da União dos Escritores; 11) A arte informa que em 1961 o autor publicou "A morte e a morte de Quincas..." e "O Capitão de longo Curso". Trata-se, na verdade, de um livro só, "Os Velhos marinheiros", que contém aquelas duas novelas; 12) A arte não menciona o lançamento do livro infantil "A bola e o goleiro", de 1984; 13) Trecho "inédito" do livro "Apostasia...", à pág. 9, embora mais completo, tem pontos divergentes com o mesmo trecho publicado, em 97, pelo caderno especial do IMS acima mencionado. A verificar.
Serra O ministro da Saúde encabeça três títulos na edição de hoje, sendo que, em dois casos, o assunto não tem nada a ver com a sua pasta: "Serra defende Embraer na compra de caças" (pág. A7), sobre aquisição de aviões pela FAB; "Serra diz que espera explicação de Quintão" (pág. A8), sobre esquema de espionagem do Exército; e "Serra volta a atacar preço de laboratório" (Cotidiano, pág. C6). Não é, no mínimo, um exagero?
Hidrobrasileira... O "JB" vem trazendo desde ontem reportagem sobre a Hidrobrasileira, empresa do falecido Sérgio Motta. Embora não tenham aflorado elementos nítidos nesse sentido, é inegável que o material pode (ou não) constituir conexão com o dossiê Caribe. A reportagem da Folha deveria entrar no caso.
Sísifo 1) Faltaram as idades de Lino Oviedo e de Alfredo Stroessner, em "STF deve recusar a extradição de Oviedo ao Paraguai" (Mundo, pág. A11); 2) Faltou ouvir Lewis Charles Keith, o ex-executivo do HSBC pivô do caso noticiado em "HSBC montou espionagem no país" (Dinheiro, pág. B10); 3) Mais uma vez o jornal faz reportagem sobre aplicação dos cortes de luz em função de não-cumprimento de metas sem lembrar, ao leitor, quanto tempo dura o corte ("Corte de luz deve atingir quem gasta mais", Dinheiro, pág. B10).
Eliminatórias A retranca "Brasil x Barcelona abre 'contagem regressiva'" (capa de Esporte) informa que, se perder do Paraguai, no dia 15, a seleção brasileira irá "deixar a zona de classificação para a Copa do Mundo". Certo. Mas fica uma dúvida: se isso ocorrer, quais seriam as chances de o Brasil voltar para a zona de classificação? O que precisaria acontecer, caso o time perca do Paraguai, para, mesmo assim, conseguir ir à Copa? Ou a derrota representaria definitiva eliminação?
Aviso Devido à participação do ombudsman em seminário em Brasília, não haverá crítica interna amanhã.
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