A manchete da Folha ("Crise de luz pára venda de Furnas") não traz grande impacto ou novidade real. Apenas confirma o que já se esperava e já se noticiara, de forma direta ou indireta, em outras oportunidades. O mesmo vale para a manchete do "Globo" ("Light não tem como cortar a luz de quem estourar meta". O "JB" retoma a linha de manchetar ao máximo com o caso Jader: "Jader embolsou R$ 3 milhões". E o "Estado" mantém a Argentina como prioridade custe o que custar: "Argentina negocia com o FMI ajuda de até US$ 9 bi". Registro para a semelhança (e coincidência) entre as fotos do treino da seleção brasileira da Folha e do "Estado"; uma diferença de menos de um segundo.
Servidores Tende a ficar mais "quente" o tema do reajuste do funcionalismo federal, com o novo acerto com o FMI, que prevê aprofundamento do aperto fiscal. As retrancas "Congresso deve barrar taxação de inativos" e "FHC descarta reajuste retroativo" (Brasil, pág. A5) afirmam que, segundo o governo, houve diversos tipos de aumento para categorias diferenciadas do funcionalismo desde 1995. Para um aprofundamento desse assunto, o ideal seria o jornal poder demonstrar quais foram os reajustes efetivados por categoria do funcionalismo. Ajudaria a entender o que (e quanto) está em jogo, inclusive politicamente.
Título enganoso O título "Comentei a lista com FHC, e ele riu, diz ACM" (Brasil, pág. A6) não reflete o que afirma o ex-senador baiano. ACM declara que comentou com FHC os nomes dos que votaram a favor de Luiz Estevão quando de sua cassação. Dá a entender que o presidente ficou sabendo dos nomes e que portanto ele, ACM, os conhecia, mas não afirma que comentou com o presidente sobre a existência de uma LISTA, o que significaria dizer que FHC tomou conhecimento da violação concreta do painel eletrônico. São coisas diferentes. O título dá a entender que FHC sabia da lista, quando ACM não fala em lista mas sim em nomes.
Mistura A retranca "Procurador responde a inquérito administrativo" (Brasil, pág. A6) noticia que, além de ter sofrido denúncia formal de um par de colegas, o procurador Luiz Francisco é objeto de processo administrativo. OK. O texto, no entanto, acaba misturando os dois processos, sem deixar claro, ao leitor, do que está falando quando menciona a denúncia criminal. Quem não acompanha o assunto não consegue entender, no texto, a diferença entre um processo e o outro, ainda que ambos caminhem em conjunto.
Outro lado ausente "Governo e Exército fazem acordo para punir oficiais" (Brasil, pág. A10) traz a versão oficial, do governo, sobre como teria ocorrido a apreensão, por procuradores, de documentos e materiais do Exército em Marabá (caso levantado pela Folha na semana passada). Embora acusados, nessa versão, de agir irregularmente, os procuradores não são ouvidos pelo jornal. O que eles dizem? Qual é a sua versão?
Sísifo 1) O jornal insiste em confundir o leitor no caso do conceito de superávit primário. A pág. B4, hoje, traz, novamente, duas definições díspares, uma em "Balança em 2002 deve ter US$ 2 bi de superávit", outra em "Dívida pública será recorde até eleição". Já que não há definição no anexo econômico do "Manual" para isso, por que não criá-la?; 2) Da mesma forma, insiste o jornal em "esconder" uma informação básica: quanto dias deve durar o corte de luz daqueles consumidores que não cumpriram suas metas? A lacuna permanece na retranca "Corte em SP deverá começar no dia 15" e na arte da mesma página (Dinheiro, B8); 3) Faltou a idade de Norival da Silva, o protagonista da Panorâmica "Pai mata filho ao limpar sua arma" (Cotidiano, pág. C4). Nesse texto, aliás, o jornal não revela prudência ao assumir como verdadeira a informação de que foi, de fato, um acidente; 4) Faltou a idade do motoboy Francisco de Assis Pereira, o maníaco do parque, em "Maníaco é julgado por homicídio" (Cotidiano, pág. C6); 5) Faltou a idade de João Paulo Diniz em "Aeronáutica vai analisar 'caixa-preta'" (Cotidiano, pág. C12); 6) Faltou a idade do artista plástico Cassio Michalany, em "Cor de Michalany atua sem caprichos direto no mundo" (sic), à pág. E5 da Ilustrada;
Informe publicitário Dada a ênfase que tenho procurado dar à questão, é obrigatório ressaltar que o jornal, hoje, às págs. B6 e B7, registrou de modo claro a condição de "informe publicitário" do material ali publicado, acrescentando, inclusive, esses dizeres, aos que vieram originalmente, camuflados (como da vez anterior), da agência/anunciante, vazados na vertical numa faixa azul.
E a repercussão? As medidas do governo para inibir greves de policiais parecem ter, como o jornal afirma, dimensões bem mais amplas do que aparentam. Por esse motivo, teria sido indispensável ouvir o que pensam sobre elas os sindicatos, centrais sindicais, associações, bem como os governadores, que estarão implicados na sua aplicação. O texto, "Pacote serve para conter polícia e servidor" (Cotidiano, pág. C11), e a arte limitam-se ao conteúdo das medidas.
Arbitragem Não vi o jogo de ontem entre Botafogo e Corinthians. Ao ler sobre o evento hoje ("Arbitragem erra e dá ao Corinthians vitória aos 43min", Esporte, pág. D4), como leitor, senti falta de elementos para acreditar que tenha havido mesmo falha do juiz. Se tivesse visto, com replay e tudo, talvez não ficasse em dúvida. Mas, não sendo esse o caso, creio que o repórter deveria, ao sustentar de alguma forma a sua afirmação de que houve erro, fornecendo ao menos alguns detalhes que lhe dêem base. A quantos metros do lance estava o jornalista, por exemplo? A TV mostrou replay e nele ficou claro o equívoco? O leitor não precisa simplesmente acreditar numa informação peremptória do jornalista, ademais num caso como esse, em que, como se sabe, podem pesar a subjetividade e/ou a capacidade de "enxergar" o lance.
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