Ombudsman Folha   Folha Online
 
10/08/2001

BERNARDO AJZENBERG

Corretamente, "Globo" ("Homem-bomba mata e fere brasileiros em Israel") e "Estado" ("Brasileiro é um dos 15 mortos no atentado em Israel") dão manchete hoje para o atentado em Jerusalém. A Folha preferiu ficar no vai-não-vai da crise argentina, dando ênfase a uma espécie de "cascata" manobrista que o governo do país vizinho tenta vender em Washington: "Argentina negocia nos EUA com apelo político". Já o "JB" entrou com dados próprios, provavelmente apoiados nos mesmos documentos a que a Folha teve acesso, no caso da espionagem do Exército: "Exército simula crime ao espionar".

Primeira Página
1) A opção de manchetar com a Argentina me parece equivocada. Além de Israel, que, creio, deveria ser manchete, há a aprovação, por Bush, de verbas públicas para pesquisas com embriões. Essas duas notícias mereciam maior destaque do que a Argentina, cujo discurso "geopolítico" dificilmente será levado a sério por Washington enquanto elemento para forçar o FMI a fazer isso ou aquilo;
2) A comovente história da faxineira que conseguiu se diplomar em pedagogia (Cotidiano, pág. C8) merecia ao menos uma chamada.

Atentado
1) O editorial "Morte em Jerusalém" fala em pelo menos 16 mortes, enquanto todo o noticiário fala em pelo menos 15 mortes;
2) A Folha foi o jornal que menos material trouxe sobre a família de brasileiros atingida no atentado: 11 linhas justificadas. Há nos outros jornais, inclusive no "Agora", fotos, detalhes da vida, motivos da viagem etc. Não dá para entender tamanha subestimação;

Cachorro morto?
A Folha já está tratando Jader Barbalho como cachorro morto, em contradição com seu projeto editorial. Não há uma única linha de "outro lado" no material "Conta de Jader recebeu R$ 479 mil, diz nota" (Brasil, pág. A7).


Doença de Mestrinho
A retranca "Substituição de Mestrinho piora situação de Jader" (Brasil, pág. A7) informa que o senador amazonense será submetido a "tratamento de quimioterapia em São Paulo durante 30 dias". Na mesma página, "Senador vai fazer radioterapia para combater tumor" noticia que "por enquanto, está descartada a realização de cirurgia e de tratamento quimioterápico". Um dos textos está errado.

Sísifo
1) Faltou a idade do presidente da China, Jiang Zemin, em pingue-pongue à pág. A9 (Mundo);
2) A reportagem "Papel higiênico desafia publicitários" (Dinheiro, pág. B2) afirma que nos EUA peça publicitária utiliza um pato azul e amarelo para veicular o novo produto (papel higiênico úmido). Na ilustração, o pato é verde e vermelho (só o bico é amarelo). O que aconteceu?;
3) Estão equivocados o título e o texto de "Menor rouba ônibus e dirige por 80 km" (Cotidiano, pág. C4). O menino, na verdade, furtou o veículo. Roubo pressupõe ameaça, violência, o que não aconteceu. Veja as definições de roubo e furto à pág. 158 do "Manual".

Ajuda a Buenos Aires
1) Questiono a escolha dessa retranca como capa de Dinheiro (e manchete do jornal). Ela tem seu valor como notícia, é claro, mas cheira a uma tentativa de manobra "rasteira" do governo argentino. Até o momento, nada no noticiário deixa antever uma crise política que possa ter como consequência o tremor institucional que se comenta, ao menos nas proporções alardeadas nessa apelação;
2) O texto "Argentina apela à geopolítica por socorro" (capa de Dinheiro) informa que um empréstimo adicional do FMI àquele país poderia chegar a US$19 bilhões. Até agora, falava-se em algo entre US$ 6 bi e US$ 9 bi. É o que consta, inclusive, da retranca sobre o assunto à página B4. Esse valor, de US$ 19 bi, parece-me equivocado. Sugiro verificar.

Artigo
O texto de Luiz Carlos Mendonça de Barros, Dinheiro, pág. B2, defende haver duas grandes unidades de mercados de crédito. Na primeira, estariam empresas e países "com um risco de crédito acima de um determinado nível". No segundo grupo, "os tomadores de maior risco". Há aí , aparentemente, uma contradição. Sugiro verificar se não houve um erro ao definir o primeiro grupo (composto pelos bons tomadores de empréstimo). Não seriam empresas e países com um risco ABAIXO de um determinado nível? Inversão semelhante está no lide de "Argentina espera por acordo com o Fundo (pág. B4), segundo o qual "o risco-país subiu mais um degrau e agora já é o quarto do planeta". Na verdade, o risco-país, diminuindo, desceu mais um degrau, passando de segundo e terceiro lugares para o quarto. No topo, continua a Nigéria.

Dívida e PIB
Afirma a retranca "Socorro do FMI não afasta riscos de calote do Brasil" (Dinheiro, pág. B3) afirma que o volume da dívida externa do país é de 70% do PIB? É isso mesmo? Temos publicado que gira em torno dos 50%, se não me engano. A verificar.

Pontapé
"CUT inicia campanha salarial dia 17" (Dinheiro pág. B5) diz que uma greve de bancários deverá dar o "pontapé" na campanha salarial unificada da CUT. É "pontapé inicial", certo? Porque "pontapé", sozinho, chama para o sentido contrário (golpe, impulso para cair fora etc).

Pitta versus Marta
O "Globo" traz hoje que a prefeita paulistana vai casar com o franco-argentino Luis Favre -caso nascido há meses na Folha. A ser confirmada, é uma pena que o jornal não o tenha acompanhado, para poder dar essa informação antes. Chama atenção, ironicamente, que a própria Folha, hoje, traga retranca sobre o novo "amor" do ex-prefeito Pitta (pág. C4). Qual "furo" vale mais?

Blair versus "Veja"
"JB" traz notícia de que Blair desmente afirmação sua publicada pela revista, por, talvez, problema de tradução. É caso delicado, pois o assunto é a união monetária na Europa. O caso foi trazido pelo "The Guardian".

     
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