Ombudsman Folha   Folha Online
 
14/08/2001

BERNARDO AJZENBERG

O senador Jader Barbalho volta às manchetes. Folha: "STF amplia quebra de sigilo de Jader"; "Estado": "STF dá início a inquérito contra Jader Barbalho"; "Globo": "Supremo manda Polícia Federal investigar Jader". Dos quatro principais jornais, somente o "JB" ("Renda de R$ 8,5 mil é coisa de rico") saiu com outro assunto. Por falar em "JB", registre-se o furo da entrevista com a mulher do brasileiro morto no atentado da última quinta-feira em pizzaria de Jerusalém, na qual se descrevem momentos dramáticos do evento.

Primeira Página
1) Uma edição mais sofisticada incluiria um trecho da coluna de Carlos Heitor Cony como sub na chamada "Empresários convidam Aécio para jantar em SP". Pois o cronista fala justamente, a seu saboroso modo, das articulações políticas em curso com vistas a 2002;
2) Faltou menção, na capa, à entrevista com Pelé (Esporte, pág. D2). Goste-se ou não, não é todo dia que se tem um pingue-pongue com o "rei", ainda mais à véspera de uma partida decisiva para a seleção brasileira;
3) É polêmico, mas considero imprescindível, ao menos, chamar a atenção para o assunto. Na minha visão, a foto do preso sendo torturado adquire, publicada na capa, um nítido caráter sensacionalista, além do mau gosto. Tomada semelhante, mas mais à distância, trazida pela capa do "Globo", por exemplo, é bem mais recomendável para qualquer café da manhã.

Atentado em Israel
Duas notas no Painel ("Indiferença diplomática..." e "Cobrança oficial") trazem acusação de que a embaixada brasileira em Israel comportou-se mal no tratamento dado aos familiares e ao brasileiro morto ali na quinta-feira passada. Pode ser verdadeiro, e no noticiário sobre o enterro isso já tinha aparecido. Faltou, no entanto, aqui, a versão da embaixada.

Rumo a Qatar
O Painel SA (pág. B2) registra que os organizadores do próximo encontro da Organização Mundial do Comércio, no Qatar, estudam convidar centenas de ONGs para participar do evento. Trata-se de uma estratégia política interessante. Não é o caso de ir atrás, para não haver novas "surpresas" como as de Gênova?

Corta ou não corta?
A retranca "Governo ameaça ir ao STF para garantir corte" (Dinheiro, pág. B10) informa que, segundo a Advocacia Geral da União, "as distribuidoras podem não fazer o corte (de luz) caso exista liminar da Justiça impedindo os cortes". Mas a decisão tomada pelo STF semanas atrás liberando as medidas do racionamento não se sobrepunha/invalidava liminares ou decisões de instâncias inferiores? Pelo menos foi o que se disse à época. Ficou confuso o aspecto jurídico dessa batalha.

Questão de enfoque
Todos trazem mais ou menos os mesmos dados e análises prospectivas, mas a simples comparação de títulos permite captar as sintomáticas diferenças de abordagem para uma mesma notícia (no caso, relatório da FGV sobre as 500 maiores empresas do país):
"Empresas investem menos em expansão" (Folha); "Telesp dá um salto de 27 posições entre as maiores" ("Estado");
"FGV: setor elétrico não tem condição de investir" ("Globo"); "500 maiores lucram alto em 2000" ("JB").
Pela ordem: negativismo; "neutralidade"; "ganchismo" (enfoque imediato); e "otimismo". Melhor isso do que a pasteurização noticiosa.

Fora do contexto
Texto-legenda "Protesto", dentro de Panorâmica à pág. C4, noticia passeata da Força Sindical em São Paulo pelo fornecimento de passes de ônibus a desempregados. A mesma mobilização, no entanto, em textos feitos pelo "Agora" e pelo "Diário Popular", por exemplo, foi bem mais interessante do que o burocrático registro da Folha dá a entender. No mínimo pela faixa trazida pelos manifestantes que alude ao novo "casamento" de Marta Suplicy em tom jocoso, faixa esta legível nos demais jornais mas encoberta (por quê?) na foto da Folha. Não é qualquer coisa. Na verdade, a Força Sindical começa a explorar política e publicamente a vida pessoal da prefeita, num claro propósito de utilizá-la, também, com vistas a atingir PT/Lula/2002. Como se sabe, no mundo da política, nada é por acaso.
Ganha relevância, por isso, também, retranca publicada no "Estado" hoje, segundo a qual o senador Suplicy ataca abertamente Lula e Zé Dirceu como instigadores do novo romance da prefeita e de também fazerem, de certa forma, uso político do caso.
A Folha, que primeiro deu a separação do casal da rua Grécia, vem patinando no assunto, mostrando-se, talvez, intimidada desde o episódio do "informe publicitário" Cláudio Humberto, em abril.
O fato é que o "caso amoroso" está nas ruas, assumido, e, mais do que isso, produz efeitos políticos, públicos, que não devem ser negligenciados. O jornal, acredito, precisa se "relocalizar" na cobertura do assunto, sob pena de ficar para trás.

Sísifo
1) Faltou explicitar o que quer dizer Fundepec, em "Cresce a produção de novilhos precoces" (capa do Agrofolha);
2) Faltou a idade do historiador Evaldo Cabral de Mello, em reportagem e pingue-pongue na capa da Ilustrada.

     
Leia colunas anteriores publicadas aos domingos Veja quem já foi ombudsman da Folha

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.