Ombudsman Folha   Folha Online
 
16/08/2001

BERNARDO AJZENBERG

A aprovação pela Câmara dos Deputados, em primeira votação, do novo Código Civil é a manchete nos principais jornais cariocas. "JB": "Código civil sepulta o machismo", em tom excessivamente otimista. "Globo": "Câmara muda as leis da família e do casamento", didático. A Folha, que antecipou grande parte desse assunto na edição de ontem (ver nota abaixo), optou por realçar avanço nas apurações do caso Jader: "Desvio deu a Jader R$ 7 mi, diz BC". Já o "Estado", em tom palaciano, trouxe: "FHC cobra do Congresso coragem para taxar inativos".
Destaque para a foto de FHC na capa da Folha. Pena que o jornal não soube explorá-la mais, comparando-a internamente, por exemplo, com a famosa foto do ex-presidente Jânio Quadros, à qual a de hoje, claro, faz referência em termos históricos e fotojornalísticos.

Malhação
Por mais que esteja "fácil" bater em Jader Barbalho, dado seu evidente isolamento político, o jornal não deveria ceder à tentação. Mas cede. Isso não se expressa, hoje, no material a que se refere a manchete, mas sim no tratamento dado ao discurso feito ontem pelo senador. Em "Jader volta, discursa, mas não convence senadores" (Brasil, pág. A5), vejo dois problemas:
1) Não se mostra o que o político paraense falou, concretamente, para rebater, no discurso, as acusações existentes contra ele. Limita-se a formulações genéricas, sendo que o senador, certo ou errado, entrou em mais detalhes do que o texto permite supor;
2) A afirmação de que ele não convenceu os senadores não se sustenta no texto. Este traz declarações apenas dos três parlamentares que compõem a comissão designada pelo Conselho de Ética para o caso, sendo que um deles achou que Jader foi "muito convincente". Além disso, a coluna "No ar" (pág. A5) traz um "clima" um tanto diferente, citando, por exemplo, declaração do senador Pedro Simon elogiosa ao discurso.
Ainda sobre esse texto da pág. A5: faltou explicar quem foi o capitão francês Alfred Dreyfus, com quem o senador paraense, ridiculamente, tenta se comparar.

Por fim, registre-se, nessa onda de malhação, o pé da retranca "Garimpeiros também são alvo", do ótimo material sobre espionagem do Exército à pág. A6. Ele diz: "Os arquivos da inteligência do Exército armazenam dados de utilidade duvidosa. Chegam a mencionar encontro de garimpeiros com o senador Jader Barbalho (...) Meticulosa, a arapongagem do Exército informa que Jader comprometeu-se a colocar 'cinco passagens aéreas à disposição' de garimpeiros que teriam uma reunião em Brasília". Primeiro: se o dado tem utilidade duvidosa, por que mencioná-lo no contexto da reportagem, cujos focos são outros? Segundo: por que não se ouviu Jader para saber se isso, de fato, ocorreu? Claro, não se trata, necessariamente, de um crime, mas fica claro o aspecto, digamos, irônico (conquanto objetivo) da menção.

Código de Ética
Não vi na Folha a notícia de que a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou, em primeira votação, o novo Código de Ética dos parlamentares.

Mansur
A reportagem "Oficiais de Justiça intimam Mansur depois de preso" (Dinheiro, pág. B4) não informa ao leitor, em nenhum momento, o motivo pelo qual o empresário está "atrás das grades". Quem não leu os jornais nos últimos dias não entende, ou tende a achar que a prisão se deu por causa da falência do Mappin. Na retranca "Na cela, Mansur rejeita 'quentinha'", faltou a idade do prisioneiro.

Protesto no PR
"Caso Copel destrói Assembléia do Paraná" (Dinheiro, pág. B5) traz um título um tanto exagerado, mas não é esse o problema maior. O que faltou, foi informar quem organiza esses protestos. CUT? PSTU? PT? PDT? UNE? Sindicatos? Quem coordenou a ação dos cerca de 800 manifestantes que invadiram o local? Nada se fala sobre isso.

Código Civil
A Folha antecipou na edição de ontem os principais itens do novo Código Civil que iriam a votação ontem na Câmara. Marcou um ponto com isso. Falha hoje, no entanto, ao não trazer uma linha sequer sobre o fato de que, efetivamente, os deputados aprovaram as mudanças. Deveria fazê-lo, para:
1) registro histórico;
2) informar mais detalhes (por exemplo, que a maioridade passará de 21 anos para 18 anos, o que não constava da reportagem de ontem do jornal);
3) informar as pendências que ficaram ainda para discussão;
4) "bater bumbo" (o que é normal, desde que haja notícia, obviamente, para dar, como é o caso aqui), pela antecipação.

Plano de saúde
Não basta o jornal, como tem feito desde terça-feira, trazer as versões conflitantes de governo e opositores quanto às propostas relativas aos planos de saúde. Se as duas partes afirmam coisas opostas com base no mesmo texto proposto (é o que se deduz da retranca "MP dos planos de saúde vira projeto de lei", em Dinheiro, pág. B10), por que o jornal não mostra concretamente o que diz o projeto e não elucida, afinal, as divergências, procurando, se possível, mostrar de que lado tende a estar a razão nesse e naquele ponto da polêmica? Este seria, a meu ver, um grande serviço nesse assunto.

Pena
Em "STF nega correção de bloqueio de poupança por Plano Collor 1" (Dinheiro, pág. B12), o jornal perdeu a oportunidade de registrar o curioso fato de que o único dos 11 ministros do STF a votar a favor da correção, Marco Aurélio de Mello, é conhecido, entre outras coisas, por ser parente solidário do ex-presidente Fernando Collor.

Sutileza
A arte "Metas do Brasil" (Cotidiano, pág. C7), na reportagem "Brasil descumpre metas para crianças", parece sutilmente tendenciosa. Segundo a reportagem, o país tem 23 metas. Cumpriu oito integralmente e 15 parcialmente. A arte traz apenas o retrato de 19 metas. Ora, em vez de seguir a proporção (35% de metas atingidas, no caso 8 de 23), relaciona as 15 não-cumpridas e apenas quatro (21% de 19) atingidas. Pela proporção, em relação às 19, deveria haver entre 6 e 7 atingidas e o restante não-cumpridas.

Sísifo
1) Faltou a idade da viúva de Jorge Amado em "Zélia anuncia candidatura à vaga na ABL" (Brasil, pág. A10);
2) Referindo-se ao PIB, o texto da capa de Dinheiro afirma que "a taxa caiu 0,99%" em relação ao primeiro trimestre. Não, o que caiu nesse percentual não foi uma taxa. Foi o próprio PIB.

Aviso
O ombudsman participa amanhã de evento sobre jornalismo organizado pelo consulado dos EUA em São Paulo. Por esse motivo, não haverá crítica interna.

     
Leia colunas anteriores publicadas aos domingos Veja quem já foi ombudsman da Folha

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.