A aprovação pela Câmara dos Deputados, em primeira votação, do novo Código Civil é a manchete nos principais jornais cariocas. "JB": "Código civil sepulta o machismo", em tom excessivamente otimista. "Globo": "Câmara muda as leis da família e do casamento", didático. A Folha, que antecipou grande parte desse assunto na edição de ontem (ver nota abaixo), optou por realçar avanço nas apurações do caso Jader: "Desvio deu a Jader R$ 7 mi, diz BC". Já o "Estado", em tom palaciano, trouxe: "FHC cobra do Congresso coragem para taxar inativos". Destaque para a foto de FHC na capa da Folha. Pena que o jornal não soube explorá-la mais, comparando-a internamente, por exemplo, com a famosa foto do ex-presidente Jânio Quadros, à qual a de hoje, claro, faz referência em termos históricos e fotojornalísticos.
Malhação Por mais que esteja "fácil" bater em Jader Barbalho, dado seu evidente isolamento político, o jornal não deveria ceder à tentação. Mas cede. Isso não se expressa, hoje, no material a que se refere a manchete, mas sim no tratamento dado ao discurso feito ontem pelo senador. Em "Jader volta, discursa, mas não convence senadores" (Brasil, pág. A5), vejo dois problemas: 1) Não se mostra o que o político paraense falou, concretamente, para rebater, no discurso, as acusações existentes contra ele. Limita-se a formulações genéricas, sendo que o senador, certo ou errado, entrou em mais detalhes do que o texto permite supor; 2) A afirmação de que ele não convenceu os senadores não se sustenta no texto. Este traz declarações apenas dos três parlamentares que compõem a comissão designada pelo Conselho de Ética para o caso, sendo que um deles achou que Jader foi "muito convincente". Além disso, a coluna "No ar" (pág. A5) traz um "clima" um tanto diferente, citando, por exemplo, declaração do senador Pedro Simon elogiosa ao discurso. Ainda sobre esse texto da pág. A5: faltou explicar quem foi o capitão francês Alfred Dreyfus, com quem o senador paraense, ridiculamente, tenta se comparar.
Por fim, registre-se, nessa onda de malhação, o pé da retranca "Garimpeiros também são alvo", do ótimo material sobre espionagem do Exército à pág. A6. Ele diz: "Os arquivos da inteligência do Exército armazenam dados de utilidade duvidosa. Chegam a mencionar encontro de garimpeiros com o senador Jader Barbalho (...) Meticulosa, a arapongagem do Exército informa que Jader comprometeu-se a colocar 'cinco passagens aéreas à disposição' de garimpeiros que teriam uma reunião em Brasília". Primeiro: se o dado tem utilidade duvidosa, por que mencioná-lo no contexto da reportagem, cujos focos são outros? Segundo: por que não se ouviu Jader para saber se isso, de fato, ocorreu? Claro, não se trata, necessariamente, de um crime, mas fica claro o aspecto, digamos, irônico (conquanto objetivo) da menção.
Código de Ética Não vi na Folha a notícia de que a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou, em primeira votação, o novo Código de Ética dos parlamentares.
Mansur A reportagem "Oficiais de Justiça intimam Mansur depois de preso" (Dinheiro, pág. B4) não informa ao leitor, em nenhum momento, o motivo pelo qual o empresário está "atrás das grades". Quem não leu os jornais nos últimos dias não entende, ou tende a achar que a prisão se deu por causa da falência do Mappin. Na retranca "Na cela, Mansur rejeita 'quentinha'", faltou a idade do prisioneiro.
Protesto no PR "Caso Copel destrói Assembléia do Paraná" (Dinheiro, pág. B5) traz um título um tanto exagerado, mas não é esse o problema maior. O que faltou, foi informar quem organiza esses protestos. CUT? PSTU? PT? PDT? UNE? Sindicatos? Quem coordenou a ação dos cerca de 800 manifestantes que invadiram o local? Nada se fala sobre isso.
Código Civil A Folha antecipou na edição de ontem os principais itens do novo Código Civil que iriam a votação ontem na Câmara. Marcou um ponto com isso. Falha hoje, no entanto, ao não trazer uma linha sequer sobre o fato de que, efetivamente, os deputados aprovaram as mudanças. Deveria fazê-lo, para: 1) registro histórico; 2) informar mais detalhes (por exemplo, que a maioridade passará de 21 anos para 18 anos, o que não constava da reportagem de ontem do jornal); 3) informar as pendências que ficaram ainda para discussão; 4) "bater bumbo" (o que é normal, desde que haja notícia, obviamente, para dar, como é o caso aqui), pela antecipação.
Plano de saúde Não basta o jornal, como tem feito desde terça-feira, trazer as versões conflitantes de governo e opositores quanto às propostas relativas aos planos de saúde. Se as duas partes afirmam coisas opostas com base no mesmo texto proposto (é o que se deduz da retranca "MP dos planos de saúde vira projeto de lei", em Dinheiro, pág. B10), por que o jornal não mostra concretamente o que diz o projeto e não elucida, afinal, as divergências, procurando, se possível, mostrar de que lado tende a estar a razão nesse e naquele ponto da polêmica? Este seria, a meu ver, um grande serviço nesse assunto.
Pena Em "STF nega correção de bloqueio de poupança por Plano Collor 1" (Dinheiro, pág. B12), o jornal perdeu a oportunidade de registrar o curioso fato de que o único dos 11 ministros do STF a votar a favor da correção, Marco Aurélio de Mello, é conhecido, entre outras coisas, por ser parente solidário do ex-presidente Fernando Collor.
Sutileza A arte "Metas do Brasil" (Cotidiano, pág. C7), na reportagem "Brasil descumpre metas para crianças", parece sutilmente tendenciosa. Segundo a reportagem, o país tem 23 metas. Cumpriu oito integralmente e 15 parcialmente. A arte traz apenas o retrato de 19 metas. Ora, em vez de seguir a proporção (35% de metas atingidas, no caso 8 de 23), relaciona as 15 não-cumpridas e apenas quatro (21% de 19) atingidas. Pela proporção, em relação às 19, deveria haver entre 6 e 7 atingidas e o restante não-cumpridas.
Sísifo 1) Faltou a idade da viúva de Jorge Amado em "Zélia anuncia candidatura à vaga na ABL" (Brasil, pág. A10); 2) Referindo-se ao PIB, o texto da capa de Dinheiro afirma que "a taxa caiu 0,99%" em relação ao primeiro trimestre. Não, o que caiu nesse percentual não foi uma taxa. Foi o próprio PIB.
Aviso O ombudsman participa amanhã de evento sobre jornalismo organizado pelo consulado dos EUA em São Paulo. Por esse motivo, não haverá crítica interna.
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