Ombudsman Folha   Folha Online
 
23/08/2001

BERNARDO AJZENBERG

Apesar de esperada pelo chamado mercado, a decisão do Copom, de manter os juros básicos, é a manchete de três dos principais diários hoje. Folha: "Governo interrompe alta dos juros"; "Globo": "Queda do PIB impede que BC altere os juros"; e "Estado": "BC mantém o juro básico em 19% ao ano". O "JB", que desde ontem entrou "pesado" no caso Maluf, manteve o assunto hoje em manchete: "Suíça apura se Maluf lavou dinheiro". A Folha, que o inaugurou em junho, traz o caso hoje apenas como chamada de um módulo, abaixo da dobra, em sua capa. Sobre isso, aliás, é interessante observar que o "Valor", jornal econômico, realçou em sua capa o isolamento político crescente do ex-prefeito paulistano.

Funcionalismo
Pífia a cobertura da greve do funcionalismo federal, até mesmo para mostrar o seu fracasso no primeiro dia (Brasil, pág. A4). O jornal reporta informações (parciais) apenas sobre o DF, Rio, Porto Alegre, Pará, Manaus, Pernambuco e São Carlos. É pouco para um país como o Brasil. E São Paulo, BH, Curitiba, Salvador? Além disso, acredito que a Folha deve ao leitor material mais consistente sobre esse assunto como um todo. Por que a adesão à greve foi tão pequena (10%)? Como é possível que o pacote salarial decretado, com percentual tão baixo de reajuste (3,5%), tenha conseguido esvaziá-la? O fato é que não está claro, no noticiário, o real impacto desse pacote no bolso do funcionalismo, em suas diferentes categorias. Ou então, a total impotência das liderenças sindicais.

IR e outros impostos
Tudo bem que o mais relevante na reunião de ontem da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara tenha sido a aprovação do reajuste da tabela do IR para pessoas físicas ("Governo já admite negociar tabela do IR", Brasil, pág. A5). Mas a outra medida aprovada ali, de acabar com a "acumulatividade" de tributos para empresas, merecia bem mais do que um mero registro ao pé desse mesmo texto. É uma das principais reivindicações do empresariado em termos de reforma tributária.

O que é lavar?
Para quem conhece o assunto pode parecer óbvio, mas o fato é que muitos leitores não sabem o que quer dizer lavagem de dinheiro, muito menos como ela acontece. No material sobre o caso Maluf (Brasil, pág. A6), faltou mostrar ao menos algumas modalidades de lavagem, até para que o leitor entenda as acusações que pesam sobre o ex-prefeito na Suíça. Aliás, quais são elas, exatamente? Não está claro.

Outro lado
1) A retranca "Ministério da Educação rejeita cota para negros" (Mundo, pág. A14) falha ao não trazer os argumentos daqueles que defendem as cotas. O erro é mais patente quando se considera que hoje mesmo o jornal publica editorial sobre o assunto, na mesma linha do Ministério;
2) A reportagem "Anvisa apura acusação de 'maquiagem' de Atroveran" (Dinheiro, pág. B4) é um típico caso em que o "outro lado" impõe apuração mais aprofundada. A própria Anvisa diz que vai ainda apurar se há problemas. A empresa afirma ter provas de que não cometeu irregularidade. O repórter viu essas provas? Será que a Folha, neste caso, não está caindo numa espécie de lobby midiático do Ministério da Saúde?
3) O texto "Casal acusa seguranças de agressão" (Cotidiano, pág. C4) não ouve o supermercado Master, no Rio, onde o fato teria acontecido;
4) Totalmente desproporcional e burocrático o "outro lado" concedido ao presidente da CBF, Ricardo Teixeira, em ""CPI inicia seu maior ataque a Teixeira" (Esporte, pág. D1).

"Nature" em alta
Três das cinco retrancas de Ciência (pág. A15) baseiam-se em material publicado hoje pela revista britânica "Nature", e o mencionam em seus textos. Não é um exagero?

Equalização versus subsídio
A crise das empresas aéreas coloca em pauta a intervenção do Estado no setor. Na reportagem "Governo tenta salvar setor aéreo" (Dinheiro, pág. B2), afirma-se estar em curso uma discussão sobre a "equalização de custos entre as empresas nacionais e estrangeiros nos vôos internacionais". Se bem entendi, trata-se de um eufemismo, para não dizer que o governo discute, na verdade, um subsídio para o setor. Creio que o assunto é da maior importância, em especial, para o público da Folha, e que o jornal precisaria explorá-lo mais.


Números
1) Pelo menos dois números divergentes aparecem hoje em Dinheiro sobre a dívida pública argentina: US$ 132 bi (quadro à pág. B12) e US$ 128 bi na retranca "Wall Street recebe...", à pág. B8. Um valor de US$ 90 bilhões, designando, aparentemente o mesmo indicador, está em "Reestruturar dívida é..." (pág. B12), mas não fica claro se se refere mesmo ao conjunto da dívida ou a uma parte dela;
2) O abre da capa de Cotidiano afirma que o Ministério da Saúde deixará de gastar cerca de US$ 88 milhões/ano com a quebra de patente do nelfinavir.
Já a retranca de "outro lado" diz que se trata de R$ 88 milhões. Afinal, são dólares ou reais?

Informe publicitário
Dê uma olhada na pág. 5 da Folha Equilíbrio. É evidente que faltaram os dizeres "Informe publicitário" no anúncio sobre depressão. Qualquer pessoa menos experiente começará a ler aquilo como conteúdo editorial e não comercial.

Sísifo
Faltou a idade do procurador-geral do BC José Coêlho Ferreira, aprovado ontem para ocupar vaga no STM (Brasil, pág. A11).

     
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