A frase de efeito de FHC ("exportar ou morrer") é a manchete dos principais diários ("Estado": "'É exportar ou morrer', diz FHC aos empresários"; "Globo": "FH: 'Exportar ou morrer'"; "JB": "'Exportar ou morrer', brada FH"), com exceção da Folha ("Crise reduz a procura por emprego"). Só o "Globo" não deu na capa a foto do dublê francês resgatado dos braços da Estátua da Liberdade, em Nova York. "Estado" traz chamada de três colunas, acima da dobra, sobre o caso Maluf/Jersey, com uma novidade importante (leia nota).
Mentiu ou não mentiu? A reportagem "Comissão já dá como certo o processo contra Jader" (Brasil, pág. A4) informa que os membros da comissão do Conselho de Ética que apura o caso Jader "buscam uma forma alternativa de acusá-lo por quebra de decoro que não seja necessariamente a mentira". O texto dá a entender que estaria sendo difícil, para eles, sustentar a tese de que o senador paraense mentiu em plenário. Na retranca "Comissão extrapola atribuições, diz senador" (mesma página), afirma-se que "haveria uma mentira" em pronunciamento do senador sobre a questão das TDAs. Ora, a própria Folha publicou, em 20 de julho, reportagem segundo a qual Jader mentiu, claramente, ao plenário (a chamada, na capa, foi: "Senador mentiu sobre compra de fazenda no PA"). Pode até ser que os membros da comissão discordem dessa afirmação ou não vejam elementos para sustentá-la. Mas neste momento o jornal deveria fazê-lo, ou então admitir que aquela reportagem não estava tão correta assim.
Maluf/Jersey Na batalha por novidades no caso, o "Estado" hoje marca um ponto. Ao mostrar argumentos usados por advogados do ex-prefeito para tentar desbloquear seu dinheiro no canal da Mancha, o jornal concorrente revela uma espécie de confissão indireta de Maluf de que é, sim, dono da conta no paraíso fiscal. No caso do material da Folha, há no quadro uma formulação ambígua: "A pedido dos promotores brasileiros, a polícia de Jersey confirma o bloqueio das contas". Qual é o sentido de "confirma", aqui? A polícia apenas diz que o bloqueio existe? Ou o quadro quer dizer que Jersey manteve o bloqueio a pedido dos promotores? Não é uma questão menor, pois se trata, justamente, de uma das perguntas que o noticiário ainda não conseguiu responder: de onde veio, afinal, a denúncia contra Maluf?
Guerra na telecomunicação Há um esforço evidente em "Grupos criticam projeto de nova lei para radiodifusão" (Brasil, pág. A9) no sentido de explicar o pano de fundo das divergências e críticas quanto à proposta de Pimenta da Veiga. Mas fica no ar um item: qual seria a posição da Globo? Segundo o texto, diferentemente da Abril, o grupo não mandou sugestão na "consulta pública". Corre a versão, no entanto, de que a Abert (associação das emissoras), que se posicionou no processo, é controlada pela Globo. Por traz do texto, então, estaria, na verdade, o retrato de um conflito entre o grupo Abril e as Organizações Globo. Se isso está certo, e faço mais como observação interrogativa, não seria o caso de explicitar?
Desalento? A manchete do jornal e a capa de Dinheiro ("Freada reduz procura e o desemprego cai", com a sobrelinha "Taxa é menor por causa do desalento, ou seja, desânimo faz desempregado deixar de procurar trabalho") noticiam de forma acrítica a versão do IBGE de que o motivo pelo qual a taxa de desemprego caiu seriam o desânimo, a falta de estímulo dos desempregados, que não estão buscando nova colocação. Posso estar enganado, mas essa interpretação subjetiva, quase psicológica, me parece um engodo. Os desempregados estão fazendo o que para comer e dar de comer aos familiares? O mais provável é que não existam novas vagas a serem procuradas, como sugere o economista Marcelo Neri, tímido contraponto na reportagem.
Brasil versus Canadá A retranca "OMC autoriza uso do Proex para financiamento de aviões, avalia Embraer" (Dinheiro, pág. B2) deixa no ar uma interrogação. Se se trata de uma "avaliação" dessa empresa, não está clara qual foi, afinal, a decisão da OMC. Se não está clara, qual é, então, a "avaliação" dos canadenses (o outro lado interessado na história)? Afinal, a decisão é ou não, de fato, favorável ao Brasil?
Exportações Afirma a retranca "País pede choque de exportação, diz Amaral" (Dinheiro, pág. B4) que FHC, então candidato, em 98, "incluiu no programa a meta de dobrar as exportações de US$ 50 milhões para US$ 100 bilhões até o fim de 2002". São US$ 50 BIlhões, certo? No mesmo texto, há um deslize. Ele afirma que Amaral "...era o atual (sic) embaixador do Brasil no Reino Unido...".
O caso Mauá 1) Diferentemente do que afirma o título "PSDB e PT anistiaram obra ilegal em Mauá" (capa de Cotidiano), foram os dois últimos prefeitos da cidade (e não seus partidos) que fizeram isso. É necessário estabelecer as diferenças. Tanto é assim, que a retranca "Pedido bloqueio de bens de quatro empresas" (pág. C4) noticia que o Ministério Público pretende analisar as responsabilidades da Prefeitura de Mauá no caso, não as responsabilidades do PSDB ou do PT. 2) A retranca "Início de análise do ar não tem data" traz interessante argumento do secretário de Saúde da cidade sobre o cancerígeno benzeno. Ele diz que a substância está presente na gasolina e "nem por isso quem dirige um carro está exposto". Vale a pena ir atrás. Se é isso mesmo, a gravidade do problema pode ser menor. Se não é, os motoristas de carro estão sofrendo sérios riscos. É isso mesmo?
Contestação Recebi do editor de Ciência, Marcelo Leite, via SR, a seguinte resposta à nota "'Nature' em alta" da crítica de ontem:
"Não seria um exagero publicar nem mesmo todas as retrancas de Ciência com base em trabalhos publicados na revista "Nature", num mesmo dia, por uma simples razão: em pesquisa, em princípio é notícia quase tudo que sai na mais tradicional publicação científica do mundo, fundada em 1869 (v. abaixo).
Não se trata de uma revista de divulgação, como "New Scientist", "Discover" ou "Galileo", mas de um "journal", como se diz no jargão, que só publica pesquisas originais depois de submetidas a árbitros anônimos ("referees"), no processo que ficou conhecido como "peer review". Em outras palavras, só saem na "Nature" pesquisas auditadas quanto à sua qualidade e que venceram outras centenas ou milhares de trabalhos do mundo inteiro. Poucos cientistas brasileiros conseguem publicar na "Nature", por exemplo (o genoma da Xylella é uma exceção recente e notória).
Também não é clara a seguinte observação do ombudsman: "...e o mencionam em seus textos". Se for uma insinuação de que não deveríamos mencionar, não tem cabimento. Primeiro, por ser nossa obrigação citar a fonte. Depois, porque com isso _e também mencionando o URL da revista na internet_ permitimos ao leitor ter acesso ao material original. Vale dizer, prestamos um serviço.
Seria mais produtivo se o ombudsman indicasse qual é, afinal, o problema."
Comento o seguinte: a preocupação, nesse caso, é no sentido de que jornal não vire um boletim de divulgação da "Nature". Apenas isso. Quanto ao crédito, é evidente que ele deve ser, sempre, devidamente anotado.
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