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03/09/2001

BERNARDO AJZENBERG

O caso Abravanel e seu "day after" eclipsaram o restante do noticiário no fim de semana. Foi o assunto principal nas capas das revistas e nas páginas dos jornais. Não por acaso, as manchetes foram díspares, com exceção do domingo, quando havia o "hard news" do anúncio de FHC de que será ampliada a faixa de consumidores favorecidos com bônus por cumprirem suas metas de consumo de energia. Hoje, os quatro principais jornais mantêm a (saudável) disparidade: Folha: "Diminui rejeição de paulistanos ao governo Marta"; "JB": "Uma em três mulheres foi esterilizada"; "Globo": "Técnicos prevêem o fim do racionamento em novembro"; "Estado": "Para Cavallo, a economia argentina dá sinais de reação".

Edição de sábado, 1 de setembro
Primeira Página
Detalhe: a chamada "Acordo faz cair o preço de remédio contra Aids" tem remissão para a pág. C7, quando o respectivo noticiário (na edição SP) se encontra na C9.


Números
O quadro "Como ficou o orçamento para 2002" (Brasil, pág. A4) informa que as despesas previstas no próximo ano são de R$ 273,8 bi. O texto da reportagem traz outro valor: R$ 279,2 bilhões. Qual é o certo?

Edição de domingo, 2 de setembro
Primeira Página
A reportagem a que se refere a chamada "Grampo contra o tráfico pegou guerra das teles" merecia bem mais destaque do que uma chamada de um módulo abaixo da dobra. É o típico trabalho exclusivo de investigação que precisa ser mais valorizado pelo jornal. Revela um universo desconhecido -a exploração indireta da quebra de sigilos, seus subprodutos--, cuja continuidade, se for dada pela Folha, certamente poderá render muito mais.

Caso Jersey
1) O processo de lavagem de dinheiro é tratado pelo jornal como se seus leitores fossem "do ramo". Quem sabe como se dá, concretamente, esse processo? No material sobre o caso Jersey (págs. A5 e A6), não há explicações. Claro, não é esse o centro da preocupação nas apurações, mas, para o leitor, entender esse mecanismo é importante para que o próprio noticiário não fique uma abstração.
2) A retranca "Maluf nega ter empresas e desafia vereadora a provar ligações a Jersey" (pág. A7) afirma que o ex-prefeito está processando os promotores que investigam o caso. Algumas semanas atrás, reportagem da Folha trazia que, além dos promotores, Maluf também ameaçava processar o repórter que noticiou o caso. Como ficou? Maluf desistiu? Por que o jornal não diz nada?

Racismo cordial
1) Retranca à pág. A18 (Mundo) traz como título "Crescem iniciativas de ação afirmativa para negros e índios". Afirma em sobrelinha que "multiplicam-se no país ações que facilitam o acesso de minorias à educação superior". O texto, porém, não relaciona mais do que cinco iniciativas isoladas, duas pelo menos existentes há mais de dois anos. Título e sobrelinha, portanto, não condizem com a realidade do texto, que mostra, pela negativa, que "inexistem" iniciativas de ação afirmativa no país;
2) Há um "pastel" no texto "Reunião discute o drama dos imigrantes" (Mundo, pág. A20), sobre o encontro em Durban. Repete-se o trecho que traz o número de trabalhadores espalhados por continente.

Revistas femininas
A curiosa reportagem "Cuba ressuscita revistas para mulheres" (Mundo, pág. A23) peca ao não informar ao leitor qual é a relação entre as duas mencionadas revistas e o Estado ou o governo cubano. Qual é o grau de independência que possuem essas publicações? Presume-se que seja mínimo, mas o texto não trata do assunto. Nesse sentido, mesmo sem querer, resvala para o publicismo.

Sem contexto
O pingue-pongue com Armindo Maia, reitor da Universidade de Timor (Mundo, pág. A23), está totalmente fora de contexto, como se fosse um material que sobrou de edição anterior. Quantos leitores acompanham o que se passa naquele país a ponto de dispensarem uma contextualização?

Mais de 100%
Somam 112% as participações de países ou blocos no quadro "Os principais mercados para onde o Brasil exporta" (Dinheiro, pág. B4). Alguma coisa está errada. Deveria dar 100%, certo? A verificar.

Recessão mundial
Sei que a questão é complexa, mas seria importante, para o jornal, uniformizar os conceitos. A reportagem de capa de Dinheiro afirma que "...a economia mundial está entrando em recessão". Texto à pág. B3 informa que "...a recessão mundial e a crise argentina provocaram a diminuição...", dando de barato que o mundo já entrou em recessão. Uma terceira abordagem está na pág. B4 ("Crise mundial já afeta vendas brasileiras"): "...aumentaram as expectativas em torno de uma recessão mundial...". Todas podem estar mais ou menos certas, mas é preciso aprofundar a discussão sobre o assunto e, a partir daí, passar ao leitor uma visão mais uniforme sobre o que já está, de fato, acontecendo. O tema, aliás, é retomado pelo Folhainvest de hoje (Segunda-feira), sob um quarto enfoque: há uma "desaceleração" da economia mundial.

Nova concorrência
A reportagem sobre novos aditamentos na construção da linha 5 do metrô (págs. C1 e C2) levanta a questão mas acaba não respondendo: por que não foram feitas novas concorrências, conforme a legislação, já que o valor dos aditamentos supera os 25% previstos em lei? O que dizem os juristas nos quais o governo de SP se baseia para alegar falta de irregularidade?

Legenda e foto
No quadro "As grandes 'deixadinhas' da F-1" (Esporte, pág. D7), a legenda da foto menciona GP de 1951, enquanto o texto que a ela se refere, logo abaixo, fala em 1955. No mesmo quadro, no que se refere ao GP da Malásia (1999), há uma foto de Hakkinen, quando deveria haver uma de Irvine. Não é o caso de ERRAMOS?

Revista questionada
Carta de leitora protagonista de reportagem da semana passada sobre mulheres acima dos 50 anos que se separam desmente na própria revista (pág. 54), categoricamente, afirmações daquele texto. Como não há uma NR replicando-a, acredita-se que a leitora tenha razão. Nesse caso, por que não se publica um ERRAMOS?

Edição de segunda-feira, 3 de setembro

Guga ausente
O exemplar do "Estado" que recebi em casa traz o resultado do jogo de Guga no US Open. O da Folha não traz nada, a não ser menção de que o jogo estava previsto para acontecer. No último clichê (1h30), há reportagem. Mas quantos leitores terão tido o privilégio da informação?

Primeira Página
Merecia menção na capa do jornal a morte do cirurgião Christiaan Barnard, pioneiro do primeiro transplante do coração. O erro se repete dentro do jornal, onde apenas uma notinha foi dada, em Mortes.

A Folha e as pesquisas
Manchete do jornal e capa de Cotidiano, a edição da pesquisa sobre o governo e a pessoa de Marta Suplicy não faz mais do que transcrever o trabalho dos pesquisadores do Datafolha. É quase relatorial. Não há nenhum trabalho de repercussão, de especulação de especialistas. Ontem mesmo, o "NYT" publicou reportagem, por exemplo, sobre o caso Marta-Favre e suas implicações políticas e pessoais. Por que o jornal não traz nada a respeito desse texto na edição dessa pesquisa? O mesmo aconteceu, aliás, com a pesquisa sobre Maluf, publicada sábado. É uma questão de fundo: como usufruir jornalisticamente (e não apenas reproduzir) as pesquisas do Datafolha? Como não desperdiçá-las?

Sísifo (alguns casos)
1) Faltou a idade do secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, em pingue-pongue à pág. A4, Brasil, sábado;
2) Faltou a idade da governadora do MA, Roseana Sarney, no side "Profissão de fé", em Brasil, pág. A6, Sábado;
3) Faltou a idade do ministro Sérgio Amaral, em pingue-pongue à pág. B4, Dinheiro, domingo;
4) Faltou a idade do presidente da CPTM, Oliver Salles de Lima, em pingue-pongue à pág. C3, Cotidiano, domingo;
5) Faltou a idade de Schumacher no material sobre o recorde que o alemão bateu ontem (Esporte, pág. D8, segunda).

     
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