Ombudsman Folha   Folha Online
 
06/09/2001

BERNARDO AJZENBERG

Os dois principais jornais do Rio, embora em direções interpretativas opostas, dão manchete para o código de ética aprovado (em caráter não-definitivo, conforme destaca a Folha) pela Câmara: "JB": "Deputados trancam sigilo fiscal"; "Globo": "Câmara quebra o sigilo fiscal de deputados". O "Estado" destaca avaliação positiva referente ao desempenho da economia ("Indústria eletrônica aumenta vendas e afasta pessimismo"), enquanto a Folha antecipa o que deverá ser a nova posição do governo sobre a (inevitável) alteração na tabela do IR. A derrota da seleção brasileira em Buenos Aires ganhou a foto principal nos quatro jornais.

Foto na Primeira
Salvo engano, diferentemente do que afirma a legenda, não parece que Rivaldo esteja sendo atingido pelo jogador argentino. Os movimentos indicam que este último acaba de dar um chute na bola e que o brasileiro apenas se protege. A verificar.

Juvêncio quem?
Em "PMDB derruba Mestrinho para tentar salvar Jader" (Brasil, pág. A4), faltou o perfil do novo presidente do Conselho de Ética do Senado, Juvêncio Fonseca.

Cachorro morto?
Não deixa de ter lógica a argumentação de Jader Barbalho contra o fato de a comissão do Conselho de Ética estar apurando dados relativos ao caso Banpará ("Senador protesta contra a atuação de comissão", Brasil, pág. A4). Segundo ele, isso nada teria a ver com quebra de decoro parlamentar. Por trás disso, creio, está uma questão ainda não resolvida, nem pelos senadores nem pela Folha: afinal, Jader mentiu ou não ao plenário? Como já escrevi em críticas anteriores, não entendo por que o jornal não retoma reportagem publicada em 20 de julho sobre o assunto, segundo a qual Jader, sim, claramente, mentiu. Ou o jornal estava enganado?

Divergências no PT?
A reportagem "Deputados aprovam Código de Ética" (Brasil, pág. A4) traz declaração de Luiz Eduardo Greenhalgh conflitante com a posição de seu partido (PT) quanto à necessidade ou não de haver provas para a abertura de processo contra deputados. O PT (via José Dirceu) defende que indícios bastam. LEG diz que "tem de apresentar provas". Por que não explorar o fato?

Didatismo
1) O quadro "Entenda o conflito" da reportagem "Cresce tensão por escola católica em Belfast" (Mundo, pág. A12) não explica o essencial: as origens históricas do confronto entre protestantes e católicos na Irlanda do Norte. Aborda superficialmente apenas os choques dos últimos dias;
2) Na mesma página, não fica claro qual é a irregularidade que permite à polícia francesa explodir a estátua gigante de um "messias" no vilarejo de Castellane. Algum motivo mais forte deve haver além da simples falta de "autorização legal" para a construção, realizada há mais de dez anos;
3) Faltou explicar o que os subsídios agrícolas têm a ver com as dificuldades comerciais do Brasil em termos mundiais ("Para Lafer, é hora de barreiras caírem", Dinheiro, pág. B6). Não é tão simples, para o leitor comum.

Propaganda
Duvido que tenha havido má intenção, mas a verdade é que o quadro "O novo Concorde" (Mundo, pág. A13) faz publicidade gratuita para a British Airways e para a Michelin. Essas marcas -dispensáveis jornalisticamente-- poderiam e deveriam ter sido retiradas da ilustração.

Números
1) Afirma o texto "Transbrasil e Infraero tentam fechar acordo" (Dinheiro, pág. B3) que a companhia aérea deve R$ 9,2 bilhões à administradora de aeroportos. É isso mesmo? Trata-se de um valor brutal, três vezes maior do que o rombo que levou à intervenção no banco Econômico. A verificar;
2) A respeito do noticiário deste último, aliás, o jornal peca ao não dar maior destaque para uma informação básica diluída em texto da pág. B4: a de que não é "perfeita" a comparação entre o lucro obtido pelo Econômico e o dos demais bancos, já que no caso em pauta não existem agências, pessoal etc. Sem essa explicação, o quadro na capa de Dinheiro, por exemplo, pode soar enganoso;
3) Quadro "Apreensões de lotações" (Cotidiano, pág. C4) traz erro na legenda (os dois quadradinhos têem a mesma cor).

FHC versus BC
"Real está mais desvalorizado do que deveria em relação ao dólar, diz FHC" (pág. B5) registra haver divergência entre essa avaliação do presidente e a avaliação do Banco Central para o câmbio. É estranho, já que, na retranca que abre a mesma página, o presidente interino do BC, Ilan Goldfajn, afirma algo na mesma linha de FHC (aposta na queda do dólar). Será que eles já não se acertaram?

Ruído de horário
A reportagem de capa de Cotidiano ("Presos PMs que caçaram e mataram perueiro") afirma que "a caçada da Polícia Militar a um perueiro clandestino terminou ontem de manhã em São Paulo com dois policiais presos em flagrante por assassinato". Tanto o quadro (pág. C4) quanto outras partes do texto, porém, afirmam que tudo aconteceu na noite de terça-feira (segundo o "Diário Popular", os policiais foram presos na mesma noite). A verificar.

Por que sumiu?
A dramática, trágica e sensacional história trazida (apenas) em Panorâmica na edição nacional ("Após dois anos, juiz manda soltar agricultores presos injustamente no Acre", pág. C4) caiu na edição SP. É pena. Na minha opinião, o caso é para chamada de Primeira Página.

Holanda fora da Copa
Inverte a prioridade jornalística a retranca "Suécia e Espanha se classificam para a Copa" (Esporte, pág. D4). A grande notícia é que, com os resultados de ontem, a Holanda (considerada uma das melhores escolas de futebol do mundo) ficou fora, fato este que nem sequer está mencionado no texto.

     
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