Ombudsman Folha   Folha Online
 
12/09/2001

BERNARDO AJZENBERG

Um registro das manchetes de hoje dos principais jornais brasileiros de
circulação nacional:
Folha: "EUA sofrem maior ataque da história"
"Estado": "Terrorismo declara guerra aos EUA"
"Globo": "Terror suicida pára o mundo"
"JB": "EUA armam resposta ao terror"
"Valor": "Terror abala economia mundial"
"Gazeta Mercantil": "EUA vulneráveis; o mundo atônito"

A começar pela manchete em duas linhas com caixa alta, a edição da Folha (com 34 páginas sobre o assunto, afora a capa e Opinião) está à altura da dimensão histórica dos acontecimentos de ontem. É inegável que conseguiu ir além da simples reprodução daquilo que trouxeram TV, internet e rádio. Ou seja: cumpriu o seu papel. O principal diferencial "quente" em relação aos demais jornais está, a meu ver, nos relatos minuciosos da reportagem, nas declarações colhidas de pessoas que vivenciaram o pânico em NY e em entrevistas com especialistas. Importrante, também, jornalisticamente, o artigo do embaixador do Brasil em Washington, Rubens Barbosa (pág. A3). Registre-se a ausência de imagens das vítimas (não só na Folha), o que deveria ser, até, objeto de reportagem (houve censura, restrições?). Relaciono a seguir algumas observações críticas, lacunas e questões de enfoque:


1) Por mais que a linha oficial do governo americano vá nessa direção, discordo do chapéu "Guerra na América". Foram atentados terroristas, claramente. A expressão "guerra" pode até servir em termos formais para dar base a uma ação militar dos EUA contra um país. Mas, efetivamente, não há, até o momento, uma guerra. Na Primeira Página, faltaram chamadas (pequenas) para os textos dos correspondentes do jornal fora dos EUA;
2) É exagerada a afirmação da chamada da capa de que "em países árabes, a população saiu às ruas para comemorar". Houve manifestações de palestinos em Jerusalém Oriental e no Líbano (registre-se, aqui, a curiosidade de que um menino, na foto, usa camisa da seleção brasileira), o que é bem menos do que essa generalização. Além disso, segundo ouvi no rádio, essas manifestações se referiam ao ataque ao Pentágono, não às torres do WTC. Outro dado: o jornal não noticia que houve manifestação de apoio ao ato por parte da TV iraquiana, que, segundo o "Globo", saudou os atentados como a "operação do século". Também não vi na Folha registro de que dezenas de palestinos do Chuí (RS) saíram às ruas para festejar;
3) Os textos informam que havia 266 pessoas a bordo dos quatro aviões sequestrados. A arte "Veja o que aconteceu nos EUA" traz números de cada aeronave que, somados, totalizam 275. A verificar;
4) A legenda da impressionante foto da pessoa que se jogou da torre (pág. A5) diz que se trata de um americano. Como se sabe que era americano? Não dá para saber;
5) O terceiro discurso do presidente Bush ao longo do dia aconteceu, segundo a arte da pág. A4, às 20h30. De acordo com texto da pág. A7, porém, ele se deu às 21h. Aliás, dadas as especiais circunstâncias históricas, o jornal deveria ter publicado as íntegras dos três discursos (os dois primeiros, bastante curtos), não apenas do terceiro;
6) A retranca "Queda de Boeing na Pensilvânia mata 45" (A6) não menciona a hipótese, aventada ontem ao longo do dia, de que esse avião tivesse sido abatido por forças oficiais;
7) O quadro "Entenda o desabamento, passo a passo" (A11) não menciona a hipótese, também veiculada, de que, além do choque das aeronaves, os terroristas teriam estrategicamente colocado dinamites nos edifícios. Pode não ser a verdade, mas ainda não há comprovação disso;
8) A arte de página dupla (A10 e A11) informa ora que o WTC tinha 40 mil funcionários, ora 50 mil. Qual é o certo?
9) A retranca "Internautas comemoram onda de ataques" (A28) reflete apenas uma pequena parte daquilo que aconteceu na internet. Faltou uma cobertura sobre o que fizeram os sites noticiosos, aqui e internacionalmente. Sobre mídia, o jornal deveria ter registrado, também, que houve edições extras em vários países. O fato de a Folha ter optado por não fazer a sua (ao contrário do "Globo" e do "JB"), posição, aliás, com a qual concordo, não devia impedi-la de trazer a informação;
10) Não vi na Folha declarações do secretário de Estado Colin Powell, que estava no Peru (o "Estado" publica);
11) Senti falta de material sobre como funciona (ou não) o sistema de defesa dos EUA (o jornal concorrente paulista também trouxe interessante texto com dados concretos sobre isso). Nesse aspecto, aliás, a Folha deixou de publicar que o alerta adotado no Pentágono ontem foi de grau 4, apenas um ponto a menos do que o alerta máximo;
12) Faltou na Folha uma edição que agrupasse em uma ou duas páginas algumas fotos mais expressivas, em forma de painel. A edição extra da "Época", por exemplo, faz isso, e o resultado é muito impressionante. Por falar em imagens, faltou mostrar, em foto, como eram as torres do WTC antes de tudo acontecer. Nem todos os leitores do jornal já foram a NY;
13) O "Estado" informa que havia algo em torno de dez empresas brasileiras no WTC, assim como um grupo de quinze engraxates brasileiros. Publicou também as medidas adotadas ontem pelo prédio do WTC aqui de São Paulo. Não vi na Folha;
14) Segundo a "Gazeta Mercantil", o prejuízo das seguradoras poderá superar US$ 10 bi, bem mais do que os US$ 5 bi estimados em reportagem da Folha (A32). O jornal econômico informa também que as seguradoras já arcaram com US$ 18,2 bi por ocasião do furacão Andrew em 92, valor bem superior aos US$ 3 bi gastos pela explosão de uma plataforma em 1988 e que, segundo a Folha, seria o montante recorde. A verificar;
15) Senti falta de informação sobre a Bolsa de Tóquio no material sobre repercussões no mercado financeiro. Segundo o "Estado", ela abriu ontem à noite (manhã de quarta-feira lá) com queda de 6,6%. A Folha não teve a informação?;
16) No lado oficial da cobertura, o jornal deveria ter ouvido o ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer ;
17) O "Valor" traz interessante retranca sobre o provável impacto político dos atentados na sucessão presidencial brasileira (o deputado Aloizio Mercadante, por exemplo, teme uma eventual "reação conservadora do eleitorado");
18) Alguns textos da Folha arredondam para 2.400 o número de mortos em Pearl Harbor. Como foram 2.330, segundo texto na página A9, o correto seria arredondar para 2.300.

     
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