Ombudsman Folha   Folha Online
 
13/09/2001

BERNARDO AJZENBERG

Manchetes de hoje (o "day after") dos principais jornais brasileiros de circulação nacional:
Folha: "Bush consegue apoio da Otan para reação global antiterror"
"Estado": "EUA responderão a 'ato de guerra'"
"Globo": "Bush prepara a guerra"
"JB": "Americanos exigem vingança"
"Valor": "US$ 120 bi para acalmar 'day after'"
"Gazeta Mercantil" (submanchete): "Washington prepara-se para a guerra"

Dois aspectos positivos chamam a atenção na edição de hoje da Folha sobre os atentados nos EUA: 1) a riqueza de detalhes dos textos/reportagens sobre os resgates de vítimas e a situação nas ruas e estabelecimentos em NY e em Washington (os relatos "ao vivo" são, afinal, na atualidade, o que mais justifica a existência de correspondentes no exterior); a plasticidade da edição (a capa de "Guerra na América", pág. Especial 1, é um pôster antológico). A seguir, algumas observações:

1) A "união nacional" em torno de Bush dentro dos EUA, um dos temas mais importantes na atual situação, não parece tão evidente. O editorial de hoje do "NYT" afirma que, independentemente de o presidente estar sendo criticado pelo fato de não ter retornado à Casa Branca no dia dos atentados, o mais importante é que ele -esteja onde estiver--demonstre "liderança", o que, segundo o jornal, não está acontecendo. Penso que isso pode estar ligado à personalidade frágil de Bush, mas também -mais importante-à possibilidade de falta de acordo interno, no governo, sobre o que fazer de imediato. A "Gazeta Mercantil" traz reportagem que esboça haver divergências entre Colin Powell e o vice Cheney, por exemplo. A Folha passa ao largo disso. É preciso aprofundar a apuração sobre a situação política do governo.
2) Ainda sobre Bush, creio que o jornal deveria ter publicado a íntegra de seu discurso a membros do gabinete e a líderes parlamentares (não se deve esquecer que, além de tudo, os jornais destes dias tem o papel de registro histórico);
3) A arte "Como estão sendo feitas as buscas" (Especial 5) engana o leitor ao mostrar com um círculo um local de onde teriam sido retirados dois sobreviventes. Como se sabe que eles foram encontrados justamente ali e não em outro ponto dos escombros?
4) A retranca "Piloto avisou torre de controle e passageiros teriam tentado reagir" (Esp. 6) tem mais relevância jornalística do que o abre dessa mesma página. Houve uma inversão na edição;
5) Nessa mesma página, a arte "Os ataques ao WTC" informa que o segundo ataque ocorreu às 9h. Em nome da precisão do registro histórico, o correto seria escrever 9h03;
6) Só a Folha, equivocadamente, neste caso, não traz a foto de Mohamed Atta, um dos suspeitos de autoria do atentado. Traz, por outro lado, as de outros dois (os irmãos Bukhari);
7) Sobre "celebridades": a) faltou reportar que já foram identificadas algumas pessoas famosas que estavam a bordo dos aviões sequestrados (a atriz e fotógrafa Berry Berenson, o roteirista David Angell, por exemplo);
b) faltou registrar a "descoberta" de que o deputado Severino Cavalcante (PPB), dado como desaparecido, apareceu incólume;
8) Afirma-se, em dois textos, que seria, esta, a primeira vez que a Otan utilizaria o previsto no artigo 5 (ação conjunta contra um ataque a um de seus membros). Não tenho certeza, mas isso não aconteceu, já, na guerra dos Bálcãs? Sugiro verificar;
9) Há, aparentemente, um pastel no texto "Arafat doa sangue a feridos para demonstrar repúdio a atentados" (Esp. 15), no período que diz "segundo Peres, é hora de lutar contra o inimigo comum do terrorismo" (?);
10) A legenda da arte "Aliados dos EUA e possíveis alvos de retaliação" (Esp. 16) embaralha cores. Não dá para entender a diferença entre um país e outro;
11) O site americano é America Online, e não American Online (texto "Árabes e muçulmanos dizem..." (Esp. 17);
12) O texto "Ricos lançam operação para acalmar mercado" (Esp. 21) menciona o crash de 1987 sem explicar de que se trata. O que aconteceu naquele ano? O que originou aquela crise?;
13) As reportagens "Banco Central procura esfriar mercados" (Esp. 25) e "Aeroportos têm segurança reforçada" (Esp. 29) usam o verbo "garantir" de um modo que o "Manual" sugere evitar (ver pág. 71);
14) Algumas jovens aparecem em foto da pág. Especial 32 segurando um cartaz em defesa de Osama bin Laden no meio de passeata de servidores no Rio. Pelo inusitado, teria sido importante mostrar se se trata de um grupo (MR-8, por exemplo?) ou de uma manifestação individual (improvável);
15) A foto de Saddam Hussein, presidente do Iraque, no alto da pág. Esp. 16 não diz a que veio. Ele não é mencionado em nenhum texto. O que é uma falha, aliás, pois, segundo o "Globo", tal como anteontem, houve manifestação oficial do governo de Bagdá contra os EUA.

Outros assuntos
1) A reportagem "CBA nega privilégio em contrato com a Cesp" saiu duas vezes (em cabeças de página) na edição SP (B4 e B6);
2) Importante registrar, conforme a reportagem "Fernando Pinto é denunciado por 6 crimes" (C4), que o sequestrador não está sendo denunciado pelo assassinato dos dois policiais no flat de Barueri. Desvendar o que houve ali parece ser o grande desafio da reportagem (e da polícia) no caso Abravanel.

     
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