Após um fim de semana de expectativa e incerteza, as manchetes de hoje, unânimes, destacam o primeiro passo político-diplomático concreto dos EUA rumo à retaliação. Folha: "Teleban vai receber ultimato". "Globo": "Afeganistão recebe ultimato para entregar Bin Laden"; "Estado": "Ultimato do Paquistão isola Taleban"; "JB": "Ultimato dá 72 horas a Bin Laden". No caso da Folha, a sequência de manchetes nos últimos três dias é ilustrativa do curso dos acontecimentos, ao menos de um enfoque bastante determinado. Dos principais jornais, é o único que trouxe a palavra Taleban em todas elas (sábado: "Bush tem aval para ataque e Taleban promete reagir"; domingo: "Taleban convoca 'guerra santa'"; segunda: "Taleban vai receber ultimato").
11 de setembro (fim de semana) 1) A busca de explicações, análises e projeções foi unânime nos jornais, no fim de semana. Nesse aspecto, dois itens, na Folha, merecem destaque, um positivo e um negativo. Quanto ao primeiro, é o caderno "10 focos de tensão" (domingo), aliado aos artigos de Paul Auster, Dornbush, Timothy Garton Ash, entre outros. O jornal se destaca, aqui, enquanto os demais (notadamente o "Estado") se baseiam, principalmente, em artigos dos jornais estrangeiros. Do ponto de vista negativo, está a ausência de artigos/entrevistas com alguns pesos-pesados da política interna e externa dos EUA. O "Globo" de domingo, por exemplo, trouxe entrevista com Madeleine Albright na qual a ex-secretária de Estado defendia que fosse dado um ultimato ao Afeganistão (nada mais nada menos do que isso que está nas manchetes de hoje). O "Estado" reproduz hoje reportagem do "Sunday Times" com Henry Kissinger na qual o também ex-secretário de Estado critica os EUA por terem descuidado da diplomacia. Em contrapeso a esses dois nomes, o "JB" publicou sábado entrevista com Noam Chomsky, nome de peso, embora de opiniões minoritárias. A Folha foi bem, assim, nos temas e na escolha de analistas sérios, mas está pecando nos pesos-pesados que têm influência política mais direta em relação aos rumos da situação; 2) outro ponto problemático, na Folha, tem sido, nesses dias, o destaque mínimo dado à figura de Saddam Hussein. Há a hipótese de o Iraque ter auxiliado de alguma forma os atentados. Ainda que isso não se confirme, não será surpresa, em caso de ataque ao Afeganistão, que Saddam entre no conflito, contra, obviamente, os EUA; 3) A edição de sábado traz que houve reunião entre Colin Powell e representantes de países árabes, inclusive da Autoridade Palestina. Não deixa claro, porém, qual foi o posicionamento, além do apoio genérico, da AP, essencial como referência para se analisar os próximos passos; 4) Acho que o jornal devia parar de chamar Bin Laden de milionário saudita. O fato de ele ser milionário não deve servir para classsificá-lo. O correto seria dizer, como já há em alguns textos, "líder terrorista saudita". É mais jornalístico; 5) Falta padronizar, também, o nome do líder supremo do Taleban. Ora se escreve Mahammad, ora Mohammed. Vale o mesmo para o sobrenome do prefeito de origem árabe de Chuí (RS). É Jomaa ou Yomaa?; 6) Por falar nisso, o jornal deve investigação/reportagem mais aprofundada sobre o que está acontecendo em termos de ação policial no Sul do país. É evidente que, a esta altura, a FBI está teleguiando a Polícia Federal brasileira na caça a eventuais suspeitos. A ação policial na fronteira e em relação à comunidade árabe, na região, merece mais cobertura da Folha, nesses dias; 7) Do ponto de vista legal, que obrigação teria o Afeganistão de "entregar" Bin Laden, se não há provas, até agora, de seu envolvimento no atentado? O jornal precisa responder a essa pergunta; 8) Outra pergunta: por que só nas edições de hoje saem fotos das reuniões de Bush com assessores (pág. Especial 2) no dia do atentado? O que diz a France Presse, que tem o crédito das imagens? Quantas e quais fotos haverá, ainda, "escondidas"? 9) Por falar em imagens, a Folha tem falado mas não tem mostrado o quanto se espalha o uso de bandeiras norte-americanas entre a população e edifícios; 10) Detalhe: na Revista da Folha (domingo), o texto "A tragédia revivida" (pág. 16) informa que Mauro Jacintho, sobrevivente do incêndio do Joelma, tem 48 anos e que, naquela ocasião (1974), tinha 18. A conta não fecha. Ou ele tinha 21 na época ou tem 45 agora; 11) Por falar em números: a arte das págs. Especial A6 e A7 de sábado informa que os EUA possuem cerca de 35 mil militares baseados no Japão. Já texto da pág. Especial 2 de domingo fala em 48 mil. Qual é o certo?; 12) Legenda da foto dos atores na pág. Especial 6 (domingo) informa que eles estavam encenando "God Bless America", como se este fosse o nome da peça. Na verdade, como informava texto da edição de sábado (Especial 10), a peça, sucesso absoluto, se chama "The Producers", e na foto os atores estavam, ao final dela, contando o "God Bless...", aquele hino informal dos EUA; 13) Detalhe: o texto de Gerald Thomas (Especial 6, domingo) traz como Felippe o prenome do equilibrista que fez no ar o trajeto entre as duas torres gêmeas, e situa seu renome nos anos 80. Paul Auster (Especial 16) diz que seu nome é Philippe e que o feito aconteceu em 1974; 14) Por falar em Paul Auster, é pena que o "saiba mais" a respeito do escritor não mencione que seu livro "Leviatã" tem como protagonista justamente um homem que se notabilizou por fazer explodir, nos EUA, réplicas da Estátua da Liberdade; 15) A retranca "Empresas aéreas reduzem número de vôos e ameaçam com demissão" (segunda, Especial 9) não traz qualquer remissão para o material sobre o assunto hoje no caderno Turismo. Sobre este último, aliás, não entendo por que esse material não está na capa de Turismo 1; 16) A pág. Especial 4 de domingo traz sobrelinha segundo a qual os EUA estudam "abolir direitos de estrangeiros". O lide vai na mesma direção. Atenção: o que está colocado até o momento, conforme o próprio texto mostra mais abaixo, é que essa abolição seria com relação a estrangeiros suspeitos de terrorismo. São coisas diferentes. É preciso cautela, para não exagerar.
Outros assuntos (fim de semana) 1) Intencionalmente ou não, a Folha (domingo) fez claramente campanha para José Dirceu nas eleições internas do PT. Só ele mereceu pingue-pongue e foto que não fosse um 3 x 4. Os demais candidatos não precisavam receber o mesmo espaço, claro, mas jornalisticamente foi errado resumir suas vozes a uma arte ou a uma frase solta aqui e ali. A parcialidade se repete hoje (segunda), quando só Dirceu é ouvido na reportagem; 2) Por falar em parcialidade, só o "Estado" traz hoje a informação de que a Justiça estadual negou a quebra de sigilo fiscal dos familiares de Maluf; 3) Faltou um perfil de Renan Calheiros, provável próximo presidente do Senado (segunda, pág. A5). Foi aliado de Collor etc.; 4) Está com detalhes ricos a reportagem de hoje sobre o acidente com o Fokker da TAM que causou a morte de uma passageira (capa de Cotidiano). Senti falta, apenas, de uma foto/imagem da área atingida do avião; 5) Faltou mapa da região no material sobre a guerrilha do Araguaia (domingo, pág. A8); 6) Por falar em mapa, faltou também na reportagem de hoje sobre São José da Tapera (pág. A7), que deverá receber FHC; 7) A seção "Dúvidas" da Folhainvest (pág. B6) traz resposta feita pelo "iG Finance" a uma dúvida de um leitor sobre aplicações. Até aí, OK. O que causa estranheza é que essa resposta conclua fazendo propaganda do próprio "iG...": "No iG Finance, por exemplo, são mais de 70 fundos de investimentos de 16 instituições". Ora, o que é isso?; 8) A reportagem "Plano de saúde sofre fraude de R$ 13 mi" (pág. A6, segunda) traz sub-retranca na qual os jornalistas se fazem passar por terceiros, com nomes reais, para obter informações da seguradora Sul América. O procedimento contraria uma recomendação do "Manual" (pág. 28), segundo a qual "o jornalista não deve utilizar recursos que iludam as pessoas com o intuito de obter informações...". Não foi isso que se fez neste caso? 9) Chamo a atenção para o caderno especial do "Diário Popular" que hoje mostra as reformas a que o jornal se submeterá a partir do dia 23.
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