Interessante coincidência: ao menos no uso de imagens, os dois principais jornais paulistas hoje priorizam Afeganistão e Paquistão, enquanto os do Rio mostram imagens semelhantes de policiais em NY próximos ao cartaz "procura-se vivo ou morto" sobre Bin Laden. Nas manchetes, Folha ("EUA ameaçam países com sanções") e "Globo" ("EUA pressionam aliados a firmar pacto de guerra") adotam o mesmo tema (sanções econômicas como arma). O "JB" opta pelas dificuldades políticas dos EUA ("Aliados pedem calma a Bush"), enquanto o "Estado" aposta no radicalismo dos afegãos ("Taleban dificulta entrega de Bin Laden"). Curiosamente, o "New York Times" se volta, hoje, para dentro, com manchete dupla, para a ampliação das medidas que permitem à polícia caçar suspeitos e a ajuda financeira oficial às empresas aéreas.
11 de setembro 1) Tive a sensação hoje, pela primeira vez desde o início da crise, de que Folha está sem foco preciso, sem rumo editorial . A edição de hoje está rala (sinceramente, acho que houve desperdício de papel), principalmente num aspecto fundamental: as perspectivas geopolíticas, inclusive com vistas ao didatismo e ao esclarecimento aos leitores. Ironicamente, é como se o jornal, que foi muito bem na semana passada, estivesse mais equipado para cobrir uma reação imediata dos EUA do que para cobrir, passada a fervura inicial, a complexidade que agora se mostra enorme, prenunciando uma reação, talvez, menos evidente. Nesse aspecto, o "Estado", que vinha tendo, desde o início, a meu ver, uma cobertura errática, saiu-se melhor hoje. Não há, na Folha, nenhum material que se compare, por exemplo, ao texto que o concorrente traz sobre as divisões internas aos países criadas pelo colapso dos "grandes impérios"; ou a outro sobre as dificuldades de uma coalizão com os EUA entre seus próprios aliados árabes. Na ignorância geral, inclusive nossa, todo didatismo será pouco. Em meio às dúvidas que todos têm, ganhará quem souber explicar melhor ao menos alguns aspectos da situação geopolítica, suas tendências e complexidades. Pois é nesse terreno que a "nova guerra americana" deverá se dar. Qual é o papel do Brasil nessa história? Ou o Brasil não conta para nada? E, se não conta (o que não deixa de ser plausível), por que não mostramos isso? Não há um único mapa do mundo no jornal hoje. A Folha não está trabalhando esses assuntos como deveria. A meu ver, pede uma inflexão em sua cobertura; 2) A segunda impressão é que o jornal, hoje ao menos, tem material demais sobre o "alvo" e de menos sobre a situação interna nos EUA (inclusive crise de bastidores quanto à reação). É preciso mostrar o que é o Afeganistão, claro, mas não devemos torcer o bastão demasiadamente; 3) No texto " 'Afeganistão enfrenta catástrofe'", faltou localizar o Turcomenistão, onde está alojado o entrevistado Goedgebuur, de quem, além disso, faltou a idade; 4) As retrancas sobre o egípcio El Said Moklhes, preso na fronteira entre Brasil e Uruguai em janeiro de 99 (pág. Especial 5) afirmam que ele foi detido com passaporte falso e que se apura desde então suposto envolvimento com Bin Laden. Não é estranho que essa pessoa esteja ainda presa, já se vão quase três anos, só por suspeição? Ou a prisão por uso de documento falso justifica esse tempo na cadeia? Não está clara a situação desse homem. Além disso, o jornal, a meu ver, não deveria bancar tão abertamente que a mulher dele vive apenas de ajuda de amigos; 5) O material "Polícia paraguaia busca suspeitos" (Especial 5) mostra o trabalho da polícia do país vizinho. E a polícia brasileira, o que está fazendo? O jornal não tem conseguido mostrar; 6) Como indiquei na crítica de ontem, o caso do brasileiro espancado nos EUA precisa ser visto com atenção e cuidados. Já se mostram contraditórias as versões dele e do consulado (Especial 6). Vale a pena manter o caso em pauta, para esclarecimento e, até, eventuais retificações; 7) Luis Nassif dedica a coluna hoje ao gesto pacifista de Madonna em seu show. Além de uma discreta nota na coluna Mônica Bergamo de ontem, nada vi no jornal sobre isso. O "Globo" traz, hoje, mais detalhes; 8) O texto "Crise da aviação pode forçar nova revisão da produção da Embraer" (Dinheiro, pág. B6) traz declaração de um consultor do Unibanco sobre a empresa. Não deu para entender. O que o Unibanco tem a ver com a Embraer? 9) Está perdida no meio de uma nota Panorâmica ("Inflação fica estável em agosto nos EUA", pág. B10) a informação de que na semana passada caiu 3,5% um dos índices que mede o consumo no varejo americano. É um dado que merecia destaque, pois, como se sabe, reside justamente na reação dos consumidores uma das únicas esperanças de que a economia norte-americana não caia de vez na recessão; 10) O exemplar que recebi em minha casa veio com a encadernação trocada: o caderno "Dinheiro/Guerra na América" dentro de Cotidiano.
Ato falho O texto "Ao renunciar, Jader recua para preservar o mandato" (Brasil, pág. A4) afirma logo após o intertítulo "Telefonema a ACM" que o político baiano foi cassado, quando se sabe, obviamente, que ele renunciou na crise do painel eletrônico.
Filosofia e sociologia A nota "Aula prática", do Painel (pág. A4), registra que o Senado aprovou ontem a obrigatoriedade de aulas de sociologia e de filosofia no ensino médio. Não há reportagem sobre isso em Cotidiano. Merecia.
Pane Acho que o jornal está sendo, digamos, "condescendente" com relação ao fiasco da votação eletrônica nas eleições internas do PT (Brasil, pág. A6). Afinal, o que aconteceu?
Branco e preto A reportagem "Tiroteio dentro de ônibus em túnel mata um" (Cotidiano, pág. C10) afirma que o veículo seguia para a zona norte "...quando dois homens (um branco e um negro), de cerca de 20 anos, anunciaram o assalto". Pergunto: se fossem dois brancos, isso estaria registrado dessa forma? Se fossem dois negros, estaria também assim? Acho que não. Se o objetivo do texto, nesse caso, foi descrever os assaltantes, é evidente que simplesmente a cor, aqui, não é critério. Creio que ficou, então, sem sentido (para dizer o mínimo) essa caracterização pela cor.
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