A operação até agora chamada de "Justiça Infinita" pode (ou não) ser uma ação em grande parte pirotécnica para dar um início de satisfação à opinião pública. Em qualquer hipótese, ganhou as manchetes dos jornais de hoje. Folha: "EUA reforçam frota no golfo Pérsico"; "Estado": "Bush manda 100 caças para o Golfo"; "Globo": "EUA mobilizam frota para Operação Justiça Infinita"; "JB": "EUA preparam ataque". Deve-se enfatizar, no entanto, que os impasses sobre alvo e forma de ação continuam presentes.
O que acontece com a Folha? A drástica redução do número de páginas dedicadas ao "11 de setembro" (6 páginas, fora a parte econômica, contra 11 do "Estado" ou oito do "Globo") até poderia, em tese, resultar em algo positivo, obrigando o jornal a um esforço no sentido de selecionar, escolher, separar o que realmente importa daquilo que é secundário ou enfeite. Mas não é isso o que se vê na edição de hoje. Com exceção do texto de Henry Kissinger (concorde-se com ele ou não, o fato é que o ex-secretário de Estado apresenta de modo cristalino um verdadeiro programa de ação para Bush), há falta de informações, carência de análises prospectivas, supervalorização de algumas reportagens. Exponho a seguir alguns dos itens que me levam a fazer essa avaliação negativa: 1) O jornal não traz informações sobre os aviões e os navios deslocados para o Golfo (suas dimensões, capacidades, atuações anteriores), limitando-se aos nomes e pequenas imagens; 2) Não há explicação (ou tentativa de) para o fato de o governo do Paquistão, apesar da forte oposição interna, ter-se alinhado aos EUA neste momento. Temor? Houve apoio dos EUA ao golpe que levou o atual presidente daquele país ao poder? Ou esse governo simplesmente faz um jogo duplo?; 3) Há um esforço na pág. Especial 3 no sentido de mostrar a disposição política de diferentes países (arte "O cenário internacional"). No texto que encabeça a arte ("Apoio à retaliação militar é parcial"), porém, alguns pontos parecem obscuros: que peso possuem as relações políticas e econômicas dos países árabes ou muçulmanos com a Europa na origem real da hesitação ou da negativa de apoio integral aos EUA por parte de países europeus importantes (França, Alemanha)? Não há temor destes últimos quanto à desestabilização daquela região e consequentemente da perda de poder europeu ali, com crescimento, concomitante, do poder norte-americano nessa área do mundo? Em síntese, creio que as especulações feitas pelo jornal, embora válidas, são bastante insuficientes; 4) Não vejo sentido no fato de o jornal dedicar uma página inteira (Especial 4) para uma pesquisa que mostra que a maioria dos habitantes de NY querem a reconstrução das torres gêmeas e que o prefeito Giuliani pode prorrogar seu mandato (aliás, sobre este item, não há nenhuma explicação do ponto de vista legal: quem decide se ele pode prorrogar ou não?); 5) Na reportagem "EUA cobram rigor de países do continente" (Especial 5), sobre a reunião da OEA ontem, nada se fala sobre o Brasil. O que a representação brasileira disse (ou não disse) na reunião? Afinal, o que quer o Brasil, país onde, afinal, situa-se a Folha? 6) Didatismo: mencionam-se golfo Pérsico, mar Mediterrâneo, mas nenhum mapa mostra onde eles ficam. Esses nomes não aparecem nas ilustrações da Esp. 1 ou da Esp. 3. Na pág. B1, o texto "Dólar dispara e bate em R$ 2,71" menciona um tal "flight to quality" (movimento de investidores rumo a opções mais seguras) sem fazer qualquer tradução; 7) Alguns textos chamam o mulá Omar de Mohammed (com "e"), outros de Mohammad (com "a"). Falta padronizar; 8) O texto "Taleban pede diálogo; Bush quer ação" (Esp. 2) afirma que o Taleban pediu que a CNN deixe o Afeganistão. Isso aconteceu de fato? O jornal parou de cobrir a mídia? A esse respeito, aliás, registre-se que o "Estado" já está com correspondente em Islamabad (saiu texto na edição de hoje). A Folha não terá ninguém ali? 9) A retranca "Suposto brasileiro de origem árabe é detido na fronteira do México" (Esp. 5) afirma que Mohamed Atta foi um dos terroristas que cometeram os atentados. Atenção: por enquanto só há suspeitos; 10) Por falar nisso, registro que o site "Jane's Foreign Report" traz interessante texto sobre a possibilidade, aventada fortemente pelo serviço de inteligência israelense, de que os atentados tenham sido patrocinados pelo Iraque e realizados por grupos ligados a dois terroristas internacionais (um libanês e um egípcio) bem mais perigosos e "geniais" do que Bin Laden. A Folha trouxe ontem texto do "Le Monde" sobre eventual implicação do Iraque, mas vale a pena, creio, aprofundar a investigação e mostrar aos leitores que essa possibilidade não deve ser descartada; 11) Ainda sobre a questão de prioridades: não dá para entender, nessa conjuntura, a publicação de uma entrevista de página inteira com o dono da Gol (Dinheiro, pág. B8) na qual ele conta sua vida (interessante) e só fala pouquíssimas linhas sobre os atentados e a crise do setor de aviação. Se era para dar tanto destaque, por que não publicar esse material no caderno de Turismo, por exemplo? 12) A Ilustrada (pág. E4) publica Panorâmica sobre biografia de Bin Laden lançada na França. Por que não há remissão para o caderno especial? 13) Os concorrentes trazem hoje a informação de quantos mortos/desaparecidos existem por país de origem nos escombros de NY. São números muito interessantes que não vi na Folha; 14) Também não vi na Folha registro de manifestações realizadas ontem em Brasília em frente à embaixada dos EUA; 15) A Folha nada trouxe sobre o encontro entre Bush e a presidente da Indonésia, o país com maior número de muçulmanos do mundo, realizado ontem como parte da intensa movimentação diplomática em curso.
MST e Contag O texto-legenda "Elogio e protesto" (Brasil, pág. A6) afirma que o MST e "pequenos agricultores" fizeram protesto diante do Planalto. A foto mostra, porém, também, bandeiras da Contag.
Como assim? A reportagem "Correção de tabela do IR..." (Brasil, pág. A6) registra declaração do líder governista Arnaldo Madeira segundo a qual, neste caso (tramitação do projeto que muda a tabela do IR na Câmara), as "normais regimentais não serão rigorosamente cumpridas". O que ele quer dizer com isso?
Outro lado Inexiste qualquer sinal de "outro lado" no abre da pág. A7, "TCU manda devolver verba de obras do TRT (de Rondônia)".
Mico A reportagem "'Pagamos um mico', diz Lula sobre eleição no PT" (Brasil, pág. A8) revela apenas a visão oficial do partido sobre as falhas. Por que não se ouvem lideranças da oposição a Dirceu/Lula? Continua falha, a meu ver, a cobertura da Folha neste caso.
Pitta e Maluf Na capa de Cotidiano, a reportagem "Relatório pede punição de Maluf e Pitta" afirma que "as conclusões (do texto) não apontaram nomes". Aparentemente, portanto, há uma contradição. Do ponto de vista legal, como o relatório "sem nomes na conclusão" pode pedir a punição dos dois ex-prefeitos (com seus nomes concretos)? Faltou explicar com clareza.
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