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21/09/2001

BERNARDO AJZENBERG

George W. Bush fez ontem à noite um discurso pesado e claro. Só a Folha ("Afegãos pedem a saída de Bin Laden, sem fixar data") não deu manchete para ele, optando por ficar com a notícia da manhã. Eis as manchetes dos principais jornais: "Globo": "Bush ameaça atacar com 'todas as armas de guerra'"; "Estado": "Bush aumenta exigências e ameaças"; "JB": "Bush: guerra ao talibã". Depois de alguns dias menos enfático, o "NYT" voltou a dar uma manchete de três linhas na edição de hoje.
A Folha descarrilou
1) A Primeira Página de hoje, na sequência de duas edições frágeis, expressa que o jornal enfrenta sérios problemas de definição de eixo na cobertura da "nova guerra americana". Certamente a complexidade é enorme, os dados são muitos, e muitos "chutes" povoam a mídia. Mas algumas questões básicas não deveriam aparecer como problema. Parece-me evidente que uma manchete em quatro módulos (qualquer que seja ela) a essa altura não tem cabimento, ainda mais para um jornal que traz como chapéu de sua cobertura os dizeres "Guerra na América". Pior do que isso, porém, é o fato de o jornal dar como manchete a posição dos afegãos, quando o discurso feito ontem por Bush no Congresso foi, sem nenhuma dúvida, um fato jornalístico muito mais relevante (havendo guerra imediata ou não). Por que não se fez uma troca entre a edição Nacional e a SP? Por que a única troca foi apenas de uma foto por outra? A Folha tem o mérito de ter sido (até onde pude ver) o único dos principais jornais a publicar a íntegra do discurso (edição SP), mas pela edição demonstra não tê-lo lido adequadamente;
2) O mesmo ocorre com a capa do caderno especial. Diante dos fatos que ocorreram ao longo do dia e da noite, ficou gelada e com enfoque, a meu ver, impróprio;
3) O texto "Bush promete destruir terrorismo" (Esp. 2), embora dê no lide a devida relevância ao pronunciamento, escorrega ao afirmar que o distintivo de bombeiro que o presidente exibiu "...lhe foi dado por um dos bombeiros mortos...". No próprio discurso Bush afirma que recebeu o objeto da mãe do homem, o que é, evidentemente, mais plausível;
4) A Folha, em alguns textos, inclusive em editorial, continua a classificar Bin Laden como milionário saudita. Pode ser mais instigante e glamouroso, mas não é jornalístico. Até porque há informações de que o terrorista nem seja mais um milionário;
5) No material da Especial 3 sobre as forças militares deslocadas pelos EUA até o momento, senti falta de um número global, que desse idéia ou estimativa de quantos militares já foram deslocados para a região do provável conflito;
6) Detalhe: a Folha tem usado no jornal a grafia de Kandahar (em mapa e créditos) para a cidade afegã que, segundo a página 310 do próprio "Manual", deve ser grafada como Candahar;
7) Em duas retrancas e uma foto (págs. Especial 4 e Especial 5), o jornal traz Tony Blair como personagem noticioso. Só que numa ele está em Nova York, enquanto na outra ele está em Paris. Não há explicação para esse aparente dom de ubiquidade. Li nos outros jornais, aí sim, que antes de partir para os EUA o premiê britânico esteve na capital francesa com o presidente Jacques Chirac. Mais importante do que isso, porém, é a ausência de uma análise/texto que mostre o papel essencial que Blair passou a ocupar nos últimos dias, o motivo disso e como isso pode se refletir politicamente e internamente na Europa e na relação desta com os EUA;
8) O texto "EUA cobram cooperação do Líbano" (Especial 4), do "El País", menciona reportagem da revista "Jane's" (para a qual chamei atenção na crítica de ontem), mas sem dizer da desconfiança incluída naquela reportagem quanto à eventual participação do Iraque nos atentados. Essa informação, a meu ver, deveria constar da retranca "Saddam oferece a Nova York ajuda humanitária" (Especial 4), oferta essa apresentada equivocadamente pela Folha, aliás, como se fosse séria;
9) Não vi na Folha registro do encontro ocorrido ontem entre d. Cláudio, o rabino Sobel e o xeque Saleh em São Paulo. O "Globo" e o "Estado" deram inclusive com foto;
10) Também fiquei sabendo pelos concorrentes que a brasileira atingida pelo atentado recente em pizzaria de Jerusalém chegou ontem ao Brasil;
11) O texto "Paquistaneses começam a ameaçar estrangeiros" (Especial 7), produzido por correspondente (frila) da Folha, merecia abre de página;
12) Errou o jornal ao retirar da edição SP texto do "NYT" que estava na Especial 2 da edição Nacional sobre a crise interna de definição político-militar no governo dos EUA. O texto é muito importante. Em vez de simplesmente trocá-lo pelo discurso de Bush, merecia uma reedição;
13) Registro o interessante texto de William Safire (do "NYT") sobre "guerra psicológica" reproduzido pelo "Estado". A Folha, que também tem os direitos de republicação do diário americano, perdeu uma boa oportunidade;
14) A Ilustrada traz hoje várias retrancas relacionadas aos atentados e suas consequências. Deveria haver remissões recíprocas ou, no mínimo, alguma menção na capa do jornal. Destaque, nesse caso, para a emissão de show que a TV a cabo mostra hoje à noite em homenagem aos mortos;
15) A mesma falta de coordenação aparece na ausência de remissão para a íntegra do discurso de Alan Greenspan (Dinheiro, pág. B2) na reportagem "Terror afeta economia, admite Fed" (pág. B4); ou ainda, por falar em Dinheiro, no fato de duas Panorâmicas sobre Argentina estarem editadas em separado do material de abre da mesma página (B10), que é justamente sobre o país vizinho;
16) Padronização: é curioso que os jornais do Rio escrevam talibã e os de São Paulo taleban. Parece-me mais adequada a grafia carioca, pois mesmo em inglês o som do "e" cai neste caso para o "i", que imagino ser a pronúncia correta na língua original. Não tenho certeza. Sugiro verificar.

Senado e Tebet
Faltou um perfil do novo presidente do Senado no material "Tebet é eleito presidente; crise no Senado continua" (Brasil, pág. A4).

Desperdício
A reportagem "Serra e Tasso trocam elogios em inauguração no Ceará" (Brasil, pág. A7) não merecia um abre de página num jornal como a Folha. Ou o jornal mostra os bastidores de disputa interna no PSDB pela candidatura a presidente ou deveria parar de dar tamanho destaque a jogos de cena dos concorrentes. Mais importante, a meu ver, é a notícia, trazida pelo "Estado", de que o PSDB/FHC liberou abertamente, segundo José Aníbal, os seus presidenciáveis para irem à luta em público.

Caso Abravanel
Não vi na Folha interessante aspecto das investigações. Segundo o "Estado", já se sabe, por exames de sangue, que havia pelo menos uma quinta pessoa envolvida no tiroteio ocorrido no flat de Barueri. Esse episódio continua a ser o grande mistério de todo o caso Abravanel.

Maluf
Também li apenas no concorrente que o ex-prefeito requereu ontem à Justiça Federal reconhecimento de que já prescreveram os delitos de que o acusam em relação a emissão fraudulenta de precatórios.

Elementar
A reportagem "Polícia agride estudantes durante protesto" (Cotidiano, pág. C5) não informa quando isso ocorreu.

Cautela
A começar pelo título, o texto "Lâmpadas serão doadas a quem consome menos" (Cotidiano, pág. C8) dá "de barato" que o programa de distribuição de 1,6 milhão de lâmpadas realmente será cumprido, inclusive com números detalhados. O correto seria colocar tudo na boca dos organizadores e não assumir as afirmações, como a reportagem, ingenuamente, faz.

Gosto duvidoso
Um leitor alerta para o uso inadequado de foto que, sem mencionar em legenda, traz o recém falecido professor Milton Santos, na reportagem "Aparelho torna cirurgia ocular mais precisa" (Folha Equilíbrio, ontem, pág. 6). Acho que ele tem razão. Isso poderia ter sido evitado.

     
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