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São
Paulo, domingo, 24 de setembro de
1989
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Adriana
Elias - 10.set.1997/Folha Imagem
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Caio
Túlio Costa foi o primeiro ombudsman da Folha
de 25/9/89 a 22/9/90 |
CAIO
TÚLIO COSTA
Começa aqui a coluna semanal do ombudsman da Folha O nome pode
parecer esquisito mas indica uma função que tem dado certo em outros
países. Tanto na área pública (como na Suécia onde o ombudsman é uma
espécie de ouvidor geral) quanto no jornalismo (como nos EUA, onde
ele serve de advogado do leitor).
No caso do ombudsman do "The Washington Post" (EUA) a sua coluna virou
obrigatória. Ele anota os erros e às vezes até rescreve reportagens.
Também aponta acertos e não se contenta em analisar apenas o "Post".
Fala dos outros jornais e dos veículos. Faz "média criticam" a crítica
da mídia.
Na Folha esta coluna irá no mesmo passo. Vai comentar as notícias
da semana e a maneira como a imprensa tratou os assuntos com um único
objetivo: ler o jornais e escutar as notícias com olhos e ouvidos
de leitor exigente. Informação correta é requisito para se ter opinião
e decidir as coisas da vida.
Nesta semana, por exemplo, o leitor da Folha que respeite as
opiniões de Pelé não pode levar em conta o noticiário publicado na
quarta-feira. Segundo a Folha, Pelé não só entrou na campanha
política como "colloriu", Ou seja, estaria apoiando a candidatura
de Fernando Collor de Mello à presidência da República. Isto está
dito no primeiro parágrafo da noticia: "Pelé resolveu aderir ao candidato
do PRN".
Enquanto isto, outros jornais e a própria Rede Globo (que apóia Collor)
foram devagar. O "Jornal Nacional" noticiou a conversa entre os dois,
ocorrida em São Paulo, e afirmou que não houve adesão. "Pelé conversa
com candidato mas não adere", titulou o "Jornal do Brasil". "O Estado
de S.Paulo" chegou a dizer que Collor "alardeou" a reunião o que seria
uma prova do apoio à candidatura , mas anotou que Pelé saiu pelo elevador
da cozinha do hotel Maksoud (o local do encontro) "para não ter de
assumir, perante os jornalistas, a adesão".
O texto da Folha ressalva que Collor foi cuidadoso e evitou
contar que a Folha baseou-se numa afirmação do secretário de
Pelé conforme a qual o craque se engaja na campanha de Collor em meados
de outubro.
Pelé evitou os jornalistas e não deu declarações. Saiu pela cozinha,
segundo o "Estado". Ficou trancado numa suíte do hotel (Folha).
Depois do encontro, Collor foi discretíssimo quanto à possibilidade
de apoio. Daí, a afirmação de que Pelé "colloriu" é precipitada. Mas
este é um exemplo menor de informação mal redigida pega aleatoriamente
num rápido folhear de jornais.
Há casos piores praticados diariamente pela imprensa brasileira contra
os leitores. Como informar sem nenhum distanciamento crítico que o
Brasil iria pedir mais US$ 4,8 bilhões aos bancos credores. A notícia
foi destaque pelo menos na Folha e em "O Globo" de quarta-feira.
As duas redações limitaram-se a reproduzir os textos que receberam
de suas sucursais de Brasília sem incluir uma menção - na forma de
uma checagem junto ao ministério da Fazenda uma repercussão com banqueiros
credores, ou mesmo na forma de um texto analítico - de que o atual
governo não tem mais condições técnicas de pedir dinheiro aos banqueiros
para "rolar" uma dívida que sequer foi negociada . Isto é uma coisa
que qualquer jornalista que se ocupa do assunto sabe de cor.
A desinformação não para por ai. Uma carta publicada no "Painel do
leitos" da Folha de sexta-feira com o singelo título de "Queda
do Boeing" mostrava o quanto uma cabeça atenta pode perceber de bobagens
num jornal. O leitor Rubens Junqueira Villela apontou erros crassos
de tradução e reprodução de nomes próprios. Anote, por favor, a publicação
da carta fruto do hábito da Folha em corrigir seus erros, algo
que aos poucos vão incorporando à grande imprensa. O "Estado", agora
concede algumas "correções". Reconhecida na quinta-feira , que errara
na reprodução dos resultados de uma pesquisa eleitoral e dera a Ulysses
Guimarães intenções de voto que ele não tem... Casos menores.
Há muito o que falar da imprensa brasileira, das maquinações editoriais,
das necessidades logísticas e empresarias de cada grupo ou mesmo das
neuroses e idiossincrasias dos profissionais da área. Há muito o que
falar também da própria qualidade desta imprensa, que na realidade
pouco deve à melhor imprensa estrangeira - que é a inglesa e americana.
Qualquer cidadão viajado pode conferir também que os jornais brasileiros
ganham de longe em objetividade dos congêneres franceses, italianos
e espanhóis. Ali campeia ainda o opinionismo senil.
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