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São
Paulo, domingo, 22 de setembro de
1991
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Adriana
Elias - 10.set.1997/Folha Imagem
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| Caio
Túlio Costa foi o primeiro ombudsman da Folha de 25/9/89
a 22/9/90 |
CAIO
TÚLIO COSTA
Chegou o momento do balanço desses dois anos de mandato como defensor
do leitor. Foram quase vinte mil reclamações processadas. O atestado
de eficácia mais visível é o de que se transformou no jornal que mais
admite erros no Brasil. Gráfico reproduzido nesta página demonstra
a evolução das retificações. Elas pularam de uma média mensal de 12
em agosto de 1989 (quando não existia o ombudsman) para 118 neste
ano. A unificação dos Erramos na terceira, página, em fevereiro passado,
contribuiu muito para esse salto.
Reconhecer erros, porém, não é tudo. Nem proporciona atestado definitivo
de qualidade. Muito mais importante é deixar de cometer erros. Ou
garantir o direito de resposta a quem o requer por sentir-se injustiçado.
. Não foi possível fazer levantamento completo do tratamento dado
pela Folha ao direito de reposta no período (porque ele está
espalhado em reportagens refeitas, novas notas, declarações posteriores,
etc.), mas um trabalho realizado pelo Banco de Dados atesta que a
média de direito de resposta publicado apenas na seção de cartas subiu
de 30 respostas mensais em 1989 para 38 anos oito primeiros meses
de 1991.
Dar direito de resposta, convenhamos, também não é mérito em si. Principalmente
porque ele quase nunca aparece no exato dia seguinte e nem da mesma
forma pela qual se publicou a notícia geradora da defesa. Em geral,
uma manchete título ou nota caluniosa provoca efeitos tão devastadores
na reputação de uma pessoa, empresa ou instituição, que o direito
de resposta, quando publicado em página interna e sem destaque, jamais
consegue recuperar. De resto, nem nas democracias mais modernas consegui-se
resolver a contento o problema do direito de resposta. A impotência
do cidadão ante a prepotência da mídia segue dramática. Um dos jornalistas
que propôs a criação do ombudsman nos jornais nos anos sessenta. Abe
H. Raskin, diagnosticou mais de vinte anos depois que a imprensa continua
pela "insolência, miopia e uma ética ambígua".
Sempre me perguntam se a Folha "melhorou" com o ombudsman.
Não melhorou nem piorou. Ela continua em busca permanente do aperfeiçoamento.
O maior mérito do cargo foi ter facilitado a comunicação do leitor
com a Redação. Mesmo assim, sobra desinformação. Conforme pesquisa
do DataFolha, mais de um terço dos leitores não sabem quais são as
principais funções do ombudsman.
Tornar esse serviço ainda mais conhecido é uma das tarrefas do jornal
e do novo ombudsman, o jornalista Mario Vitor Santos.
Quanto ao jornal, é minha obrigação registrar alguns problemas candentes
que merecem ser resolvidos para o bem do leitor. A saber:
Desatenção - Muitas vezes avalia-se muito mal uma notícia e
quando o jornal a publica não dá destaque. Então, corre para enfrentar
o prejuízo.
. Na semana passada há o exemplo das irregularidades na LBA. Enquanto
outros jornais destacaram na quarta-feira que o presidente Collor
pedira a Romeu Tuma, da Polícia Federal, a prisão do ex-superintendente
da LBA em São Paulo por causa de irregularidades apuradas, a Folha
só conseguiu dar essa notícia, por inteiro, na quinta-feira. E a transformou
em manchete: "Prendam alguém na LBA, pede Collor". O fato tinha aparecido
apenas parcialmente no jornal da véspera.
Sensacionalismo - Costuma-se exagerar em certas interpretações.
Essa manchete do "prendam alguém", pode ser considerada sensacionalista,
apesar de sintetizar com maestria um dos problemas enfrentados pelo
presidente da República: mostra ao povo que se combate a corrupção.
O sensacionalismo esteve em manchetes com vôos de interpretação, como
aquela do "fim" da URSS e da era Gobatchev (recentes), a do "adiamento"
da unificação européia (outubro de 1990) ou na guerra do Iraque quando
se afirmou erroneamente ter Israel ataque depois de sofrer bombardeio
com armas químicas (janeiro passado) - para ficar em manchete equivocadas,
as quais não foram objeto de retificação.
Comodismo - O crítico do jornal costuma apontar e discutir
erros ou imprecisões. Apontá-los não significa a correção do problema.
O leitor merece palavra oficial da Redação no sentido de defender
seu ponto de vista ou reconhecer o erro.
Esquizofrenia - Trata-se do tratamento desigual dado a fatos
com conteúdo político ou problemas relativos à tal ética ambígua.
Exemplo recente foi quando se noticiou que os governadores haviam
negado acordo para o emendão do governo Collor e dois dias depois
esqueceu-se de destacar que o governo havia sofrido realmente uma
derrota na Câmara dos Deputados, na aprovação da indexação salarial.
Ou seja: o jornal exagerou interpretando algo não acontecido (o desapoio
dos governadores) e não explicou em manchete que o governo Collor
fora derrotado quando isso efetivamente aconteceu. No outro caso,
da ética ambígua, ele deixa de noticiar sequestros em andamento quando
até as emissoras de televisão aboliram essa norma de avestruz, a de
omitir a notícia de sequestro num país em clima de terrorismo civil.
Salada editorial - Apareceu com a reforma gráfica de fevereiro.
O fechamento antecipado das editorias traz para o caderno Brasil
coisas tão dispares quanto a coluna de Mortes, o resultado do futebol
ou o crime da noite. Jornal é hábito. Esse constante salto de assuntos
de um lugar para outro não cria hábito nenhum e acaba irritando o
leitor. A mesma salada deu sumiço ao Esporte, que perdeu até
seu caderno diário. Idem para o antigo caderno de Negócios. Mal disfarçado
no caderno Dinheiro, ele não reencontrou a identidade que lhe
garantiu fama e leitores.
Síntese capenga - Desenvolveu-se um sistema de modulação que
requer textos curtos e concisos. Devem combinar a informação principal
com o detalhe revelador em cada notícia, tenha ela cinco ou dez linhas.
Apenas nos textos dos "medalhões" se consegue boa. O restante dos
textos, vazados em mau português (média diária de 119 erros em agosto),
carece não apenas de detalhes mas de informação fundamentais para
a compreensão da notícia.
Eterno declaratório - O jornalismo brasileiro continua baseado
nas declarações dadas pelos personagens das notícias. A Folha
sofre muito com isso. Na maioria das vezes, a informação correta é
exatamente o contrário daquela enunciada, mesmo quando aparece da
maneira exata como foi dita (o que é raro). A informação colhida nos
bastidores, cruzada com outras fontes, pode revelar mais do que uma
declaração formal - principalmente quando vem de ocupantes do poder.
Seja poder governamental, partidário, empresarial, intelectual ou
sindical. Seria benéfico se se extirpasse do jornalismo essa mania
de transcrição literal de declarações, encheção de linguiça sem a
informação (ou análise) complementar para situá-la no contexto e na
verdade dos fatos. Cabe a todo jornalista desenvolver o distanciamento
crítico. Duvidar. Ceticismo é qualidade fundamental nesse negócio
das notícias.
Omissão sindical - Cobre-se mal o sindicalismo brasileiro.
Por dois motivos principais:
1. A grande imprensa é parte do "establishment" e mesmo os jornais
mais independentes relegam ao segundo plano as lides sindicais.
2. De sua parte, são poucos os sindicatos capazes de ter um competente
serviço de relações públicas (aparece mais quem trabalha melhor o
seu marketing, regra do jogo numa sociedade de mercado).
A Folha é o jornal mais aparelhado do "establishment" para
cobrir o sindicalismo brasileiro porque é o mais independente. Tem
mais condições de acompanhar os conflitos trabalhistas com busca de
isenção. Contudo, quem acompanhou, pôde sentir o enorme desleixo com
o qual se tratou, por exemplo, a greve dos professores e servidores
da escolas e universidades federais. Erro de estratégia, ademais,
quando se leva em conta o tamanho do professorado e a quantidade de
leitores perdida com o descaso para com movimento grevista de mais
de cem dias.
Espaço para o leitor - As enormes cartas explicativas de autoridades
ou personalidades que invadem o Painel do Leitor ocupam espaço privilegiado
do leitor, mesmo configurado inequívoco direito de resposta. Nesse
sentido, seria interessante tanto para os eventos ofendidos quanto
para os leitores que fosse aberto um local próprio para o chamado
direito de resposta. Cada carta dessa teria espaço proporcional ao
material contestado e comportaria títulos com destaque. Nenhum jornal
faz isso de forma sistemática. Seria mais um ponto desta Folha
em credibilidade e deixaria a seção tradicional de cartas ao seu dono:
o leitor.
Eram essas as observações que eu queria fazer. O mandato do ombudsman
é de um ano renovável por apenas mais um ano. Fim. Cumpri os dois
anos e agora acabou. Agradeço imensamente aos leitores que acreditaram,
procuraram o ombudsman. O perfil desses simpáticos "reclamações" pode
ser conferido nos quadros aqui inseridos, fruto de uma pesquisa realizada
por mim durante o mandato - nos primeiros 20 meses manualmente e depois
com a ajuda de um computador. Sem esses leitores e a coragem da Folha
em criar e manter a função, a instituição não seria realidade.
Por tudo isso, decidi sistematizar essa experiência num livro, "O
Relógio de Pascal", editado pela Siciliano. Será lançado aqui na Folha
na terça-feira a partir das 19h, no 9° andar. Você, leitor está convidado.
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