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São
Paulo, domingo, 19 de SETEMBRO de 1993
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Pedrosa - 1991/Folha Imagem
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| Mario
Vitor Santos, ombudsman da Folha de 22/9/91 a 20/9/93 |
MARIO
VITOR SANTOS
Quando o segundo e último ano de mandato do ombudsman chega ao final,
é inevitável que se faça algum tipo de balanço. Sem pretender ser
completo, gostaria de ressaltar o que acho mais importante.
Em diversas situações, o ombudsman é o único recurso à disposição
de alguém que se julga caluniado, injustiçado, atingido pelo conteúdo
de uma reportagem, uma charge ou uma foto.
São pessoas que ligam perplexas, sem saber o que fazer. Algumas delas
já tentaram entrar em contato com alguma instância do jornal, sem
o resultado que desejavam. Elas precisam ser ouvidas por alguém disposto
a preparado a entender o que desejam dizer.
Para esses indivíduos, a existência do ombudsman é crucial. Não principalmente
pelo que ele escreve, mas pelo que ouça e pela apuração que possa
desencadear nas instâncias do jornal. Tem leitor que só quer uma coisa:
entender o que ocorreu.
Jornalista
Os jornalistas não são obrigados a aceitar as opiniões de leitores,
nem as do ombudsman. Boa parte deles considera o ombudsman presa fácil
de lobbies, um inocente que acredita em tudo o que lhe dizem. Jornais
e jornalistas raramente são personagens do noticiário e, assim, não
sentem em si mesmos o quanto se distorce no dia-a-dia da imprensa.
Há também um dado cultural. Fala-se muito em ética no Brasil, mas
pratica-se pouco. Quem é que arrisca a - nesses tempos em que impera
uma estreita noção de eficiência máxima, de espírito de equipe, do
"vestir a camisa" - alegar previamente problemas de natureza ética
dentro das empresas, defender mesmo os direitos do consumidor, arriscar
posição e salário em troca da transparência e da verdade e em respeito
a uma entidade (o cidadão) que ninguém vê? Os Ombudsmans, que são pagos
para isso.
Surpresa
Discussões sobre ética são raras, restritas a especialistas, têm um
ranço acadêmico e poucas. Nas escolas de comunicação, o tema é tratado
de maneira chata, abstrata e isolada das outras áreas.
São escassos os exemplos de jornalistas que têm uma reflexão mais
desenvolvida a respeito no plano profissional. Menos ainda são os
que agregam a isso alguma definição no plano individual, que trate
dos seus próprios padrões nesse terreno.
Quando eu digo que gostei de ser ombudsman, há colegas que se surpreendem
e sorriem, como se isso confirmasse a condição de ingênuo que atribuem
a min por ter aceito a função. Há os que assumem ar solidário, como
se estivessem diante de alguém que foi atingido por uma fatalidade
e nem sabe disso.
Diz-se que boa ética e bom jornalismo não combinam. É uma outra maneira
de dizer que ética é assunto para o ombudsman, só para ele. Veladamente,
o raciocínio é o seguinte: para conseguir chegar à verdade, objetivo
do esforço jornalístico, e também para sobreviver, na esfera comercial,
não dá para ficar com dramas de consciência, o negócio é ser agressivo:
pau na máquina, depois se vê como é que fica.
Linguagem
Há quem associe a discussão ética à questão do assim chamado politicamente
correto. Alega-se que bom jornalismo e correção política - o questionamento
do uso de linguagem considerada preconceituosa em relação a minorias
- são incompatíveis.
Como escreveu o professor Renato Janine Ribeiro nesta Folha,
não há por que descartar a importância de se observar o uso da linguagem
como instrumento de poder e, também, de opressão dos direitos de minorias,
como as mulheres e os negros, por exemplo. A própria Folha,
aliás, com seu inovador Manual de Redação (o primeiro a tratar em
profundidade de temas ético-jornalístico no Brasil). Inaugurou essa
discussão na década de 80 bem antes de ele virar moda.
Não há jornalismo eficazmente agressivo, independente e fiscalizador
sem respeito à ética. O resto é manipulação da informação de sucesso
fácil a curto prazo, mas que pode ser extremamente corrosivo ao longo
do tempo.
Força
Com o término do meu mandato, amanhã, a instituição do ombudsman completa
quatro anos no jornal. Consolidada e independente, ela só chegou até
aqui graças ao apoio dos leitores e à coragem da direção da Folha,
que acredita nessa antinomia, isto é, em trazer para dentro de si
a oposição a seu jornalismo.
Está na confrontação interna a base do imenso dinamismo, do poder
e da atração que o jornal exerce em contingentes crescentes de leitores.
A tarefa agora será da jornalista Júnia Nogueira de Sá, que tem excelentes
qualificações para desenvolver ainda mais a instituição. Que tenha
muito sucesso.
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