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São
Paulo, domingo, 26 de setembro de 1993
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Juan
Esteves - 16.set.1993/Folha Imagem
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| Junia
Nogueira de Sá, que foi ombudsman da Folha de 21/9/93
a 27/9/94 |
JUNIA NOGUEIRA
DE SÁ
Quatro anos depois que o primeiro ombudsman da imprensa brasileira
tomou assento na Folha, a função desse profissional que trabalha
para defender os interesses dos leitores do jornal ainda desperta
curiosidade. Foi o que descobri nesta primeira semana como ombudsman
da Folha, o terceiro no cargo criado em 1989.
Foi uma semana atribulada. Entre escrever a crítica diária que circula
na Redação - um texto de quase 5.000 palavras -, atender uma média
de 15 telefonemas e responder o mesmo tanto de cartas todos os dias,
tive de arrumar alguns minutos para dar entrevistas, tirar fotos e
agendar palestras. Descobri que ser ombudsman ainda significa reservar
boa parte do tempo para explicar aos outros o que é ser ombudsman.
Um número considerável de leitores que telefonaram para o gabinete
da ombudsman nessa semana disse ter tomado conhecimento da existência
de um profissional paga para ouvir suas queixas sobre o jornal somente
no domingo passado. Foi quando, neste mesmo espaço, o jornalista Mario
Vitor Santos anunciou o término e comunicou aos leitores da Folha
que eu havia sido nomeada para substituí-lo.
No balanço de sua gestão, Mario Vitor disse que atendeu mais de 7.000
consultas em dois anos de trabalho. Seu antecessor, o jornalista Caio
Túlio Costa - primeiro ombudsman da imprensa brasileira -, passou
disso. Parece muito, mas é pouco.
Nesses quatro anos, a Folha aumentou bastante a circulação
paga e em seu melhor dia, o domingo, passa dos 700 mil exemplares.
São mais de 3 milhões de leitores em todo o país às voltas com os
muitos erros, omissões, distorções, confusões e problemas que se espalham
pelas páginas do jornal. Ou o leitor é tolerante demais ou poucos
deles conhecem o caminho que leva à pessoa que pode ajudá-los a fazer
com que o jornal encare suas falhas : o ombudsman.
O mais provável é que ambas as coisas sejam verdade. Nesse caso, a
responsabilidade não cabe apenas à Folha. Faz pouco tempo que
o cidadão descobriu, no Brasil, que tem direitos. E direitos de consumidor.
Se comprar um pacote de bolachas no supermercado e elas estiverem
estragadas, já existem algumas garantias de que o dinheiro poderá
voltar às suas mãos.
Se todos os leitores resolvessem, num mesmo dia, pedir de volta o
dinheiro pago por um exemplar de jornal que tivesse erros, seria o
fim. Dos jornais, porque os erros continuariam existindo. Em respeito
ao leitor, é urgente melhorar a qualidade do jornal e fazer com que
os erros diminuam. Assumi-los com transparência, abrir espaço nas
páginas do jornal para repará-los. E criar um canal para que o leitor
possa fazer valer sua opinião, seus direitos de cidadão e de consumidor,
junto à Redação.
A Folha teve coragem de abrir esse canal há quatro anos. No
início, debaixo de críticas pesadas dos que a acusavam de ter lançado
mão de mais um golpe de marketing. O ombudsman, imaginavam esses,
duraria o exato tempo de ser novidade. Depois, o jornal se encarregaria
de arrumar uma nova pirotecnia.
Dois Ombudsmans já cumpriram integralmente seus mandatos de dois anos
cada e a função continua existindo. Ainda que provoque curiosidade,
dentro da Folha hoje é apenas mais uma atividade integrada
ao dia-a-dia do jornal. A resistência dos jornais da Redação às críticas
do ombudsman diminui a níveis que permitem a convivência tranquila.
As reclamações feitas pelos leitores são processadas com mais rapidez
e menos obstáculos que no começo e nenhum deles pode dizer que fica
sem resposta. Pode não ser a que o leitor espera, mas sempre há uma
resposta.
A Folha e outro jornal editado pela mesma empresa, a "Folha
da Tarde", são hoje os dois únicos veículos de imprensa no Brasil
com ombudsman. Nos restantes, a idéia de expor publicamente deficiências
e vulnerabilidades parece ainda impensável. Transparência, nesses
lugares, é conceito que se cobra mas não se aplica. Erros, e há muitos
também nesses veículos, são raramente admitidos. A maioria vai para
debaixo do tapete da arrogância que ainda reveste as redações. O leitor
que se arranje.
Em dez anos, a Folha passou de meio coadjuvante na cena brasileira
a maior e mais influente jornal do país. Quase metade desse caminho
foi trilhado sob a observação de um ombudsman. Em sua crítica diária
e colunas semanais, os ombudsman foram duros, para não dizer cruéis
com o jornal. Em defesa do leitor, compraram brigas e enfrentaram
polêmicas dentro e fora da Folha.
Houve até momentos em que a concorrência fez suas as palavras do ombudsman
para atacar a Folha. Ao contrário do que esperava, essa mesma
concorrência pôde perceber que ambos, jornal e ombudsman, saíram da
história mais fortalecidos do que entraram.
Acusa-se a Folha de muitas coisas. Boa parte delas tem razão
de ser, se não quanto ao conteúdo, ao menos pela forma como o jornal
as encara. A Folha gosta de ser irreverente e narcisista e
os profissionais que ingressam em sua Redação aprendem depressa a
imitá-la. Acuse-se a Folha de tudo. Esta ombudsman está aqui
para ouvir, e tem garantia a independência necessária para investigar
e opinar sobre essas acusações. Só não acusem a Folha de ter
medo de encarar suas fraquezas. Porque o jornal tem coragem de ter
um ombudsman.
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A forma e o conteúdo de um mal-estar
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