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São
Paulo, domingo, 02 de outubro de
1994
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Paulo
Giandalia - set.1994/Folha Imagem
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Marcelo
Leite foi ombudsman da Folha
de 28/9/94 a 5/1/97 |
MARCELO LEITE
Faço
minha estréia nesta coluna na véspera de uma eleição
mais do que importante para o Brasil. Diria histórica, até,
não fosse o desgaste inexorável a que o adjetivo é
submetido nas páginas dos jornais.
A economia, usualmente enlouquecida, comporta-se bem dentro da camisa-de-força
do real. Mais: pela primeira vez o país vai escolher entre
dois candidatos a presidente suposta ou biograficamente "de esquerda".
Pela primeira vez, há uma chance de que a questão social,
enfim, deixe de ser caso de polícia.
É tudo o que muito jornalista sonhou na vida.
Além disso, uma das poucas discussões interessantes
desta campanha tediosa disse respeito à própria imprensa:
henricou ou não?
O ombudsman é a pessoa paga para criticar o jornal em que trabalha,
inclusive comparando-o com os concorrentes. É natural, assim,
que se espere de mim, hoje, um julgamento conclusivo sobre a questão.
Uma questão que, note bem, não acompanhei em minha função
atual, assumida na quarta-feira passada. Mas a segui na dupla condição
de cidadão interessado e jornalista com alguma experiência,
ainda que absorto na geografia, no ambiente, na ciência. Por
isso mesmo, por não ter estado envolvido nem com a cobertura
das eleições nem como uma apreciação desse
trabalho jornalístico, acho que estou em condição
vantajosa para emitir um juízo.
Ei-lo, sem mais rodeios: henricou, sim. Uns mais, outros menos, com
maior ou menor leviandade. Até a Folha -o único
grande jornal a abrigar em suas páginas uma discussão
pública desses temas, nunca é demais dizer- andou escorregando,
como teve a coragem de mostrar aqui minha antecessora, Junia Nogueira
de Sá.
Henricou, sim. O que não quer dizer grande coisa, apresso-me
em dizer. Estou convencido de que não foi um complô da
imprensa que levou Fernando Henrique Cardoso tão perto de se
eleger presidente da República, amanhã. Nem de banqueiros,
da Rede Globo, do FMI, do imperialismo, o que for.
A força da candidatura FHC brota de outra fonte. A chamada
"mídia" (esta palavra odiosa, assassinato norte-americano
de um termo latino, é uma das pragas que as escolas de comunicação
nos legaram) foi mais uma coadjuvante na torrente desencadeada pelo
Plano Real.
A imprensa fez o que pôde, claro. Deu curso a toda sorte de
preconceitos, foi leniente com FHC, desprezou o fenômeno Enéas.
Alheou-se das campanhas para deputados e governadores. Nos poucos
momentos em que desceu de seu pedestal de pesquisas de opinião
sobre pesquisas de opinião e se dispôs a prestar algum
serviço, como o à primeira vista primoroso caderno Olho
no Voto da Folha, cometeu erros que comprometeram todo
o esforço.
Esteve, no entanto, permanentemente sob vigilância. Não
tem precedentes recentes, por exemplo, o direito de resposta obtido
pelo PT, e desperdiçado num texto pífio, na capa da
revista "IstoÉ" do dia 28. E só quem não
conhece a Folha acharia que as cartas no Painel do Leitor,
a coluna do ombudsman e os telefonemas de assinantes passaram em branco,
sem deixar suas marcas na orientação da cobertura diária
das eleições.
Paradoxalmente, foi a Folha -talvez o diário mais próximo
do FHC pré-PFL, do ângulo ideológico- quem o incomodou
mais, a ponto de o candidato criticar de maneira aberta o jornal.
Para quem gosta de números, cito o levantamento do Datafolha
publicado ontem: comparado com agosto, o noticiário deste jornal
que pode ser considerado negativo para o tucano passou de 22,2% do
total para 39,8%, em setembro.
Na semana que passou, para citar um só exemplo, o repórter
de Política da Folha, Emanuel Neri, foi publicamente
cerceado pelo candidato. Fernando Henrique tentou impedi-lo de fazer
uma pergunta pertinente, com argumentos de autoridade, sobre o usineiro
João Tenório. O usineiro, citado na CPI do caso PC,
tinha ido à casa do peessedebista acompanhando o candidato
a governador Divaldo Suruagy (PMDB-AL).
Para minha surpresa, nenhum leitor tinha ligado até a noite
de sexta-feira reclamando da ausência de Tenório na foto
da primeira página da Folha, que eu anotara em minha
crítica interna da edição. Nem mesmo os petistas
mais vigilantes, que telefonam diariamente, deram sinal de vida (muitos
ligaram para reclamar de outras supostas manipulações,
a maioria sem fundamento).
A julgar pelo destempero de FHC, especulo que os tucanos teriam reagido
com virulência a uma foto de primeira página com Tenório.
E não haveria a menor necessidade, na minha opinião,
porque o único abalo possível à candidatura tucana
teria de vir da economia. E ele não veio, para desespero dos
adeptos de Lula.
O plano foi uma manobra eleitoral? Óbvio. Mas não só
isso, e aí reside toda a astúcia dessa construção,
digamos, maquiaveliana. O real deixou os petistas sem resposta, como
reconheceu o próprio Lula, ao dizer que ele "não
pede votos". Com efeito, ele traz votos.
Foi nesse engodo provisório dos tucanos -ou prodígio
provisório, como quiser- que todos os conservadores deste país
embarcaram, entusiasmados. E também o eleitorado, não
se esqueça.
O próprio Fernando Henrique sempre disse que o plano depende
de outras reformas profundas, mas a verdade é que ninguém
quer saber disso agora. O mágico convenceu a platéia
do circo, porque não se consegue divisar o truque que derrubou
a inflação (não houve congelamento).
O candidato Fernando Henrique pode decerto comemorar a inacreditável
inversão das intenções de voto nas pesquisas
eleitorais após o real. Mas o sociólogo, suponho, deve
preocupar-se secretamente com tudo o que ela revela de inconsistência
política e ideológica da sociedade brasileira. A não
ser, é claro, que sua evolução política
e intelectual o tenha convencido de que a verdade, toda ela, está
do seu lado.
Pois foi nesse aspecto que também vi a imprensa, ou pelo menos
parte dela, distanciar-se de FHC. A tropa de choque do PSDB bem que
tentou envolver jornais e congêneres na maior das mistificações:
a de que quem ficasse contra o real estaria contra a pátria.
Vi um filme muito parecido, também num primeiro de julho (de
1990), na famosa Alexanderplatz de Berlim Oriental. Foi a data da
unificação monetária, três meses antes
da unificação política. Os alemães do
leste beijavam as notas azuis de cem marcos, inebriadas com a moeda
forte. Nunca senti tanto asco.
Não se chegou a esse ponto, no Brasil. A biografia de FHC tem
peso demais, não se pode compará-lo com um farsante.
A presença do PFL na coligação tem peso demais
(a biografia de ACM...), não se pode ignorar o que ela implica
de contradições. As greves dos petroleiros, dos metalúrgicos,
dos bancários têm peso demais, não se pode metê-las
no saco emprestado ao autoritarismo militar (os famigerados "objetivos
políticos").
Por mais que se queira, é impossível sustentar a miragem
da pátria unida em torno do dinheiro quando ele falta para
milhões.
Arrisco-me a dizer que a imprensa tem algo a ver com a vivência
concreta desses limites, um penoso e lento processo de gestação
política. E terá muito mais a ver a partir de amanhã,
quando tudo indica que FHC sairá coroado das urnas -pois os
tucanos tiveram de arquitetar uma fragilíssima unanimidade
monetário-eleitoral para galgar o governo no voto, o que até
então tinham sido incapazes de fazer.
Ninguém, nenhum brasileiro tem o direito de desejar-lhe má
sorte. Por via das dúvidas, faço uma única recomendação
à imprensa, e à Folha em particular, no interesse
dos leitores e apoiado no mais alemão dos provérbios:
confiança é bom, mas controle é melhor.
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Na ponta da língua; Desinformação
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