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São
Paulo, domingo, 15 de janeiro de 1995
MARCELO LEITE
A reportagem
que originou a manchete de domingo passado -"BC apura suspeita de
evasão fiscal"- é exemplar, sob todos os aspectos. Do atacado ao
varejo, das alturas em que pairam boas intenções aos detalhes em
que se insinuam demônios.
Acima de tudo, é um exemplo de bom jornalismo. Josias de Souza e
Liliana Lavoratti, da Sucursal de Brasília, tiveram acesso a um
documento do Banco Central revelando que 136 empresas multinacionais
remetem pouco ou nenhum lucro a suas matrizes. A suspeita é a de
que isso acoberte evasão fiscal e remessa irregular de divisas para
o exterior.
A prática tem longa tradição, é um segredo de polichinelo. Talvez
até os integrantes da sagrada "equipe econômica", trabalhando no
setor privado, já tenham recorrido a ela. O mérito do trabalho foi
revelar um documento oficial sobre as irregularidades.
A sequência dada à reportagem nas edições seguintes da Folha
mostra que ela ensejou também um exemplo da incapacidade da
imprensa para avançar de maneira independente com suas investigações.
Na quarta-feira, depois de o mesmo BC ter anunciado que preparava
projeto de lei para salvar a pátria, digo, para coibir as remessas
irregulares, o assunto já tinha morrido para o jornal.
Ou seja, depois de cumprida a função de constranger alguns pesos-pesados
com a divulgação de seus nomes (entre eles grandes anunciantes do
jornal), a fonte de informações secou. Nenhum caso concreto de superfaturamento
foi documentado pela Folha.
Apesar da indignação fácil que desataram, é improvável que as imoralidades
do passado sejam sequer apuradas, para não dizer punidas. Se tudo
resultar em alguma restrição da prática irregular, no futuro, já
será lucro.
Outra virtude perversa da reportagem é exemplificar a comunidade
de interesses que muitas vezes aproxima fontes governamentais e
jornalistas. Se o documento "vazou", como se diz no jargão, é porque
alguém tinha interesse em permitir que vazasse.
Noves fora, não é o país ou o leitor que saem ganhando, imediatamente,
mas o jornal, com seu furo, e o BC.
Este aparece para a opinião pública como determinado a acabar com
um absurdo mais velho do que andar pra frente. Sem uma medida real
de enfrentamento. Sem mover uma palha.
Por fim, a reportagem de domingo é ainda um exemplo de descuido
com detalhes. Na crítica interna da edição que redigi na segunda-feira,
apontei dois:
1. A legenda "em milhões de dólares", na coluna "Capital registrado"
do quadro publicado à pág. 1-8. Como os valores relacionados estavam
todos na casa das dezenas e centenas de milhares, os capitais seriam
da ordem de bilhões de dólares -erro evidente. Foi corrigido terça
na seção Erramos.
2. O nebuloso exemplo dado no terceiro parágrafo do texto "Veja
o que são os preços de transferência":
"Uma empresa no Brasil resolve repatriar US$ 10 milhões para sua
matriz ou coligada no exterior. Para burlar a legislação, a empresa
exporta por US$ 15 mil um produto que, normalmente, custaria apenas
US$ 5 mil".
Na minha vasta ignorância econômica, fiquei com a impressão de que
-na melhor das hipóteses- havia alguma coisa mal-explicada, ali.
Na pior delas, tratava-se de um erro, e o correto seria falar em
importação; ou, então, os preços é que estavam invertidos.
Expus a dúvida na crítica interna da edição. Foi o início de uma
longa e complicada novela, que só termina hoje, com a publicação
de um Erramos (na pág. 1-2).
Recebi inicialmente a seguinte resposta da editoria (seção) de Economia,
que mais confundiu do que explicou: "(...) sua observação sobre
a matéria (...) está incorreta. Para que uma empresa remeta mais
divisas do que tem direito é preciso que o comprador no exterior
fature mais do que vale o produto. Logo o vendedor brasileiro precisa
colocar em seu preço um sobrepreço (...) e não o fature por um preço
menor ao do mercado."
Continuei na mesma. Insisti e recebi nova resposta da editoria reafirmando
que não teria havido erro. A Secretaria de Redação recorreu então
aos próprios autores da reportagem e a um economista, que deram
razão ao ombudsman.
Por falar em meandros lógico-matemáticos, gostaria de registrar
duas reações de leitores à minha coluna de 1º de janeiro, "Afogando
em números". (Recebi muitas, boa parte delas afirmando que eu errara
ao dizer que 2000 será bissexto, mas reconfirmei que terá mesmo
um 29 de fevereiro.) J. Roberto Whitaker Penteado, vice-presidente
da Escola Superior de Propaganda e Marketing, mandou um bilhete
simpático:
"Estão errados você e o editor de 'Teens' (na verdade, Folhateen).
657 é 10,27 vezes 64. Não é '9,26 vezes', como ele argumenta, mas
também não é 'quase 11', como você escreveu. Matematicamente, só
as frações a partir de 10,51 seriam 'quase 11'.
"A matemática tem um aspecto muito simpático, neste mundo incerto.
É que se trata de uma área de conhecimento quase exato..."
A outra contribuição veio de um leitor que pediu para não ser identificado.
Economista, ele implicou com a expressão "oito vezes menor", que
empreguei semana passada para comparar o mapa que saiu na errata
do Atlas Folha com o original da pág. 32.
Para
esse magnífico defensor da Exatidão, haveria na locução tanta impropriedade
quanto nos percentuais de decréscimo superiores a 100% que eu desancara
na coluna de 1º de janeiro. Seu argumento é o de que algo só pode
ser no máximo uma vez menor do que aquilo com que é comparado.
Retruquei que qualquer pessoa entendia o que eu quisera dizer, que
oito vezes menor era o mesmo que 1/8.
Ele contra-argumentou que, se algo pode ser oito vezes menor, poderia
também ser sete, seis, cinco, quatro, três, duas e... uma vez menor.
O xeque-mate: "Quanto é uma vez menor?"
Pelo meu raciocínio, seria 1/1. Ou seja, de tamanho igual -o que
evidentemente não faz sentido. Por via das dúvidas (literalmente),
agora só vou escrever 1/8.
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