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São
Paulo, domingo, 05 de fevereiro de 1995
MARCELO LEITE
Foi como
uma bomba no café-da-manhã de quarta-feira: Despenca aprovação de
FHC. Era previsível alguma diminuição na popularidade do presidente,
depois de 30 dias de isolamento e contemporizações com um Congresso
terminal e envilecido. Mas... despenca?
Sim. De 70% de ótimo/bom, em dezembro, para ralos 36% no final de
janeiro. Não há outro verbo para descrever tamanha decadência de
prestígio. Fato jornalístico espetacular, para um governo que prometeu
deixar jornalistas à míngua.
Parece
que foi o suficiente para Fernando Henrique Cardoso cair na real,
como se diz (outros prefeririam um trocadilho como cair do Real).
Decerto não é preciso uma medida mirabolante por semana para transformar
um país, que isso só se obtém em um processo. Nesta altura do milênio,
contudo, nenhum governante pode descurar da própria imagem.
Com a mídia se elegeu, com a mídia há de manter-se. Ou abismar-se.
Coincidência
ou não, FHC foi à tevê. Na sexta-feira, só dois dias depois da prematura
pesquisa, como se expressou um desconsolado porta-voz. Para dar
satisfações ao eleitorado, como convém em uma democracia de massas
(se é que não há contradição ou redundância entre estes termos).
Fernando Henrique falou bem, com a empostação do orgulho, mas na
realidade justificava-se. Não há nisso demérito algum.
Demérito haveria em tomar solitariamente decisões tão mais impopulares
quanto inexplicadas de público, como sancionar a anistia a Humberto
Lucena, vetar o mínimo de R$ 100, emprestar US$ 500 milhões ao México
falido. Como se a opinião pública merecesse menor consideração por
falar português, ou inglês de Miami.
Vibrei com a manchete da Folha de quarta-feira, ainda que
desejasse melhor sorte ao presidente do Brasil.
Acima da majestade de seu cargo, porém, prezo esse atributo fundamental
da democracia que é a accountability (obrigação de prestar contas).
É o único antídoto que conheço contra a soberba dos governantes
e o alheamento dos governados.
O 50º Congresso tomou posse também na quarta-feira. Um dia antes,
a Folha tinha publicado o excelente caderno especial De
Olho no Congresso, 40 páginas de informações para o eleitor
vigiar de perto seus deputados e senadores.
Na mesma quarta-feira, no entanto, a edição São Paulo do
jornal abrigou em sua pág. 1-11 um exemplo acabado do preconceito
deletério contra o Parlamento que denunciei aqui há uma semana (versão
mitigada do texto saiu na pág. 1-9 da edição Nacional).
Referindo-se ao ainda senador da República Áureo Mello (PRN-AM),
que por suas próprias palavras não parece preocupado em honrar com
decoro o próprio cargo, o texto Velho Congresso é casa de desesperados
atropelou a cerca que separa crítica de preconceito:
Foi a primeira viagem a outro país feita pelo senador, que tem medo
de avião. 'Fui a Nova York e Connecticut', conta. A pronúncia, imperdível,
faz a dentadura balançar. 'Esse negócio de inglês quando começa
a enrolar não dá para entender nada', diz o poeta 'monoglota' .
É líquido e certo que o país precisa livrar-se de senadores que
imprimem livrecos de poesia à custa do contribuinte. Mas não é menos
seguro que teria muito a ganhar com o desaparecimento desse tipo
baixo de jornalismo.
Por mais que o repórter considere irrepreensível o seu inglês de
excursão.
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