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São
Paulo, domingo, 26 de fevereiro de 1995
MARCELO
LEITE
O Prêmio Folha de Jornalismo de 1994, categoria reportagem,
foi dado ao trabalho "Mercado paralelo de bônus eleitorais", de
Xico Sá e Vicente Duarte. A investigação dos jornalistas da editoria
de Política da Folha provocou a renúncia do candidato
do Partido Liberal à Presidência da República, Flávio Rocha.
Estou convencido de que Sá e Duarte prestaram um serviço ao público
e à civilização dos costumes políticos.
Para os elevados padrões éticos de alguns jornalistas e pesquisadores,
no entanto, tal trabalho jamais deveria ter sido realizado. A razão
é que os dois repórteres, para comprovar a fraude com bônus eleitorais,
recorreram a identidades falsas.
Em abstrato, é fácil condenar esse recurso de investigação. Foi
o que fez, implicitamente, o pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro
de Análise e Planejamento, no qual militava há bem pouco a primeira-dama
Ruth Cardoso) Adalberto M. Cardoso, secundado pela revista "Imprensa",
sempre pronta ao papel de (má) consciência da categoria dos jornalistas,
em reportagem de capa da edição de janeiro.
É preciso ser justo: Cardoso não condenou esta prática em particular,
mas a inclinação de jornalistas brasileiros a aceitarem meios eticamente
duvidosos para obter informações. Ele enviou 1.112 questionários
sobre inúmeros temas a redações de grandes jornais e revistas, colhendo
355 respostas (inclusive a minha).
Entre outras questões espinhosas, os entrevistados deveriam dizer
se "pode ser justificável" apresentar-se como outra pessoa para
obter informações.
Fui um dos 63,1% que responderam "sim" à demanda. Isto não faz de
mim e de tantos outros umas feras liberticidas. Meu raciocínio:
se pudesse imaginar um único caso, a resposta afirmativa seria cabível.
A reportagem premiada sobre os bônus é apenas um exemplo concreto
das muitas situações em que a falsa identidade seria a única forma
de obter informações de interesse público.
O exemplo ilustra de modo eloquente algo que repito à exaustão em
palestras e entrevistas: é quase impossível discutir abstratamente
a ética do jornalismo. Cada caso é um caso. As circunstâncias de
uma reportagem quase sempre assumem relevância considerável para
esse tipo de avaliação.
No caso dos bônus do PL, é crucial tomar em consideração que a falsa
identidade não foi usada contra um particular. Em jogo estava a
apuração de uma denúncia contra entidades da esfera pública, um
partido político e um candidato ao posto máximo do Poder Executivo.
É algo muito diferente de telefonar para a casa de um político e
omitir a condição de jornalista, por exemplo.
Outro: é justificável examinar latas de lixo em busca de informações?
Depende. Se for o lixo da casa de Fernando Henrique Cardoso, sou
radicalmente contra. Se for o de seu comitê de campanha, sou a favor
(isto caso o jornalista se preste voluntariamente a esse trabalho
degradante).
A rigor, não discordo das conclusões gerais do estudo de Adalberto
Cardoso. Não tenho muitas dúvidas de que é bem baixo o padrão ético
da massa de jornalistas brasileiros, ainda que busquem no céu das
boas intenções e dos princípios a justificação para o lamaçal de
vaidades e favores em que desenvolvem seu ofício miúdo de leva-e-traz.
Como conclui o pesquisador do Cebrap, com palavras bem mais brandas
e ao mesmo tempo mais obscuras:
"(...) parecem falar mais alto valores relativos à liberdade de
acesso e divulgação de informação do que direitos democráticos.
Noutras palavras, a liberdade de informação, enquanto fim inquestionável
numa sociedade democrática, pode valer-se de meios que, no limite,
arranham aspectos importantes da institucionalidade democrática
relativos a direitos à privacidade de indivíduos e coletividades.
Não vejo como deixar de nomear este padrão de relação entre valores
de operacionalização pragmática dos meios. Numa palavra, a notícia
a qualquer custo."
Repito que, em tal plano de generalidade, não discordo dessa caracterização
tão desairosa para os jornalistas.
O problema é que, exatamente por ser abstrata, esse gênero de (auto)crítica
em nada auxilia profissionais a tomarem decisões concretas, na hora
do vamos-ver.
O debate sobre os limites da ação da imprensa é fundamental, desde
que não fique no nível das platitudes. E não se deve perder de vista
o previsível efeito colateral da panacéia-ladainha sobre privacidade
e direitos individuais: a domesticação da imprensa, que sempre foi
o objetivo de qualquer ocupante do poder.
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