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São
Paulo, domingo, 21 de maio de 1995
MARCELO LEITE
Há exatas
três semanas, a Folha publicou um texto em seu primeiro caderno
afirmando que a entrega dos fascículos encadernados estava em dia.
Areportagem chegava a afirmar que já tinham sido devolvidos 94%
dos volumes confiados ao jornal e à empresa GCI/Promopack, sua subcontratada.
Os outros 6% ainda por entregar estariam dentro do prazo combinado,
de 30 dias.
Foi o estampido para uma nova avalanche de protestos ao ombudsman.
De 1º de maio até a quinta-feira passada, 18, foram 283 cartas e
ligações. Vale dizer, a respeitável média de quase 22 queixas por
dia útil.
O derrame está paralisando a principal atividade do ombudsman, atender
leitores com críticas e sugestões para a Redação.
A repetição das histórias seria monótona, não fosse alarmante.
Invariavelmente, leitores que acreditaram na promessa de receber
em um mês, reunidos, os fascículos do atlas geográfico colecionados
com paciência desde agosto.
Em janeiro, alguns poucos em março, entregaram suas coleções nos
supermercados e agências dos Correios, pagando adiantado o estipulado.
Completados os tais 30 dias, começou para todos uma maratona interminável
de telefonemas para meia dúzia de números diferentes, informações
desencontradas, prazos seguidamente desrespeitados.
A reportagem do dia 30 de abril representou, para muitos, a gota
d'água. Para os que arriscaram uma derradeira busca por satisfações,
veio a ofensa que agrava o dano: enviado o volume para o Correio,
ainda teriam de esperar até 35 dias úteis por ele.
Diante disso, as frases mais brandas que minha secretária, Rosângela,
e eu costumamos ouvir ao telefone são ``estão nos fazendo de palhaços''
e ``a Folha cobra de todo mundo, mas não pratica na sua própria
casa''.
Nada resta senão ouvir, com paciência e o respeito devido, as queixas
dessas pessoas. Dar-lhes razão, na grande maioria dos casos. E,
muito pior, dizer _com enorme constrangimento_ que pouco posso fazer
além de encaminhar o caso para a Diretoria de Circulação e Marketing,
pois sou ombudsman somente da Redação.
Esse pouco a mais é, por exemplo, alertar a direção da empresa para
o pesadelo microkafkiano em que a boa idéia dos fascículos lançou
centenas, milhares de leitores. E dar publicidade a esse descalabro,
na esperança de que isso possa acelerar uma solução definitiva.
Algumas sugestões:
1. Retificar as informações róseas da reportagem de três domingos
atrás, pois a amostra recebida pelo ombudsman prova que eram equivocadas,
para dizer o mínimo;
2. Montar ou reaparelhar uma central de informações que realmente
informe alguma coisa, inequivocamente, e na qual o telefone não
esteja sempre ocupado.
Prontidão
Quando entrei no avião que me traria de Atlanta (Geórgia, EUA) para
São Paulo, na noite do domingo passado, agarrei ansioso um exemplar
da Folha. Embora fosse do dia anterior, o jejum de mais de
uma semana justificava a quebra de um princípio (nunca ler jornal
amanhecido).
O prazer durou pouco, uma fração de segundo entre reconhecer o logotipo
do jornal e ler sua manchete:
``Exército faz prontidão contra greves''. A lembrança funérea das
três mortes em Volta Redonda era inevitável.
Em nenhum lugar da primeira página ou da reportagem interna se empregava
a expressão ``segundo a Folha apurou'', recomendada pelo
``Novo Manual da Redação'', mas era evidente que se tratava de uma
informação em ``off'' (fornecida sob a condição de não citar a fonte).
Ainda na sexta-feira, a prontidão _situação extraordinária em que
soldados são retidos no quartel_ seria negada pelo porta-voz da
Presidência. Incluído este dado na segunda edição (``São Paulo/DF''),
o jornal manteve a manchete-faísca.
O caldo entornou mesmo foi na edição de terça-feira. Uma carta do
general Romulo Bini Pereira, chefe do Centro de Comunicação Social
do Exército (Ccomsex), publicada no Painel do Leitor, negava a prontidão.
Mais, dizia que tal negativa tinha sido apresentada a um repórter
da Sucursal de Brasília na própria sexta. Mais espantosa, ainda,
era a Nota da Redação adendada: ``A informação publicada no dia
13 de maio último, de que o Exército estava de prontidão, foi obtida
pela Folha no Ccomsex e no Palácio do Planalto''.
Muitos, como eu, devem ter pasmado. O Ccomsex diz que o jornal mente,
o jornal diz que o Ccomsex mente, e os leitores que se danem.
Depois de uma pequena investigação, convenci-me de que a Sucursal
de Brasília agiu com lisura e competência. A informação em ``off''
foi confirmada com fontes independentes entre si, como mandam a
boa técnica jornalística e o ``Novo Manual''.
O ponto de partida foi um rumor que tomou Brasília na manhã daquela
sexta-feira (um ministro civil chegou a dar entrevista sobre isso
para rádio).
A prontidão foi primeiramente confirmada com uma fonte do próprio
Ccomsex. Depois, com um oficial da Vila Militar em Marechal Hermes
(município do Rio de Janeiro). Por fim, com um funcionário civil
do Palácio do Planalto (muito próximo do presidente).
O coronel Ubiratan Marcondes, 50, subchefe do Ccomsex, voltou a
negar em conversa com o ombudsman, na tarde de sexta-feira, que
o Exército tenha entrado em prontidão. Disse que só ele e mais dois
coronéis atendem a imprensa, no centro, e que nenhum deles confirmou
a informação ao repórter da Folha.
Questionado sobre a hipótese de que o Exército estivesse de fato
em prontidão, mas se visse obrigado a manter sigilo por motivo de
segurança, o coronel respondeu categoricamente que isso não seria
possível.
``Não dá para esconder que se mantêm milhares e milhares de homens
no quartel.''
Com efeito, deve ser difícil. Dois militares e um civil deixaram
isso escapar para jornalistas. ``Se alguém fora do Exército quis
usar isso como uma forma de dissuasão, não sei'', afirma o coronel.
Uma possibilidade que faz todo sentido, em face da rajada de informações
tão duvidosas quanto alarmistas que o governo federal desferiu esta
semana, a propósito dos efeitos da greve.
Adeptos e adversário do monopólio levaram tão a sério sua guerrinha
ideológica que estiveram muito perto de convocar para ela quem tem
real poder de fogo. A diferença é que, no caso do folclórico Leonel
Brizola, ele continuaria falando sozinho.
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