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São
Paulo, domingo, 04 de junho de 1995
MARCELO LEITE
Governo
federal e petroleiros travaram uma guerra política em torno da greve,
usando como bucha de canhão a paciência dos contribuintes. Foi uma
guerra de informação, sobretudo. O governo ganhou de lavada. Depois
dos petroleiros, humilhados, quem saiu perdendo foi a imprensa.
Em meio ao tiroteio, ela desempenhou papel semelhante ao do período
entre a introdução do Real e a eleição de Fernando Henrique Cardoso:
simpatia irrestrita. Apoiados no irretorquível argumento da legalidade,
de respeito à decisão da Justiça do Trabalho _tão criticada no passado_,
os jornais desancaram em uníssono os petroleiros.
Assim como o governo, a elite econômica esfregava as mãos com a
crescente irritação popular contra os grevistas. Era uma paulada
providencial e definitiva no monopólio estatal do petróleo. Ninguém
desconhece que há consenso na imprensa a favor da extinção do dinossauro
getuliano.
Até aí, nada a objetar. Jornais e comentaristas têm direito à opinião,
desde que se limitem a manifestá-la no espaço dos editoriais e colunas
assinadas.
A imprensa, no entanto, foi além. Por conveniência ou incompetência,
teve seu noticiário usado como linha auxiliar na estratégia de propaganda
do Planalto. Como de hábito, o papel principal ficou com as TVs.
Fazer estas críticas, que fique claro, não significa defender os
petroleiros, mas o direito dos leitores à informação isenta.
Ataques aos sindicalistas, de resto, não faltaram. O que faltou
foi ceticismo com as informações divulgadas pelo governo, ou de
seu interesse. Ou ainda, maior destaque para notícias desfavoráveis
a FHC. Alguns exemplos, a maioria deles apontados nas críticas internas
da Folha:
Na última quinta-feira, o presidente da República desceu do pedestal
para bater boca com o presidente do PT, que lhe enviara fax criticando
sua intransigência. Nenhum grande jornal publicou anteontem a íntegra
da carta de Lula. ``O Estado de S.Paulo'' deu a da resposta de FHC,
apenas.
A Folha abrigou sem questionar, na quinta-feira, informação
da Petrobrás de que o salário médio dos petroleiros era de US$ 1.500.
Não explicou por que o valor era anunciado em dólar e desconheceu
valores anteriormente divulgados, de R$ 700 a R$ 1.000.
Nunca se explicou por que estava faltando álcool, se a greve era
de petroleiros.
Outro capítulo misterioso foi o prejuízo provocado pela paralisação.
Houve valores para todos os gostos, de R$ 200 milhões a mais de
R$ 1 bilhão. A greve foi responsabilizada pelo ministro Pedro Malan
por mais um déficit da balança comercial, sem que os jornais fossem
capazes de fazê-lo dar informações precisas.
Na segunda-feira, o ex-presidente Itamar Franco teria dito ao sindicalista
Antônio Carlos Spis que procurara FHC para confirmar o acordo salarial
supostamente desrespeitado. A Folha deu a informação, é fato,
mas em nota com meras 17 linhas.
Neoliberou geral?
Não se apresse o leitor a concluir, com isso, que o ombudsman concorda
com os poucos leitores que acusam a Folha de fazer a apologia
da ideologia neoliberal. Para contradizer essa interpretação conspirativa,
lembrava-lhes entre outras coisas que o jornal tinha dedicado quase
uma página à entrevista com o petroleiro Spis.
Em editorial de 23 de maio, a Folha engrossou o coro que
pedia maior flexibilidade do Planalto. No dia seguinte, outro editorial
_``O espírito de Thatcher'', surpreendente_ tirava lições sobre
a intransigência do tucano. Dizia que o embate entre a então primeira-ministra
britânica e sindicatos (base do Partido Trabalhista) em nada iluminava
o drama brasileiro:
``Mesmo que uma hipotética destruição do sindicalismo quebrasse
também o PT, isso aparentemente não interessaria ao presidente Fernando
Henrique, que acabaria tornando-se refém do empresariado e de partidos
mais à direita.''
Pode-se até acusar a Folha de incoerência, mas é difícil
de encaixar essas palavras no estereótipo do discurso neoliberal.
Sem bastidores
Mais preocupante para a opinião pública é a eficiência do Planalto
no bloqueio de informações. Isto ficou evidente em duas situações
recentes: a queda do presidente do Banco Central e a invasão de
quatro refinarias de petróleo pelo Exército.
É certo que este último episódio foi prenunciado por uma reportagem
da Folha, manchete de primeira página em 13 de maio (``Exército
faz prontidão contra greves''). A informação foi negada pelo Exército
e pela Presidência, depois caiu no esquecimento. A ação que ela
preparava foi ocorrer só 11 dias depois, sem que os jornais detectassem
na ocasião a movimentação militar.
Algo de semelhante ocorreu com o abandono do barco por Pérsio Arida.
Já se dava como certa, desde março, sua opção por uma vida mais
tranquila, distante do centro do poder.
Apesar dessa expectativa, o desfecho da quarta-feira ainda foi capaz
de causar surpresa. Por uma simples razão _nenhum jornal sabia o
que estava acontecendo. Se sabia, não publicou.
O resultado era visível nas edições de quinta-feira. Havia pouca
informação do gênero ``bastidores'' (um eufemismo para aquilo que
os jornais não foram capazes de contar a tempo). Tamanha foi a confusão
que até hoje é difícil discernir, por exemplo, qual o papel real
de Mário Covas na demissão
. Para concluir: no Congresso, talvez, o Planalto ainda pode enfrentar
rebeldias oportunistas, mas vai aprovando o que quer; a dos petroleiros
e da CUT, esmagou; e no caso da imprensa, também, tem sido capaz
de mostrar quem de fato está no comando.
Fascículos
Publico acima as estatísticas sobre atendimento do ombudsman, como
faço de dois em dois meses. Manteve-se a média aproximada de 700
leitores por mês, que parece ser o limite máximo com a estrutura
atual (ombudsman, secretária, auxiliar).
O que mudou foi o perfil do atendimento. Na realidade, confirma-se
uma tendência já apontada aqui, a do desvio de função: quase metade
dos casos de abril/maio (45%, ou 662 de um total de 1.467) tinham
caráter administrativo e não jornalístico.
A razão desse acúmulo, repetidos problemas com a encadernação de
fascículos, também é mais que conhecida. Já se torna enfadonho enunciá-la.
Não o faço para tentar tirar o corpo fora, como entenderam alguns
leitores, mas para deixar claro que não tenho poderes para resolver
suas reclamações, que considero justas.
Por fim, uma boa notícia: fui informado de que a Folha publicaria
hoje uma reportagem sobre os atrasos na encadernação. Só posso esperar
que ela seja mais fiel à realidade do que a anterior, editada em
30 de abril.
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