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São
Paulo, domingo, 13 de agosto de 1995
MARCELO LEITE
A Folha andou brigando com a notícia, mas o caso da semana
foi o que encalacrou o xerife dos preços, José Milton Dallari. Um
caso exemplar, porque demonstra que mesmo o mais virtuoso dos príncipes
está no campo oposto ao da imprensa. Por definição, não por implicância
de parte a parte.
O escândalo não expôs somente os inaceitáveis negócios privados
de Dallari com os conglomerados que lhe cabe controlar, em seu cargo
público. Também trouxe à luz que o governo Fernando Henrique Cardoso
não foge à regra: conflitos de interesses só passam a ser relevantes
quando se tornam conhecidos.
Em algum momento, como ministro da Fazenda, candidato ou presidente,
FHC fez vista grossa para a ponta do iceberg que agora abalroa a
credibilidade de seu governo. Não é crível, afinal, que desconhecesse
a investigação. Mesmo assim, nomeou Dallari para um posto-chave
da economia.
Gastou-se muita saliva e tinta, na semana, com argumentos formalistas
sobre os direitos de Dallari à defesa e ao sigilo na investigação.
Está certo. É provável até que, segundo a legislação brasileira,
ele nem tenha cometido irregularidade alguma.
Ocorre que o "julgamento" em curso não se faz do ângulo criminal,
mas político. E por quem de direito: o público.
Mal-estar
Foi a revelação dos contratos entre xerife e caubóis rápidos no
gatilho que provocou todo o mal-estar. Isto não pode ser negado
nem por aqueles que se aferram ao argumento de que seria absurdo
impedir o governo de recrutar talentos no faroeste da iniciativa
privada (quando é na direção oposta, Estado-consultorias, que segue
apinhada a diligência).
A origem do desconforto e da decepção é o segredo, ou mais precisamente,
seu rompimento. O cidadão se sente traído quando descobre que um
conflito tão evidente foi subtraído ao conhecimento público. Já
dizia o filósofo alemão Immanuel Kant, com palavras mais difíceis,
que toda ação dependente de sigilo é contrária ao interesse público.
Sustentam os analistas que FHC ainda não apeou o xerife por receio
de que a moda pegue e não sobre ninguém em Brasília para segurar
as rédeas do Real. Se o governo não parece disposto a curvar-se
ao imperativo da transparência, para a imprensa só resta pôr em
dia a lição de casa e dizer quem vive do quê, na Esplanada dos Ministérios.
Ou então, vai saber, será preciso subverter o velho adágio: mesmo
quem não deve pode ter algo a temer. Tempos bicudos, confusos.
A quem interessa
É comum ouvir em Brasília que ninguém está ali a passeio. Certamente
não foi por acaso, nem exclusivamente pelos esforços de reportagem
da revista "Veja", que o caso Dallari veio à tona.
O "vazamento" intencional de investigações em curso, dossiês, estudos
e planos de governo é uma ferramenta _para empregar termo da moda_
muito útil na política. Não é porém do interesse dos jornalistas
e dos jornais, pelo menos dos que dão furos, abrir a seus leitores
quem se beneficia com a tal revelação. Pode matar a galinha dos
ovos de ouro.
No caso do xerife dos preços, pouco se avançou além do nível da
especulação. A investigação da Receita Federal (por que a Receita?)
vinha de vários meses, mas só foi ventilada agora. Por quê?
Uma das possibilidades aventadas é que se trate de um lance de xadrez
que antevê 1998, algo como um cerco da torre pernambucana e do bispo
soteropolitano (perdão, cardeal) aos cavalos paulistas. No meio,
feito baratas tontas, rei e rainha com sua etiqueta e seus penteados.
De tão tímidas e escondidas, as poucas análises nessa direção acabam
cifradas como o infeliz parágrafo anterior. Em outras palavras:
ACM e/ou Marco Maciel X José Serra e Clóvis Carvalho. Se não for
verdade, é bem pensado.
Manchete
tardia
A trajetória
da Folha, em termos da importância objetivamente atribuída
ao caso Dallari, foi esdrúxula. No jargão do meio, parece que o
jornal andou brigando com a notícia (recusando-se a dar-lhe o devido
valor).
A edição de segunda-feira trazia uma reportagem sobre o caso (a
qual, desobedecendo o "Novo Manual da Redação", não citava a revista
"Veja"), mas nenhuma menção na primeira página. Papel ainda mais
feio fez seu concorrente paulista, "O Estado de S.Paulo", que nem
tratou do assunto. O "Jornal do Brasil" tinha reportagem e chamada
na capa.
Na terça-feira a Folha já citava a fonte do furo, mas ainda
mantinha o assunto distante de sua vitrine. Na quarta, quando a
notícia sobre a provável saída de Dallari fazia a manchete de muitos
diários, deu sua primeira chamada.
O xerife em desgraça só alcançou mesmo o título principal da Folha,
paradoxalmente, no anticlímax de quinta: "Malan anuncia que Dallari
fica". Nesse mesmo dia, a Folha foi o jornal _entre os de
maior prestígio_ que melhor destacou o segundo caso da semana: Corumbiara.
Mais um daqueles massacres tão brasileiros, no meio do mato, terror
escuro.
Torço para que a imprensa, e a Folha em particular, seja
mais competente para desmanchar as muitas cortinas de fumaça que
já se erguem sobre esse episódio triste. Neste caso, afinal, morreu
gente.
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