São
Paulo, domingo, 27 de agosto de 1995
MARCELO
LEITE
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Antonio
Gaudério/Folha Imagem
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em que a Folha viu "réplica de saudação nazista" |
Compare as duas
belas fotografias ao lado. Na primeira, de 13 de novembro de 1994,
a torcida organizada corintiana Gaviões da Fiel dá um show coreográfico
inofensivo. Na outra, tomada no último dia 20, palmeirenses e são-paulinos
se entregam a uma erupção neandertalesca de violência, capaz de
envergonhar todo aquele obrigado a compartilhar com essa gente a
mesma espécie animal.
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Renato
Cordeiro/Folha Imagem
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em que qualquer um pode enxergar a barbárie |
Animal no mau
sentido, que fique claro, já que desse mundo estranho do futebol
vem também a acepção calorosa do adjetivo. Todo jogo é uma sublimação
de comportamentos violentos, embates viris. Ainda assim, é difícil
de compreender um campo em que, para saudar a elegância apolínea
de um drible à Edmundo, se desentala um berro pré-histórico: "Animaaal!"
Mesmo execrando esse gênero de involução, comprei uma briga com
a Redação da Folha por causa da primeira imagem. O jornal
cismou de descrevê-la como "réplica de saudação nazista". Depois,
fez uma pseudo-retificação, na qual dizia que ela só "lembrava"
os nazistas. Inconformado com o que me parecia uma pirraça, critiquei
o jornal em minha coluna de 27 daquele mês.
Muita gente entendeu que era uma defesa da Gaviões. Não era. Era
uma defesa do direito desse pessoal _por mais boçais que seja ou
pareça_ ser tratado justa e objetivamente pela Folha.
Que fique bem claro, porém: repudio o comportamento animal _no mau
sentido_ desses jovens embotados. Abomino sua virilidade equivocada
e sua estética bovina. Acho até que a imprensa tem sido branda ao
tratá-los.
Os jornais estão fazendo um bom trabalho, é importante dizer, no
caso da batalha do Pacaembu. Isto vale sobretudo para o caderno
Esporte da Folha, que vem tentando puxar o fio da
meada de responsabilidades, um emaranhado que parece não ter fim.
Apesar de complicado, o caso não pode deixar de ser dissecado. Para
estudantes de comunicação de São José do Rio Preto, na última terça-feira,
dei como exemplo da objetividade possível em jornalismo um quadro
inteligente publicado naquele dia à pág. 4-1, "De quem é a culpa"
(reproduzido abaixo das fotos).
Esta "arte", como se diz no jargão jornalístico, registra de modo
perfeito _vale dizer, completo_ os vários lados da questão. Mas
não se limitou a designar cada um dos atores do drama (prefeitura,
clubes, polícia e torcidas). Teve o cuidado, ou a esperteza, de
mostrar que para cada um deles também há duas faces, acusação e
defesa.
A conclusão a tirar desse quadro é que uma solução depende de todos
os envolvidos, juntos. E que o futebol é importante demais para
ser deixado nas mãos desses incompetentes e trogloditas.
TV e vida inteligente
Preste atenção no caderno TV Folha, que circula aos domingos.
Duas reportagens recentes evidenciam que o suplemento parece libertar-se,
enfim, da receita mais óbvia (programação, resumos de novelas, bastidores).
Primeiro, TV Folha esmiuçou as afinidades eletivas _no mau
sentido_ entre a Rede Manchete e o prefeito paulistano, Paulo Maluf.
Título da capa da edição do último dia 6: "A Manchete malufou".
Na semana passada, a reportagem mais importante só aparecia na pág.
5: "Público acha que Globo apóia FHC". Até aí, nada de novo. Novos
eram os dados colhidos pelo Datafolha em meio a 1.080 paulistanos:
para 55% deles, a emissora de Roberto Marinho é a que mais apóia
o presidente Fernando Henrique Cardoso, seguida pelo SBT (12%).
O texto do repórter Armando Antenore comentando a pesquisa, muito
perspicaz, termina citando as mudanças recentes na área de jornalismo
da Globo e deixa claro que elas só ocorrem por influência do público:
"(...) o jogo de cena já está feito. E o que o motivou não tem nada
a ver com a ética jornalística ou com o súbito arrependimento diante
de erros passados. Tem a ver com o mercado, com a briga cada vez
mais acirrada por pontos no Ibope". Viva o mercado.
Epidemia de desinformação
Deu na Folha de anteontem, pág. 1-12, seção Ciência: "A OMS
(Organização Mundial da Saúde) declarou oficialmente ontem que acabou
a epidemia de febre hemorrágica no Zaire, causada pelo vírus Ébola.
Iniciada no começo do ano, a epidemia matou 244 das 315 vítimas
que foram registradas".
Exatas oito linhas. Nada mais mereceu o óbito da doença mais comentada
dos últimos anos, depois da Aids.
Onde estão os milhares de mortos do microrganismo letal que se transmitia
pelo ar? E a pandemia aeronáutica?
O ataque do ombudsman ao vírus jornalístico apareceu na coluna "Chega
de Ébola e Internet", de 28 de maio.
O Ébola já foi, sem deixar rastros, mas o tititi internético cede
lugar para o do Windows 95.
É a mais nova mania de uma imprensa embasbacada com maravilhas que
no fundo só fazem inverter o princípio do despachante. Criam facilidades
para vender dificuldades.
Noites em claro. Casamento em crise. Manuais em profusão. Aplicativos
em polvorosa. Conhecimento útil em retirada.
Imprensa em festa.
ACM e RP
Na coluna da semana passada, pus a honrada categoria dos relações-públicas
em companhia duvidosa. Afirmei que o imperador da Bahia poderia
terminar como relações-públicas de um banco quebrado.
Minha intenção não foi pejorativa, mas a referência certamente terá
sido entendida assim. Por isso, dou razão ao leitor que se queixou
em nome da profissão e me penitencio pelo lapso politicamente incorreto.
Por falar em ACM: agora na muda, o combativo senador vai conseguindo
tudo o que quer do Banco Central que tanto vituperou. Não me parece
que a imprensa esteja deixando isso tão claro quanto no momento
em que a vitória "da Bahia" foi proclamada no berro.
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