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São
Paulo, domingo, 24 de setembro de 1995
MARCELO
LEITE
A imprensa tem sido assaltada pelo Unabomber, Bráulios e Edir Macedo.
Peço licença, porém, para trazer à baila um certo sr. Jorge Díaz
Arreteagui, peruano, personagem do fato de imprensa mais grave dos
últimos dias.
Nunca ouviu falar? Pois deveria. Salvo melhor juízo, é o único nome
que veio à tona na fantástica e efêmera historinha iniciada segunda-feira
pelo diário financeiro paulista "Gazeta Mercantil": guerrilheiros
do sanguinário Sendero Luminoso estariam treinando brasileiros do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Não bastava a violência associada com esses invasores de propriedade
(atenção, politicamente corretos, não há termo melhor para descrever
sua ação), ou contra eles praticada.
Não bastava a carnificina de Corumbiara, mais uma a pesar inutilmente
na consciência nacional (Matupá, Carandiru, Candelária, Vigário
Geral, Nova Brasília). Não, tinha de haver também terroristas na
parada.
A imprensa embarcou confortavelmente na história, sabor anos 60
ou 70. Ninguém pareceu muito preocupado com a possibilidade de que
a conversa funcionasse como justificativa a posteriori para Corumbiara,
sub-reptícia e abjeta. Uma espécie de contrafato, capaz de ofuscar
o que o massacre berrava a todos: ausência completa de iniciativa
governamental na grave questão fundiária.
No dia 18, título destacado na primeira página da "Gazeta" informava:
"Governo investiga Sem Terra". A linha-fina (subtítulo) explicava:
"Agentes de informações dizem que MST tem infiltração do Sendero",
informação atribuída a "dois ministros de Estado". Fontes de primeira
linha, portanto.
Algo de tamanha gravidade _articulação terrorista internacional
para sublevar o campo_ tem interesse noticioso evidente. Não pode
deixar de ser publicado, depois de conhecido, mas pede a mobilização
dos melhores recursos jornalísticos para apuração criteriosa dos
fatos. Não foi o que aconteceu.
A longa reportagem da "Gazeta'' (cerca de 110 cm/coluna) era só
formalmente correta. Várias fontes foram ouvidas e as informações,
cruzadas. O outro lado, constituído pelo próprio MST, teve voz.
Mas o texto desconfiava pouco, quase nada.
O máximo de questionamento que se permitiu estava no seguinte período,
que deveria entrar para a história negativa do jornalismo: "As fontes
governistas insistem em que não estão equivocadas, mas não mostram
provas ou indícios da presença senderista entre os sem-terra".
Em outras palavras, é lícito de ora em diante acusar sem provas.
E a verossimilhança que se dane. Pois não há outra conclusão a tirar
dos risíveis pontos de contato MST/Sendero alinhavados no texto:
A tática do Sendero absorvida pelos sem-terra é maoísta;
As bases de organização;
Lideranças de alto nível intelectual;
Exacerbação do sentimento nacionalista;
Aliança com partidos, Igreja e entidades legais;
Emprego de armas improvisadas, como enxadas, panelas, picaretas.
A "Gazeta" ainda teve o mérito de descobrir a lenda, que seguramente
circula nos gabinetes brasilienses (há de tudo, por lá). Pior fizeram
os outros jornais, que pegaram o bonde andando. Poderiam ter tirado
a história a limpo, mas prosseguiram no mesmo tom crédulo, conservador
e alarmista.
O primeiro a sair atrasado, na praça paulista, foi "O Estado de
S.Paulo". Neste caso, a origem da informação era claramente identificada:
"Militares exigem ação no campo", dizia o título na capa de terça-feira.
E a investigação noticiada na "Gazeta surgia já como fato acabado:
"Militares pediram ao governo brasileiro urgência para tratar da
reforma agrária por causa da presença de militantes do grupo peruano
Sendero Luminoso no Movimento dos Sem-Terra".
Mais atrás veio a Folha, na quarta-feira. Sem registro na
primeira página, mas com destaque na de número 1-11: "Elo sem-terra-Sendero
é de 91, diz Exército".
Documentos confidenciais, segundo a reportagem da Sucursal de Brasília,
davam conta de que a vinculação fora detectada naquele ano pelo
adido militar na embaixada brasileira em Lima. O restante do texto
pouco acrescentava às informações de dois dias antes, no furo da
"Gazeta" (que não foi citada, como tem acontecido na Folha,
contrariando seu próprio "Manual da Redação").
O nome do adido militar nem sequer foi mencionado, informação que
suponho de domínio público. E olhe que adidos militares nem sempre
gozam da credibilidade desejável, como sugere escândalo recente
envolvendo um acusado de tortura.
Nomes, aliás, são a maior carência dessas reportagens estranhas.
Só na quinta-feira foi aparecer um, de novo na "Gazeta" (pág. A-7).
Isso, Jorge Díaz Arreteagui, aquele lá do primeiro parágrafo: um
fulano preso há mais de dois meses em Fortaleza, sob a acusação
de estelionato, depois de tentar aplicar um golpe no arcebispado.
Segundo a Polícia Federal, "apesar de se dizer ex-guerrilheiro senderista,
Arreteagui não tinha qualquer vínculo com os sem-terra e estava
na capital de um Estado que não tem propriamente conflitos de propriedades
rurais".
Foi tudo que restou da lenda de senderistas sanguinários ensinando
matutos a brandir enxadas, panelas e picaretas. O assunto foi convenientemente
abandonado pelos jornais. Sangue, de verdade, rolou foi em Corumbiara,
o de uma dúzia de brasileiros. Sem nome.
Mais um ano
Quarta-feira, 27, é o último dia de meu primeiro mandato de um ano
como ombudsman. Já está decidido que será renovado por mais um ano,
como previsto no regulamento da função. Você deve encontrar nesta
edição uma reportagem dando conta disso.
O balanço do ano, propriamente dito, fica para a semana que vem.
Até lá, contarei com séries completas de estatísticas, que permitirão
uma análise mais acurada desses 365 dias de ombudsmanato.
Por ora, fique somente o registro de que encaro a revalidação desse
contrato "sui generis" com uma mistura de satisfação e insatisfação.
Satisfação, antes de mais nada, porque acredito que a função vem
sendo exercida a contento, em face das condições dadas. Insatisfação,
contudo, porque Redação e ombudsman ainda têm muito, mas muito chão
para andar.
Juntos, ainda que separados, como até agora.
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