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São
Paulo, domingo, 08 de outubro de 1995
MARCELO LEITE
Para quem enche a boca ao falar do Quarto Poder, costumo retorquir
_não sem alguma provocação_ que o único, o verdadeiro poder da imprensa
é destruir reputações. A Folha foi envolvida esta semana
numa dessas manobras sórdidas, dirigida contra Enilson Simões de
Moura, conhecido no meio sindical como ``Alemão''.
Não conheço Alemão, nem tenho procuração dele para fazer sua defesa.
Não me interessa sua picuinha com o igualmente polêmico Luiz Antônio
de Medeiros, pelo controle da central Força Sindical. Até o telefonema
que recebi do primeiro, nunca tinha ouvido sua voz.
Estou é no ataque, contra a imperícia jornalística.
A reportagem em questão saiu na terça-feira, dia 3, à pág. 1-9,
sob o título ``Sindicalista recebeu `diária' de R$ 169 do antigo
SNI''. A linha-fina (subtítulo) do quadro com largura de três colunas
cumpria formalmente o requisito de destacar a versão do outro lado:
``Alemão, da Força Sindical, diz que ganhou por palestra''.
Quase tudo, na reportagem, cheirava mal. Das aspas em ``diária''
à cifra irrisória, do uso capcioso da expressão ``antigo SNI'' para
designar a atual Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) ao do
verbo ``alegar'' para introduzir as explicações de Alemão, muita
coisa no texto implicava sua atuação como informante dos ``arapongas''.
Apenas com o que li, arrisquei a seguinte crítica no comentário
da edição que circulou aquele dia, sob o título
``Do jeito que Medeiros gosta'':
``Alemão recebeu a fantástica soma em 5 de abril de 1995, e da SAE,
que o texto faz o favor de explicar como `antigo SNI'. Daí a usar
a explicação no título... Parece má-fé, como se se quisesse insinuar
que o sindicalista foi subornado durante a ditadura militar.
``Medeiros deve estar dando pulos de alegria. O jornal foi miseravelmente
usado pelo desafeto de Alemão.
Por falar nisso, a Folha nunca mais falou como é que ficaram
as acusações muito mais pesadas contra o acusador de hoje''.
No dia seguinte, quarta, o tom da reportagem de sequência do caso
era bem mais ameno. O destaque, muito menor.
Citava as acusações de Wagner Cinchetto, ex-assessor de Medeiros,
contra o antigo assessorado: este teria participado de reuniões
com Pedro Paulo Leone Ramos, ex-secretário de Assuntos Estratégicos
do governo Collor. O famoso ``PP'' de um escândalo paralelo ao de
Paulo César Farias. Neste caso, o jornal renunciou ao didático ``antigo
SNI''.
Em contato com o ombudsman, anteontem, Alemão queixou-se de ter
mandado para a reportagem da Folha, no dia 2, provas de sua
participação em um seminário organizado pela SAE em 12 de abril
deste ano. ``Eu não aleguei, eu provei.''
O folheto do evento foi enviado por fax. Além de Alemão, havia participantes
sobre os quais não se levantou a suspeita de colaborarem com o ``antigo
SNI'': Ronaldo Sardenberg, Teotonio Vilela Filho, Clóvis Carvalho,
Sérgio Motta...
Segundo o editor de Economia da Folha, André Lahóz,
26, só a capa do folheto chegou às mãos da repórter:
``Houve um problema de comunicação. Por isso achamos prudente dizer
que ele `alega'. Alemão reclamou no dia seguinte, ficou de mandar
novamente o fax, mas nada chegou''.
O resumo da ópera é que o fax com a resposta do acusado só chegou
completo até a Redação na sexta, e por intermédio do ombudsman.
Segundo o editor de Economia, as novas informações levariam
à publicação de uma nova reportagem, na edição de ontem.
``Eu faço um mea culpa, acho que houve um tratamento exagerado ao
tema. Não merecia tudo isso'', afirma Lahóz. Mas o editor insiste
em que não vê problema com a menção no título ao ``antigo SNI'':
``De fato a SAE é o antigo SNI. O título não está incorreto''.
Eu acrescentaria que ele também não está correto _na acepção ética
do termo. A SAE do governo FHC não é a SAE do governo Collor, que
por sua vez já não era mais o SNI de Geisel.
Faltou tudo nessa reportagem: prudência, bom senso, perícia, desconfiança,
investigação. Inclusive contra Alemão, se fosse o caso, que há bem
pouco tempo nada tinha contra Medeiros. Nessa guerra suja, como
tantas de alguns setores do sindicalismo, o bom jornalismo foi a
primeira vítima.
Bomba
O caso da semana foi a da explosão no Itamaraty. Além do bom desempenho
jornalístico da Folha _único jornal a obter entrevista e
foto do suspeito Jorge Mirândola no dia de sua prisão_ e da inoperância
da Polícia Federal em prevenir o atentado, o que mais chamou a atenção
foi a sem-cerimônia com que apresentou o acusado à execração pública.
A esse propósito, reproduzo trechos da carta que recebi anteontem
do leitor Luiz Arnaut, de Belo Horizonte:
``O grande absurdo cometido quando da cobertura do caso Escola Base
está sendo reeditado. Vários veículos de comunicação, incluindo
a Folha, estão tratando o sr. Jorge Mirândola como uma Maria
Madalena. Todos jogam pedras, acusam, desrespeitam sua intimidade.
Veja as fotos publicadas. As quatro fotos de propriedade de Mirândola,
nas quais ele está à `cowboy', são privadas e ninguém tinha o direito
de publicá-las sem prévia autorização. (...) Não estou tomando as
dores de Mirândola. A violência cometida contra a diplomata David
deve ser punida''.
É sempre bom quando alguém se lembra dessas coisas. Mas discordo
do leitor Arnaut num ponto: existe uma enorme curiosidade pública
em torno do possível autor do atentado, e os jornais nada mais fizeram
do que satisfazer essa demanda. Se as fotos eram de caráter privado
e foram recolhidas durante o trabalho policial, o dever de mantê-las
em reserva cabe à autoridade.
Megaerramos
Como eu, o leitor deve ter ficado para lá de surpreso com o erramos
de página inteira publicado domingo passado pela Folha, a
propósito dos muitos problemas e atrasos com a encadernação de fascículos.
Só me cabe dizer que foi a coisa mais certa e digna já feita pelo
jornal, desde que os problemas começaram (e já lá vão mais de seis
meses). Foi a primeira vez que fiquei satisfeito por ver um anúncio
expulsar texto de minha autoria para outra página (a coluna do ombdusman
saiu semana passada na de número 1-12).
Mais ombudsman
Há cerca de um mês, quando falei do restrito clube dos ombudsman
de jornal no Brasil, cometi duas omissões, pelas quais faço penitência
pública: Marcio Calafiori é ombudsman do jornal ``Diário do Povo'',
de Campinas (SP); e Lauro Motta, do ``Rumos'', publicação mensal
de Fortaleza dirigida a padres casados.
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