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São
Paulo, domingo, 15 de outubro de 1995
MARCELO LEITE
Para
um jornal, contar com ombudsman _se for para valer_ pode às vezes
ser constrangedor. Só que não é preciso ter um para dar a cara a
bater, como deixará claro o segundo de dois casos que tenho para
narrar hoje.
Ambos envolvem o caderno para jovens Folhateen, mas isso
é uma simples coincidência. Escolhi-os por serem recentes e genuinamente
exemplares da atitude transparente da Folha. Enganos e falcatruas
podem acontecer com todas as editorias do jornal. Com qualquer jornalista.
Mix indigesto
No dia 7 de agosto, o Folhateen publicou na capa uma de suas
reportagens mais interessantes no ano: ``Quero falar uma coisa:
sou homossexual''. Tratava de uma situação familiar que qualquer
um pode imaginar penosa, para todas as partes, aquela em que os
pais são informados da homossexualidade do filho ou da filha.
Nada de errado com o texto, no geral, que reproduzia trechos de
uma cartilha (``Dá para Entender'') de bom nível. A não ser por
um detalhe (esconderijo predileto dos demônios que acossam jornalistas):
um dos quadros fornecia número de telefone para ``conseguir o guia
(...) com orientações para pais de homossexuais'' (destaque meu).
Quem ligou descobriu que não era bem assim.
A coisa só veio à tona quando a mãe de uma moça que acabara de ``sair
do armário'' _como dizem os americanos_ ligou para o ombudsman,
em 15 de setembro. Ela dizia sentir-se ``terrível'' por ter ligado
para o tal número e recebido, em lugar da cartilha, ``material de
propaganda, uma espécie de guia para homossexuais, muito malfeito''.
A leitora prosseguia: ``O material que eu queria ler (...) vinha
só na última página, marcado `primeiro fascículo'. Fui tratada como
se eu fosse a homossexual''.
A história, muito esquisita, foi narrada à Secretaria de Redação.
O Folhateen apresentou cópia do texto integral da cartilha,
que foi então avaliado pela secretária Eleonora de Lucena, responsável
pela área de Edição na Folha. Lucena considerou-o ``adequado
e politicamente correto''.
Foi a minha primeira impressão, também, mas havia algo intrigante
na história. A descrição da leitora não correspondia à ``cartilha''
apresentada. Fiz então o que todo jornalista deveria fazer, ir aos
fatos: tratei de conseguir, por telefone, um exemplar do material
recomendado.
Não deu outra. Era exatamente o que a leitora tinha descrito. A
publicação enviada se chama ``Guia Mix n. 3'', ``o guia de compras
descolado de São Paulo''. Outros destaques na capa da brochura de
16 páginas: ``Dá para entender? Guia para pais de homossexuais'';
``Roteiros de hotéis GLS (gays, lésbicas e simpatizantes) e de cinemas
de pegação''.
A cartilha só aparecia nas duas últimas páginas (``Parte 1''), mas
quase ilegível, letras brancas pequenas aplicadas sobre fotos digitalizadas.
Com uma providencial linha pontilhada, como se fosse para destacar,
e duas marcas de furos para fichário, para colecionar (a idéia seminal
dos fascículos, como se vê, foi longe).
A conclusão
que enviei à Redação dizia: ``Acho um erro da Mix Brasil enviar
tal material para os pais de homossexuais, mas não é problema meu.
Passa a ser quando o jornal recomenda em suas páginas o telefone
(...). Acho que o jornal foi usado numa transação nitidamente comercial''.
A Secretaria de Redação concordou. Resumo da ópera: está prevista
para sair amanhã, no Folhateen, uma reportagem escancarando
todo o rolo para seus leitores.
Em tempo: na quinta-feira, quando já era conhecido da Redação que
o tema seria abordado nesta coluna, recebi um fax de André Fischer,
diretor da ``organização'' Mix Brasil. Depois de vários auto-elogios,
Fischer conclui sua carta _sem poder saber o que estava por ser
escrito pelo ombudsman_ com uma recomendação:
``Qualquer visão carregada de preconceitos deve ser averiguada com
maior cuidado, para evitar que sejam feitos julgamentos precipitados
sobre um trabalho da maior importância para uma considerável fatia
da população''.
Não reconheço na Mix Brasil autoridade para pontificar sobre cuidados
ou julgamentos precipitados, principalmente depois dos episódios
narrados e do texto presunçoso. E reitero: o problema do ombudsman
não é nem nunca foi com a Mix Brasil, mas com a Folha.
Esta, pelo menos, corrige-se.
Brazuca e fuleiro
O ombudsman não é imprescindível para que um jornal descubra e reconheça
publicamente quando foi enganado. É o que demonstra outro caso do
Folhateen _por incrível que pareça, da mesma data, 7 de agosto_,
na sua contracapa, sobre o ``Van Damme Brazuca''.
Era mesmo para publicar com destaque: ``Estudante brasileiro é campeão
mundial da luta kickboxing, a mesma do game Street Fighter''. Só
que era tudo mentira, como trouxe à luz reportagem no mesmo caderno,
duas semanas depois:
``O estudante Ricardo Holz, 17, de Guarujá (SP), que se apresentava
como campeão mundial da luta marcial kickboxing, disse por telefone
à Agência Folha na semana passada que não conquistou este título.
Com a fraude, Holz tinha conseguido receber pelo menos R$ 3.600,00
de patrocínio''.
O ombudsman só tomou conhecimento do fato quando um leitor escreveu
para reclamar da falta de destaque para a reportagem-revelação (texto
de 22 cm, com uma coluna de largura). Como não tinha reparado na
retificação, inclinei-me pela avaliação do leitor, mas pedi um esclarecimento.
Recebi de Eleonora de Lucena a avaliação de que o destaque fora
considerado adequado. Além do texto mencionado, tinha saído também
uma nota no caderno São Paulo/Cotidiano.
Tomei então conhecimento, pela mesma Secretaria de Redação, de que
vários outros órgãos de imprensa tinham divulgado o ``Van Damme
brazuca'', na Baixada Santista. Entre eles, Rede Globo, SBT, Manchete
e o jornal ``A Tribuna de Santos'' (mas só a Folha tinha
reconhecido publicamente seu erro).
Em outras palavras, o ombudsman foi o último a saber. Neste caso,
trata-se de uma ótima notícia.
2º Fórum Folha
Na condição de coordenador do 2º Fórum Folha de Jornalismo
e Mídia, que se realiza quarta e quinta-feiras no Hotel Transamérica
de São Paulo, vejo-me obrigado a suspender por uma semana o atendimento
telefônico do ombudsman. Até breve.
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