São
Paulo, domingo, 05 de novembro de 1995
MARCELO LEITE
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"Oeste
Notícias" 30/ out/95
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| Diolinda
Alves de Souza é algemada em Presidente Prudente |
O Brasil é um
país mais sério do que Charles de Gaulle poderia imaginar, mas não
deixa de ser engraçado.
Curioso, melhor dizendo. Aqui, pessoas letradas perdem tempo discutindo
quem é o "serial killer" de mais uma novela das oito, mas poucos
se importam com descobrir quem matou quem em Corumbiara ou no Carandiru,
para ficar em dois nomes sonoramente brasileiros.
Repete-se assim, com menos "glamour" e mais cadáveres, o Natal de
1988.
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reprodução
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Há sete anos,
a opinião pública daqui só se preocupava com o assassino de Odete
Roitmann, quando o mundo queria saber quem tinha matado Chico Mendes.
Nesta terra, uma das ocupações preferidas da classe média alta e
dos ricos é falar mal da "elite". Dito de outro modo, daqueles entre
seus pares que não têm consciência social, seja lá o que isso queira
dizer. Nem se dão conta de que todos, juntos, começaram a achar
chique contribuir para a campanha do Betinho, para, logo em seguida,
ainda como rebanho, descartá-la como chatice.
Elite somos todos, inclusive juízes, jornalistas, fazendeiros. Alguns
até criticam a Justiça flagrantemente enviesada que encarcera líderes
dos sem-terra, mas em cada um vegeta a noção ancestral de que é
normal e até compreensível prender essa gente pobre, feia, ameaçadora.
Organizada.
Esta é a terra em que a tortura _como mostrou a revista "Veja" em
excelente reportagem de capa_ e a delação são os principais instrumentos
de investigação policial. E assim vai permanecer enquanto se considerar
normal publicar a imagem de uma moça algemada, que foi presa em
casa e não opôs resistência. Um juiz obscuro decretou, a polícia
truculenta prendeu e humilhou, a imprensa oportunista registrou
e multiplicou.
Entenda bem: não defendo que jornais, revistas e a TV renunciem
a divulgar a imagem. Seria sonegação de informação ao público. A
cena armada pela polícia, abusivamente, tornou-se um fato incontornável
da esfera pública.
A imprensa, porém, não precisa ser um ator inerte nesse drama de
mau gosto. É preciso reagir contra essa e todas as outras violências,
questionar, criticar, inquirir. Não só filmar e fotografar a vítima,
mas perguntar: por que as algemas?
Como já disse aqui, e não me canso de repetir, é nos detalhes que
se esconde o demônio.
Ordem jurídica
O que diferencia a imprensa de outras instituições é que ela, ao
menos parte dela, é mais aberta a críticas e a aperfeiçoar seus
próprios procedimentos. Não por benevolência de proprietários e
editores, mas porque a transparência e a capacidade de aprender
são hoje condições de sobrevivência no mercado.
No dia em que a foto da líder sem-terra algemada aparecia nas capas
de muitos jornais, terça-feira, apontei a falta de questionamento
para essa violência em minha crítica interna da edição. No dia seguinte,
a Folha criticava a prisão e o detalhe das algemas no editorial
"Grande engano", além de trazer na prestigiada seção Tendências/Debates
artigo de Frei Betto e quatro cartas no Painel do Leitor contra
a medida.
Na mesma edição, o jornal trazia uma contundente charge de Angeli
(veja reprodução acima). Na pág. 1-8, uma reportagem descia às minúcias
jurídicas da prisão e mostrava, entre outros detalhes constrangedores,
que o juiz _de apenas 27 anos_ teria confundido artigos do Código
Penal e do Código de Processo Penal.
Na mesma quarta-feira, "O Estado de S.Paulo", concorrente direto
da Folha, criticava em seu primeiro editorial a reação quase
consensual contra a desastrada ordem do juiz. "São poucos os que
se dispõem a sair em defesa da ordem jurídica, frontalmente agredida
pelas invasões", pontificou.
Em outras palavras, os conflitos no campo não são um problema social,
mas _desde sempre_ um caso de polícia.
Milagre inquestionável
Relutei longamente antes de abordar o caso Rede Globo X Igreja Universal
do Reino de Deus. Agora que a poeira baixou, gostaria de apresentar
algumas opiniões sobre essa "guerra ridícula", que de santa nada
teve.
O pastor Sérgio von Helder (ou "Von Helde", como sustenta a revista
"Veja") terminou crucificado por toda a imprensa, sob a batuta da
Globo. A cena que ele protagonizou com a imagem _a imagem, note
bem_ de Nossa Senhora Aparecida era apenas patética, além de canastrona.
Aqueles chutinhos desajeitados com a lateral do sapato e os socos
pouco convincentes despertaram-me somente um constrangimento similar
ao experimentado com cenas dramáticas de novelas mexicanas. Não
se fazem mais iconoclastas como antigamente.
Von Helder foi vítima do seu excesso de literalidade televisiva.
Pela repetição exaustiva, a Globo conseguiu transformar uma performance
pífia em crime de lesa-divindade.
O que não se deve perder de vista, em meio a tanta baboseira e palavras
compungidas de Cid Moreira, é que a primeira pedra partiu da Globo.
E de uma forma melíflua, dissimulada, não-assumida, com a minissérie
"Decadência".
A atitude pusilânime de esconder-se por trás da ficção foi derrubada
por reportagem da Folha, na qual se revelou que falas inteiras
do pastor global tinham sido chupadas de uma entrevista do bispo
universalista Edir Macedo à "Veja". Outro bom momento do jornal
foi o caderno especial "Guerra Santa", uma tentativa esforçada
de lançar mais luz do que calor sobre o debate.
A Igreja Universal só incomoda porque cresce a olhos vistos e porque
se apóia em uma emissora de TV. Não fosse sua capacidade de satisfazer
eficientemente uma demanda ignorada pelo catolicismo balofo, jamais
preocuparia o cardinalato carioca.
O único milagre comprovável de Von Helder e trupe, esses mascates
da fé pós-moderna, foi ressuscitar uma igreja que entrou em coma
profundo depois de debelar o delírio da Teologia da Libertação.
Delação
institucionalizada
Os jornais de São Paulo ainda não deram a devida atenção para outro
fenômeno do Rio de Janeiro, o Disque-Denúncia. Trata-se de um número
de telefone para denúncias anônimas com o objetivo de ajudar o trabalho
da polícia. Dois sequestros, dos muitos em andamento na antiga capital
federal, foram interrompidos graças a esse serviço.
Depois da fracassada militarização da questão criminal, essa iniciativa
conjunta de governo e empresas surge como a nova panacéia contra
o câncer do banditismo. À parte as dúvidas éticas que possam surgir
do recurso massificado à delação, o fato é que o Disque-Denúncia
está recebendo milhares de informações.
Para o mal ou para o bem, foi a solução que a sociedade fluminense
idealizou para a ameaça sempre presente dos morros. Os paulistas,
exilados em condomínios, ainda se acreditam distantes das suas chacinas
regulares e monótonas. Poderão acabar tendo de importar tecnologia
do Rio, por isso é recomendável que seus jornais passem a informar
o que, afinal, está acontecendo por lá.
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