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São
Paulo, domingo, 26 de novembro de 1995
MARCELO
LEITE
A revista "Isto É" está de parabéns pelo furo das fitas do Sivam.
Prestou um serviço ao país, e à própria imprensa. Sua reportagem
de capa obrigou o conjunto dos órgãos de comunicação a se afastar
mais um pouco da ficção de que tudo no governo FHC é charme e modernidade.
Acuado, o sociólogo tornado príncipe mostrou que sabe ser truculento
e arcaico, se necessário.
Fernando Henrique poderia ter saído razoavelmente prestigiado do
episódio, descontados os estragos incontornáveis para sua imagem.
Esta poderia até beneficiar-se da sucessão rápida de duas demissões,
primeiro do chefe do cerimonial do Planalto, Júlio César Gomes dos
Santos, e depois do ministro da Aeronáutica, Mauro Gandra.
Mais que a fragilidade da segurança presidencial, ficaria gravado
nas memórias o gesto enérgico do soberano que não tolera dubiedade
nos subordinados. A única dificuldade seria explicar por que demorou
uma semana para forçar a saída e só o fez quando era iminente a
publicação das conversas.
Não contente em controlar os danos, o presidente decidiu partir
para o ataque. Ao fazê-lo, deixou claro que no momento não só lhe
falta fortuna (sorte) mas também virtude (habilidade) _duas carências
perigosas para governantes, como ensinou Maquiavel. FHC acusou os
críticos da concorrência para o Sistema de Vigilância da Amazônia,
chamando-os de corvos.
E lançou-se a uma arriscada defesa "a priori" do Sivam, talvez para
aplacar o descontentamento da cúpula aeronáutica, mentora do sistema,
que ensaiou reações militares de má memória.
Na sua invectiva, FHC usou em primeiro lugar de truculência. Tentou
calar no berro _comedores de carniça!_ aqueles que se incomodaram
com o mau cheiro proveniente do próprio palácio e começaram a investigá-lo.
Talvez não queira ou não possa apresentar fatos e argumentos contra
a podridão manifesta das conversas de outro embaixador em palácio
(desta vez sem parabólica). Neste caso, deveria ter poupado a opinião
pública da tentativa desastrada de ocultação de cadáver, apesar
da referência encantadora a Edgar Allan Poe.
De moderna, sua atitude em relação à imprensa não tem nada. Essa
alergia ao ar fresco da publicidade é tão antiga quanto o próprio
governo. Para combatê-la, as democracias contemporâneas contam com
o antídoto da liberdade de informação.
Ciúme e dinheiro
Se a imprensa está cumprindo seu papel de investigar, isso não quer
dizer que o faça satisfatoriamente. Depois da bomba da "Isto É",
pouco avançou na apuração do processo que pôs o contrato de US$
1,4 bilhão nas mãos da empresa norte-americana Raytheon.
Não se pode esquecer que o processo de escolha andou envolto em
suspeitas por duas vezes, já. Primeiro, a companhia francesa Thomson
foi acusada de subornar autoridades. Depois foi a vez da brasileira
Esca, afastada do gerenciamento do sistema por fraudes contra a
Previdência Social.
É tido como certo que a espionagem industrial come solta. Afinal,
o negócio é apontado como o segundo maior contrato em andamento
no mundo e já mobilizou até o presidente norte-americano, Bill Clinton.
Apesar disso, tudo que jornalistas brasileiros conseguiram levantar,
uma semana depois da divulgação das conversas, foi uma intriga palaciana:
a escuta telefônica teria sido encomendada e/ou vazada no interesse
de Chico Graziano, o recém-indicado presidente do Incra, antes secretário
particular de FHC. A hipótese foi reforçada com a revelação, quinta-feira,
de que o presidente recebeu de Graziano, no dia 9, a primeira transcrição
das gravações.
Nesse enredo, Graziano e o embaixador arapongado seriam antigos
desafetos, desde a campanha eleitoral.
Suposto motivo da disputa: controle sobre a agenda do candidato
e depois presidente.
Pode até ser, mas é difícil de aceitar que essa fogueirinha de vaidades
tenha detonado o petardo nuclear da semana passada. Não com tanto
dinheiro em jogo. Pior, o tititi interminável sobre quem grampeou,
quem não grampeou, acaba por tirar a atenção do que mais interessa
_o conteúdo grampeado.
Brincadeiras à parte
A figura central que emerge das ligações perigosas de Júlio César
Gomes dos Santos é o senador Gilberto Miranda (PMDB-AM). A pergunta
sobre a possibilidade de suborná-lo pode até ter sido jocosa, como
aventou o embaixador em sua empolada defesa (cuja íntegra foi publicada
pela Folha na quarta-feira), mas a própria brincadeira demonstra
que homens públicos brasileiros consideram normal a referência às
propinas _desde que não estejam gravando, claro. Gilberto Miranda,
relator do caso Sivam, propôs esta semana que o Senado não aprove
os financiamentos do Sivam. O Planalto se apressou em alardear estranhamento
com a suposta mudança de posição do senador.
Este respondeu exibindo uma carta de julho ao presidente, de mesmo
teor. Miranda resolveu também propagandear as virtudes de sistemas
concorrentes (WAAS e OTH), que teria conhecido em viagem à Europa
e à Rússia custeada por ele próprio, afirma _uma desconcertante
demonstração de patriotismo, sem dúvida. A Secretaria de Assuntos
Estratégicos negou que os sistemas representem uma alternativa tecnológica
real.
Além do leva-e-traz, os jornais trataram do senador com alusões
a seu enriquecimento rápido na Zona Franca de Manaus. Mesmo assim,
em tom de folclore, como fazem sempre quando entra em cena o senador
Eduardo Suplicy (PT-SP).
Outra grande ausente do noticiário é a empresa Thomson, desbancada
pela Raytheon. Salvo engano, a Folha foi o único jornal a
procurá-la, tendo publicado na sexta-feira que a empresa não só
se recusa a pronunciar-se sobre o tema como ainda ameaça processar
quem vinculá-la ao episódio da revelação do grampo.
Em resumo, a história do grampo do Sivam está muito mal contada.
Pelo governo, antes de mais nada, mas também pela imprensa. Neste
caso, parece ser menos uma questão de princípios do que de competência,
mesmo.
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