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São
Paulo, domingo, 10 de dezembro de 1995
MARCELO LEITE
O mais novo escândalo a sacudir Brasília, o da famosa ''pasta cor-de-rosa'',
foi de novo obra da ''IstoÉ''.
Depois de revelar o grampo no embaixador falante, a revista mostrou
com a reportagem de Sônia Filgueiras que está mesmo disposta a incomodar
a concorrente ''Veja''. Não só a poder de fascículos, mas no campo
em que a adversária sempre brilhou: jornalismo.
A pasta que o interventor do Banco Central no Banco Econômico teria
encontrado, com listas de doações de banqueiros a parlamentares
na eleição de 1990, nem de longe tem a importância das conversas
grampeadas.
Mas o caso veio à tona no ambiente escandalosamente aquecido do
Sivam, a mais malcontada história dos últimos tempos, desde a Operação
Uruguai.
Nessa
atmosfera de confusão, contradições e evasivas, abre-se terreno
fértil para as ervas daninhas da vida política: especulação, fofoca,
anonimato. É mais do que tempo de pôr um ponto final nesse leva-e-traz
sórdido, objeto de conversinhas excitadas entre jornalistas supostamente
bem-informados, mas que até o momento não tiveram a competência
de explicar a seus leitores o que está acontecendo.
Não vou prolongar o tema, entre outros motivos porque ao menos um
leitor já reclamou que o ombudsman estaria atuando como comentarista
político (contra FHC). Não se trata de fazer oposição, mas de apontar
a insuficiência gritante dos esclarecimentos do Planalto para o
caso Sivam-grampo, o escândalo que se recusa a morrer e rebrota
a todo instante, asqueroso, como o Alien combatido por Sigourney
''Ripley'' Weaver.
Gripe
Qualquer pessoa com o mínimo de sentido cívico adoraria ver o episódio
morto e enterrado. Aí, quem sabe, seriam todos poupados de notícias
constrangedoras como a seguinte declaração de um presidente da República,
sobre a maior crise de seu governo: ''Suspeita de quê? Está com
gripe? Deu gripe no Sivam? Tem de dizer objetivamente qual é a questão''.
Ou então de descobrir, graças ao muito objetivo relatório do Tribunal
de Contas da União (TCU) revelado sexta-feira pela Folha,
uma lista acabrunhante de promiscuidades (veja quadro reproduzido
acima) entre a Aeronáutica e a empresa-afilhada Esca. Aquela mesma
que foi desembarcada do Sivam por sonegação.
Se o poder público não se mostra capaz de dar satisfações à opinião
pública, cabe à imprensa ir buscá-las. A Folha, por exemplo,
poderia retomar a publicação dos famosos quadros ''perguntas sem
resposta'', fruto de uma atitude inquisitiva que tanto contribuiu
para fazer avançar a apuração de escândalos como o Collorgate e
o do Orçamento. É o que os leitores esperam dela.
Conversa de jornalista
''O Estado de S.Paulo'' publicou na última quarta-feira a íntegra
de 8 das 13 conversas do embaixador Júlio César Gomes dos Santos
grampeadas pela Polícia Federal. A leitura das duas páginas de texto,
embora sem surpresas, deixou uma pulga atrás da orelha.
O fato é que elas não coincidem totalmente com o que vinha sendo
publicado em jornais e revistas, nas últimas semanas. Não mudam
as linhas gerais de comprometimento do embaixador e outros frequentadores
do Planalto, mas as palavras usadas. Se há mais de uma versão da
transcrição circulando, torna-se legítimo perguntar pela veracidade
delas _e por sua origem, claro.
No caso, note, trata-se de gravações. Muito pior é a reconstituição
supostamente literal de conversas reservadas entre duas ou três
pessoas, uma especialidade da ''Veja'' que a ''IstoÉ'' vem tentando
imitar. Como aquela que teria reunido o presidente Fernando Henrique
Cardoso e o embaixador em vias de ser defenestrado, em 14 de novembro.
O leitor Antonio Seara deu-se ao trabalho de reproduzir e cotejar,
em carta ao ombudsman, as duas versões publicadas pela ''Veja''
(29/11) e ''IstoÉ'' (22/11). São ridiculamente discrepantes, mas
ambas abusam dos travessões, como se os diálogos fossem reprodução
fiel da realidade.
Acredite se quiser.
Notas
Quando
já parecia certo que o projeto de Lei de Imprensa em tramitação
na Câmara dos Deputados consagraria o fim das penas de prisão para
delitos de opinião, volta-se à estaca zero. A Comissão de Ciência
e Tecnologia aprovou o substitutivo de Pinheiro Landim (PMDB-CE),
mas alterou sua proposta de multas e penas alternativas (como prestação
de serviços).
O editor-chefe do ''Correio Popular'', de Campinas, se queixa de
que a Folha não deu crédito ao jornal no noticiário sobre
o cancelamento do vestibular da Unicamp, que teria sido provocado
pelo diário campineiro:
''Não foi um furo jornalístico, tão-somente. O jornal descobriu
a falha e fez a denúncia. A Universidade foi comunicada com antecedência,
para que pudesse comentar o fato ou tomar alguma atitude''.
Em alguns rincões do Brasil, continua valendo a regra do ''nada
se cria, tudo se copia''. A revista ''Superinteressante'' detectou
um plágio evidente da reportagem de capa de sua edição de novembro,
realizado por ''O Jornal'', de Alagoas. Até ilustrações e legendas
sobre Zumbi foram ''chupadas''. O texto, ligeiramente alterado,
como um ginasiano faria com a Barsa. É de chorar.
Devo uma retificação a Lauro Motta, ombudsman do jornal ''Rumos''.
Em 8 de outubro, quis remediar a omissão de seu nome em coluna anterior,
mas acabei cometendo dois equívocos. Nas suas palavras: ''Rumos
não é uma publicação dirigida a padres casados. É dirigida por eles
mas destina-se a todo mundo... E não é uma publicação mensal de
Fortaleza. É de Brasília. Em Fortaleza reside o ombudsman, que envia
suas críticas ao Conselho Editorial, que se reúne em Brasília''.
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