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São
Paulo, domingo, 17 de dezembro de 1995
MARCELO LEITE
Trabalhar
cansa, dizia um poeta italiano que li pouco, e mal, por sugestão
de um grande amigo. O pior não é o cansaço físico, mas a fadiga
moral que poreja com a repetição de uma tarefa, subitamente esvaziada
de todo sentido. Trabalho de Sísifo, no singular, não proezas hercúleas
e libertadoras.
Permita o leitor este pecadilho jornalístico, o do nariz-de-cera
(introdução que não introduz, mas rodeia o tema). Foi preciso cometê-lo
para transmitir de uma vez o abatimento provocado pela leitura das
reportagens de quinta-feira sobre os casos Vera Fischer e Politécnica.
É duro de aceitar que jornais possam descer tão baixo.
A imprensa brasileira é ruim. Péssima. Não tanto quanto há 10 ou
20 anos, mas ainda se permite momentos de intensa baixaria. Jornalistas
desconhecem regras elementares de respeito. De outro modo, como
explicar que publiquem, com evidente intenção jocosa, uma enxurrada
de preconceitos sobre a atriz e sua ex-empregada, como fez a Folha
há três dias?
Tiroteio
A ''repercussão'' saiu na pág. 3-6 da edição São Paulo/DF, sob a
rubrica ''Tiroteio''. Omito os nomes, que foram no entanto publicados
pelo jornal, porque nada tenho contra essas pessoas escolhidas a
esmo, só contra suas palavras impressas:
''Ela é a maior canalha. Se estava insatisfeita com a empregada,
deveria mandá-la embora, mas nunca agredir. O problema é que ela
morre de ciúme do marido, está desequilibrada e descontou na empregada''
(A.C.G., 38, etc.).
''Tinha de apanhar mesmo, faltou dois dias ao trabalho e não disse
nada. Empregada é assim, só eu sei o que já sofri. A Vera Fischer
estava certa, chamou a babá para conversar no quarto e só se defendeu''
(H.N., 36, etc.).
O título principal daquela página dava uma idéia da situação da
família, ou do que dela sobrou: ''Ela deve estar maluca, diz ex-marido''.
Na Primeira Página, título mais discreto informava: ''Felipe
rebate acusação de Vera Fischer''.
Mãos de tesoura
Na crítica interna da edição de quinta, documento que circula no
início da tarde para todos os jornalistas da Folha, protestei
também contra a publicação e o modo como foi editada carta-trocadilho
do leitor Paulo Azevedo: ''Do jeito que vão as coisas, a Vera Fischer
acabará sendo conhecida como Fera Fischer''. No alto da segunda
coluna do Painel do Leitor, trazia o título ''Garras'' e uma charge
de Adolar em que a atriz empunha uma tesoura.
Na pág. 6 (Opinião) do jornal fluminense ''O Globo'', Vera Fischer
foi caracterizada em desenho de Aroeira como o Edward Mãos-de-Tesoura
do cinema (a mesma e infeliz associação usada pela revista ''IstoÉ''
de anteontem). Mais adiante, o diário informava, com um pouco mais
de detalhes do que a Folha, que outro ex-marido de Vera,
Perry Salles, se abalara de Salvador para ajudar a mãe de sua filha
de 16 anos.
O ''Jornal do Brasil'', também do Rio, conseguiu muito mais detalhes
sobre o caos na vida e na casa da atriz.
Detalhes demais. Cheguei a elogiar a reportagem, na crítica interna,
mas um pouco mais de reflexão mostrou que se tratava do mesmo tipo
de invasão abusiva, ainda que com o sinal trocado (pieguice em lugar
da ridicularização punitiva).
Voyeurismo
A chamada de capa ''Vera Fischer precisa de ajuda'', no ''JB'',
começava com uma descrição constrangedora:
''Na mansão da rua Iposeira, no Joá, o clima é de fim de festa.
Desde a comemoração do aniversário de 44 anos de Vera Fischer, há
15 dias, a casa não foi arrumada. As flores estão murchas nos vasos.
No banheiro, permanece o pedido para que os convidados mantenham
a limpeza''. E por aí vai.
O voyeurismo do público não tem limites. Mas deve haver algum para
a disposição da imprensa em satisfazê-lo. Caso contrário, é melhor
fazer logo mais uma emenda constitucional (são tantas...) para eliminar
o direito fundamental à intimidade e à vida privada (artigo 5º,
inciso X).
O ''Novo Manual da Redação'' da Folha faz uma clara opção
pelo direito à informação, quando em conflito com o direito à privacidade,
mas com uma ressalva que poucos jornalistas levam em consideração:
''Em princípio, o direito à informação deve prevalecer sempre que
se tratar de assunto relevante e em especial quando envolver personagens
públicas'' (pág. 41; no parágrafo anterior, as ''personagens públicas''
são identificadas como governantes, cujas decisões ''são pautadas
em parte por características de personalidade e elas afetam a vida
de todos os seus governados'').
Nada há de relevante para a vida pública nos desatinos de Vera Fischer.
Mas jornais ditos de prestígio como a Folha e seus concorrentes,
por omissão ou vontade própria, preferem colocar-se à margem de
prescrições éticas tão simples e evidentes quanto esta, da Sociedade
de Jornalistas Profissionais dos EUA: ''Os meios de comunicação
não devem alimentar a curiosidade mórbida sobre detalhes do vício
e do crime''.
Carniça
Talvez inspirado por Fernando Henrique Cardoso e seus corvos-urubu,
o pai do rapaz Christian Hartmann _estudante que matou a tiros na
Escola Politécnica da USP a colega Renata Cristina Francisco Alves,
matando-se em seguida_ soltou o verbo e os cachorros sobre a imprensa:
''Uma coisa é informar. Outra é pular em cima da carniça''.
Ele se referia às especulações sobre a sanidade do filho que matou
e morreu, as quais assumiam proporções de um inquérito. Entre outras
pessoas, as suspeitas tinham sido lançadas pela mãe da moça morta.
Um dos textos da pág. 3-4 apresentava relato de outro ex-namorado
em que Renata era sutilmente descrita como leviana.
A Folha acreditou talvez estar cumprindo à risca seu ''Manual''
ao encher o texto de aspas _''normal'', ''maluco'', ''estranho'',
''indícios''_, como se objetividade fosse um atributo mágico de
sinais gráficos. Na crítica interna, anotei:
''É um amontoado de fuxicos e acusações impensadamente lançadas
por pessoas dilaceradas, que estão tentando entender a tragédia,
algo por definição impossível. (...) Quem é o sr. Alex Orágio para
pontificar sobre a conduta de Renata Alves, que está morta? (...)
Se a Folha critica a polícia por lançar suspeitas sobre vítimas
de estupro, não deveria seguir por trilha tão próxima''.
A imprensa brasileira é ruim porque quer. Essa atração tão resistível
pelo mórbido é o mais facilmente superável de seus defeitos. Basta
não perder de vista que as personagens de notícias, antes de personagens,
são pessoas.
Respeitá-las não é frescura dos politicamente corretos, mas imperativo
constitucional, da ética jornalística e do ''Novo Manual da Redação''.
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