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São
Paulo, domingo, 7 de janeiro de
1996
MARCELO LEITE
Daria
uma boiada para ficar longe dessa guerra ridícula, Globo X Universal,
mas é notícia. E a poeira só aumenta, não assenta. Clareza e objetividade
foram para o espaço.
Causa espanto a quantidade de paixão _precisamente: ódio_ desencadeada
pela seita do bispo Edir Macedo. Nessa atmosfera, torna-se difícil
manter o equilíbrio jornalístico. Justamente quando ele é mais importante.
A Folha, entre os grandes jornais, é o que tem mantido a
postura mais razoável com relação à Igreja Universal do Reino de
Deus. Critica, até com veemência, os métodos de seus pastores para
angariar fundos, como fez mais de uma vez em editoriais. Visivelmente,
porém, procura manter seu noticiário distante da campanha sistemática
contra a instituição. Esta atitude tem sido mal interpretada por
alguns leitores.
Um deles ligou para o ombudsman, na quinta-feira, para cobrar uma
posição do jornal. Argumentou que a Folha deveria adotar
contra Macedo a mesma atitude que tinha contra Fernando Collor na
época do impeachment. Outros, em telefonemas e cartas das últimas
semanas, diziam-se estarrecidos com aspectos ''nazistas'' da igreja
e que a imprensa não pode omitir-se no combate a esse ''câncer''.
Outro, ainda, alertava para o risco de o jornal vir a ser usado
pela Universal em sua defesa, prejudicando a própria credibilidade.
Macedo por certo não é santo, mas também não é o diabo, nem Collor,
nem Hitler. Como qualquer personalidade pública, deve ser investigado
pela imprensa, mas com isenção e baseada em fatos.
Quais fatos o esforço de reportagem da Rede Globo e de coadjuvantes
como a revista ''IstoÉ'' conseguiu produzir até agora? Duas fitas
de vídeo teologicamente devastadoras, mesmo para a mais reengenheirada
seita cristã, mas extremamente precárias como evidências ou indícios
de delitos que estariam sendo cometidos, segundo os acusadores de
plantão.
Chutes
Ninguém se lembra mais da primeira fita, a do ''chute na (imagem
da) santa''. Na época, também se falou muito em crime, com autoridades
citando até o diploma legal que permitiria o indiciamento do bispo
Von Helder. Onde está o inquérito? Que consequências teve? Desconfio
de que a segunda fita _a dos dólares, da pegação em Jerusalém e
do suposto caixa dois do deputado_ terá o mesmo destino. Muito barulho
por nada.
Outra coisa, bem diversa, é a devassa fiscal que a Receita Federal
se dispõe a fazer contra a Universal e seus pastores. Espero que
os diligentes fiscais tenham evidências mais concretas de delitos
e irregularidades do que a própria fita. Caso contrário, a tentativa
de enquadrar Macedo e seus gerentes pastorais se aproximará perigosamente
de uma perseguição. Religiosa e, o que é pior, com apoio evidente
de parte da imprensa.
Não é fácil investigar uma instituição fechada e monolítica como
uma igreja. Neste ponto, a Folha também tem falhado. Teve
mais sucesso em obter informações que podem ser lidas como favoráveis
à Universal, a exemplo da reportagem mostrando que a minúscula igreja
do pastor Carlos Magno, dissidente e denunciante, em Recife, não
difere tanto assim daquela que o afastou (do púlpito e dos dólares).
Se conseguir um belo furo contra a Universal, a Folha dará uma prova
irretorquível de sua isenção.
Isenção de impostos
Uma das acusações contra a Universal é que ela estaria fazendo mau
uso da isenção de impostos garantida às igrejas pela Constituição
de 1988. Acho difícil que se venha a estabelecer o que seja um mau
e um bom uso dessa regalia, sem cair em contradição com a igualmente
constitucional liberdade religiosa, mas vá lá.
O problema é que a imprensa tem a boca torta para falar dessa questão,
porque pita no mesmo cachimbo. O artigo 150 da Constituição isenta
não só os templos, mas também partidos, sindicatos, escolas, entidades
de assistência social, livros, jornais e o papel em que são impressos.
Está em tramitação no Congresso uma proposta de emenda constitucional,
do deputado Eduardo Jorge (PT-SP), que acaba com o privilégio.
Não será coincidência se o leitor jamais tiver visto menção à proposta
na imprensa. Silenciando em causa própria, esta deixa de suscitar
um debate importante sobre as múltiplas isenções. A maioria dos
cidadãos as desconhece, ainda que indiretamente subsidie atividades
com as quais pode não concordar. (Não são poucas as pessoas surpreendidas
com a informação de que Universal e seus pastores não pagam impostos,
mas não é a única igreja a deixar de fazê-lo.)
Quanto ao papel de imprensa, minha posição de princípio é contrária
à isenção. O principal argumento a seu favor é que a taxação sujeitaria
uma instituição que deve ser livre à discrição do governante, que
a qualquer momento poderia tentar puni-la elevando alíquotas.
Em primeiro lugar, parece pouco provável que qualquer governante
se arrisque a afrontar uma imprensa tão independente quanto a brasileira,
hoje. E sempre há o recurso à regulamentação: criar na própria lei
mecanismos que impeçam a discriminação do setor. Em outras palavras,
o governo poderia ser proibido de criar, para a imprensa, alíquotas
diferenciadas dos ramos x, y ou z.
A imprensa de hoje não é só uma instituição imprescindível da ordem
democrática, mas uma atividade lucrativa. Mais do que nunca, merece
a designação algo paradoxal de indústria cultural. Deveria também
ser alcançada pela desregulamentação neoliberal que prega com tanto
afinco.
Não seria prudente, no entanto, tomar uma decisão dessas na presente
conjuntura. O papel vem subindo há mais de dois anos no mercado
internacional, originando uma pressão econômica extra sobre o ramo
de atividade, além das agruras normais de qualquer empresa brasileira.
Uma terceira pedra no sapato poderia provocar tropeços fatais em
muitos órgãos.
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