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São
Paulo, domingo, 04 de fevereiro de
1996
MARCELO LEITE
Se alguém ainda alimentava dúvida sobre a importância do tratamento
correto dos números em jornalismo, a divulgação desastrada da mudança
da banda cambial pela Rede Globo demonstrou que não se trata de
brincadeira.
Apresentada como desvalorização do real, a notícia disparou como
um buscapé. Antes que o Banco Central pudesse explicar que macaco
não é elefante, a faísca da desconfiança alcançava o Mercado Global
_essa abstração capaz de atirar países inteiros na lata do lixo
da história_ e os títulos da dívida brasileira chegaram a ensaiar
uma queda em Tóquio.
O equívoco logo se desfez e não houve consequências mais sérias.
Esse é um caso extremo e raro. Dificilmente a imperícia no trato
com cifras tem consequências tão imediatas e perceptíveis. É mais
comum o jornalismo com números apresentar-se como Babel, não como
Sodoma e Gomorra. O que deveria ser o domínio da clareza e da distinção
termina como território da confusão e do diálogo de surdos.
Semana passada foi abordado aqui o problema quantitativo do desemprego.
No plano da retórica, todos concordam em que é preciso fazer algo
para combater a doença, mas não há acordo sobre o diagnóstico: febre,
septicemia, câncer, epidemia?
Se a negociação em esboço não se fundar sobre o bom alicerce da
crítica, corre o risco de começar e terminar como a campanha contra
a fome: com uma cifra tão frágil quanto grandiloquente, e esquecida
pelo Brasil que manda e lê jornais.
Desencargo de consciência
Um tema correlato ao do desemprego é o dos encargos que pesam sobre
os salários. É o principal alvo na alça de mira apelidada Custo
Brasil. A perplexidade sindical é o maior aliado de um governo eleito
com o claro propósito de desmontar o Estado-empresário, para melhor
submeter a sociedade à lógica empresarial da eficiência.
Nesse ambiente em que interesses corporativos se tornaram anátema,
jornalistas ajudaram a popularizar um número-argumento tido como
definitivo: no Brasil, os encargos sobre os salários representariam
um ônus de 102% para o empregador.
Sem as necessárias explicações adicionais, disseminou-se a certeza
de que um posto de trabalho com salário de R$ 100, por exemplo,
custaria à empresa R$ 202.
Na última quarta-feira, um artigo do economista Demian Fiocca na
pág. 2-2 da Folha demonstrou que o peso não tem esse tamanho
(veja reprodução do quadro publicado com o artigo): o desembolso
na realidade seria de R$ 146. Pode ainda ser muito, exorbitante,
mas as contas apresentadas diminuem consideravelmente a margem comprimível
das boas intenções político-econômicas. Nas palavras do articulista:
"Os encargos passíveis de redução que não significam perda direta
para o trabalhador são a Previdência e as contribuições menores,
de saúde, Sebrae etc. O restante, cedo ou tarde, ele leva para casa
em dinheiro."
Dito de outro modo, quem defende redução dos encargos sociais _aí
incluídas as centrais sindicais_ precisa deixar claro a que pedaço
da folha de salários se refere. Conforme a opção, estará defendendo
também um corte na remuneração do assalariado. Não será a primeira
vez que essa idéia aparece como a salvação da lavoura brasileira.
Publicar notícias econômicas, qualquer jornal consegue. Com um pouco
mais de empenho do que vem empregando a Folha, pode até dar
grandes furos.
Um jornal não estará porém cumprindo com sua função didática se
não publicar mais textos capazes de desmontar as armadilhas conceituais
e ideológicas camufladas sob os números pelas partes interessadas
(não são só governo e empresariado que manipulam dados).
Mais ainda: esse trabalho crítico e investigativo tem de começar
pela base, já na reportagem. A paisagem do jornalismo diário brasileiro
sugere no entanto que essa função nobre vem sendo delegada pelas
redações a colunistas e colaboradores.
Questão de vírgulas
Jornalistas costumam achar que detalhes não têm importância e não
dão a devida atenção a coisas como zeros e vírgulas. A falta deste
sinalzinho certamente prejudicou a deputada federal Vanessa Felipe
(PSDB-RJ), mas não deve ter tirado o sono do redator que a pôs no
lugar errado.
No excelente caderno especial "Olho no Congresso" de 14 de janeiro,
o demo escolheu o rodapé da pág. 22 para se esconder.
Na coluna correspondente às faltas justificadas da deputada fluminense
de 23 anos, aparecia o número 61. Ou seja, ela teria deixado de
comparecer a 61% das sessões deliberativas da Câmara, uma quantidade
exagerada para se justificar com motivos como viagem ou representação
oficial e tratamento de saúde.
O correto era 6,1%, dez vezes menos. O jornal publicou a retificação
sete dias depois, em 21 de janeiro, na seção Erramos. Era o mínimo
que podia fazer.
Neste caso, ocorreu um erro de digitação no meio de uma tabela imensa,
que não sofreu outras contestações do gênero. Pior é quando o erro
é conceitualmente identificável, mas o jornalista deixa passar e
ainda resiste a admitir a falha, atrasando em meses seu reconhecimento.
Uma outra vírgula foi deslocada na coluna Adrenalina publicada na
Revista da Folha de 13 de agosto de 1995. Estava escrito ali que
"os 20% mais pobres ficam com apenas 21% desse bolo" (a riqueza
gerada no Brasil).
O erro era evidente _a parcela apropriada não poderia ser maior
que a dos apropriadores, se era de pobres que se falava_ e foi apontado
pelo leitor Pedro Ney S. Pereira em carta ao ombudsman datada de
20 de outubro. Foi pedida só em 6 de novembro uma verificação à
Secretaria de Redação, como de hábito (a demora decorreu do envolvimento
do ombudsman com a realização do 2º Fórum Folha de Jornalismo
e Mídia). A primeira resposta recebida dizia que os dados tinham
sido publicados pela própria Folha.
Depois de muitas idas e vindas, identifiquei _com efeito, a partir
das reportagens do jornal_ qual tinha sido o erro: a cifra correta
era 2,1% do bolo, não 21%.
A descoberta foi comunicada à Secretaria de Redação em 7 de dezembro.
O caso passeou mais um pouco pelos corredores do jornal e, com nova
cobrança do ombudsman no último dia 12, o encalacrado erramos acabou
saindo seis dias depois.
Veja o trabalho que uma simples vírgula e o descaso com a exatidão
podem provocar.
Pedido de desculpas
Aos leitores que enfrentaram dificuldades para fazer contato com
o ombudsman, na semana que passou, minhas desculpas. A bruxa andou
solta entre aparelhos eletrônicos (computador e secretária eletrônica),
quase paralisando o atendimento. Agora, tudo parece estar normalizado.
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