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São
Paulo, domingo, 18 de fevereiro de
1996
MARCELO LEITE
O debate
que alcançou seu auge no bate-boca entre sindicalistas e deputados
teve agora um merecido anticlímax com a confusão do Instituto de
Previdência dos Congressistas, o IPC de triste fama. É o Judas da
vez, no país que não consegue passar uma semana sem novo bode expiatório
ou bezerro de ouro. Na imprensa, deu ensejo a três tipos contrastantes
de reação.
Bananada
A mais vistosa e fácil é o ressentimento moralista, que vê nos ''políticos''
o mal maior do Brasil, se não o único. (Como se Fernando Henrique
Cardoso, entronizado por boa parte da chamada ''mídia'' como o salvador
da pátria, não fosse também ele um político.)
Essa incontida indignação com os privilégios previdenciários dos
parlamentares encontrou sua melhor expressão no gesto furibundo
de Boris Casoy na terça-feira. Ele encheu o vídeo com o antebraço
em riste, numa desmesurada banana.
É o emblema rematado do estágio a que chegou o debate público no
país: pré-verbal.
A lista de Gibson
Mais sóbria foi a Folha. Na quinta-feira o jornal acordou
para o potencial de indignação representado pela manutenção do ''status
quo'' no Congresso. Saiu-se com seu tipo preferido de banana, mais
''light'' que a do âncora do ''TJ Brasil'': uma lista.
Cerca de um terço da pág. 1-4 daquele dia foi ocupado por quadro
com 224 nomes de deputados federais e seus números de telefone.
Todos aqueles que a Folha conseguiu identificar entre os 240 que
endossaram proposta de Nilson Gibson (PSB-PE) para votar o item
do IPC em separado e, claro, mantê-lo de pé. Duas páginas antes,
um editorial trazia título embananado, para dizer o menos: ''*&@$#...!''
Na crítica interna da edição, dirigida pelo ombudsman a todos os
jornalistas da casa no começo da tarde, elogiei a publicação da
lista. É uma marca registrada da Folha, e muito temida. Ainda
mais em ano de eleição e com dezenas de deputados candidatando-se
a prefeito.
Logo começaram a chegar os fax de parlamentares dizendo que não
era bem isso, que só tinham apoiado a tramitação, não o conteúdo
da proposta Gibson... Um belo espetáculo democrático, deputados
apresentando satisfações a seus eleitores.
Peta
Não causou surpresa, assim, o telefonema do leitor Henrique Levy
na mesma quinta-feira, ''para elogiar'' a reportagem sobe o IPC.
Concordei de pronto, mas era só uma peta do pernambucano Levy. O
texto que ele queria elogiar tinha saído em outro jornal (''Gazeta
Mercantil''), e no dia anterior.
Sob o título despretensioso ''Congresso resiste ao fim do IPC'',
Eliane Cantanhêde garimpou no próprio IPC alguns dados e fatos reveladores:
* ''Em todos os países considerados democráticos os parlamentares
têm direito a algum tipo de aposentadoria pelo exercício legislativo'';
* ''Para os parlamentares franceses e norte-americanos (...), a
exigência para aposentadoria é de apenas cinco anos de mandato e
idade de 55 anos'';
* ''Em alguns desses países, o Estado simplesmente banca todo o
pagamento dos respectivos institutos dos congressistas''.
É claro que é preciso verificar e pôr sob perspectiva essas informações,
uma vez que o IPC pode tê-las enviesado. De qualquer modo, o instituto
era o outro lado a ser ouvido. Não para gravar uma ou duas declarações,
mas para que interessados apresentassem a sua versão dos fatos.
Nesta altura, contudo, o conceito dos deputados já valia menos do
que banana em fim de feira.
Para concluir: a receita que gostaria de ver o jornal servindo a
seus leitores combinaria a indignação de Casoy sublimada num editorial
vigoroso com a disposição da Folha de pôr parlamentares ao
alcance de seus eleitores e a capacidade da ''Gazeta'' de apresentar
informações que façam o debate avançar. Nesta receita não vai banana.
Cria fama...(2)
Na sua coluna de terça-feira passada, Gilberto Dimenstein fez um
terceiro ataque ao ombudsman. Prometeu encerrar de sua parte ''o
debate que, a rigor, não começou''. Ótimo. Se (não) começou, foi
por sua iniciativa. É justo que assim termine: sem lógica alguma.
Não há mesmo sentido em prosseguir com uma não-polêmica que teve
o único objetivo de lançar suspeitas indeterminadas, pelas quais
o autor pensou que não teria de responsabilizar-se, recorrendo ao
artifício surrado e primitivo de omitir o nome de quem atacou.
Descaso
Se o leitor for fã de histórias em quadrinhos, esta deve ser a quarta
vez que se depara com a tira logo abaixo, na Folha. Na pág.
5-2 da Ilustrada, onde só deveria ter saído uma vez, apareceu em
três oportunidades (a última no dia 8).
Não dá para entender por que o jornal mantém os quadrinhos, se não
consegue tratá-los com a responsabilidade devida aos leitores que
os apreciam. Poderia começar, talvez, por reconhecer o erro, mas
nem isso. O mais recente pedido de retificação na seção Erramos
foi recusado pela Secretaria de Redação, que considera ser o caso
apenas de providências internas.
Que venham, então, e sejam eficientes.
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