|


O que é o cargo
Fale com a
Ombudsman
Mural
Colunas
Anteriores
FiloFolha
Dúvidas mais
Frequentes
Bate-papo
|
 |
| Globalização
e qualidade |
 |
|
São
Paulo, domingo, 03 de março de
1996
MARCELO LEITE
A Folha lança mais uma edição histórica: a tiragem é enorme,
a cor é total e o fascículo é bonito. Com a entrada em operação
do Centro Tecnológico Gráfico-Folha, o jornal reage às incertezas
do ramo em todo o mundo com coragem. Resta saber se esse investimento
de US$ 120 milhões será suficiente para fazer dele não só o maior,
mas o melhor do país.
Sem querer dar uma de desmancha-prazeres, chamo a atenção do leitor
para o contraste entre esse show industrial e o débil desempenho
jornalístico da Folha na semana. O sistema financeiro estremeceu
na base com as revelações da revista ''Veja'' sobre fraudes no Banco
Nacional, mas só anteontem o jornal conseguiu produzir manchete
com um mínimo de vibração: ''Planalto abafa CPI dos bancos''. Furo,
nenhum.
Poderia ser só coincidência. Ocorre que o retrospecto dos últimos
meses não é favorável à Folha. Quem lê regularmente esta
coluna sabe que, na minha avaliação, o conflito entre qualidade
editorial e desempenho comercial vem se resolvendo em favor deste.
Nisso, não há inovação: pelo mundo todo jornais reagem aos tempos
bicudos cortando mão-de-obra, matéria-prima da investigação, e papel
(espaço para reportagens). Este insumo teve _no caso da Folha_
uma alta de 136% reais em 18 meses (de julho de 1994 a dezembro
de 1995). É cavalar.
Nos Estados Unidos, não se fala em outra coisa. Uma prestigiada
publicação acadêmica sobre jornalismo, ''Nieman Reports'', da Universidade
Harvard, dedica seu próximo número ao tema. O alvo é a tentativa
meio kamikaze de manter as margens de lucro tradicionalmente superiores
à média americana.
Esta coluna teve acesso aos dois artigos principais da ''Nieman
Reports'', que só circulará no próximo domingo. Para seus autores,
John Morton e Alex S. Jones, publishers e diretores estão ''comendo
as sementes'' com a política do arrocho a qualquer preço, alienando
seu futuro.
Cegueira
Jones afirma, na ''Nieman Reports'', que ''os líderes industriais
parecem terrivelmente cegos para o fato de que uma cobertura noticiosa
extensa e incrementada é a única coisa capaz de assegurar a sobrevivência
a longo prazo''.
Seu raciocínio é mercadológico: os cortes radicais desaparelham
o jornal para a concorrência futura. Não importa se esta virá de
serviços informativos na Internet, novas formas de TV ou outros
jornais dispostos a conviver com menores margens de lucro. Se conseguir
manter-se como a mais confiável fonte de informação da praça, em
qualquer suporte, o jornal não terá o que temer. Leitores e anunciantes
são duas espécies para lá de conservadoras.
Embora pareça a saída mais racional à primeira vista, cortes não
são necessariamente a coisa mais esperta, alerta Morton. Espertos
foram Michael Bloomberg e Ted Turner, afirma Jones, pois souberam
erguer seus impérios nos espaços deixados pelas empresas tradicionais
(o serviço de informações econômicas Bloomberg News e a rede de
TV por cabo CNN).
Jones faz um alerta aos donos de jornais: ''Eles precisam lutar
e esfalfar-se pela notícia com a mesma energia insaciável com que
espremem cada centavo de publicidade dos seus mercados''.
Na Folha
Nem todos esses aspectos se aplicam à Folha. As margens
de lucro são mais baixas no Brasil, da ordem de 10%, nada comparável
aos 23% alcançados em 1994 pela Gannett Co. Inc. O jornal está investindo
no CTG-F o equivalente a um quarto de seu faturamento no ano passado,
e isso beneficiará também o conteúdo (cor é informação, se bem utilizada).
O porte da operação contrasta porém com o investimento na Redação,
nos dois últimos anos. Um programa de contenção de erros de português
conseguiu baixá-los à metade, mas não os de informação. Criaram-se
equipes móveis para produzir reportagens em equipe, como nas edições
de domingo, sob a rubrica Tempo Real. Um prêmio interno tenta estimular
a excelência.
O resultado, ao menos em termos de furos, não é notável. Seguramente
está caindo o teor médio de inteligência e articulação dos textos.
A pauta é errática, e bons assuntos sucumbem a uma edição acossada.
Isso tudo tem algo a ver com o progressivo enxugamento da Redação,
que conta hoje com 295 jornalistas.
Engana-se quem atribui os cortes à crise do papel: em meados de
1994, quando esta se fez sentir mais agudamente, eram só 11 a mais
(306). A parte mais gorda foi decepada no final de 1991, quando
o jornal ainda tinha 372 profissionais.
Nesse meio tempo, a operação de fechar (concluir) uma edição
só se complicou. Etapas da montagem que eram realizadas por outros
setores foram assimiladas por jornalistas. É simples como água:
sobra menos tempo para pensar, criar, pesquisar e escrever. É nisso
que a Folha deve pensar, agora que é o único jornal de grande
circulação do mundo a ter cor em quase todas as páginas.
Os ombudsmans
Partindo do suposto que jornais com ombudsman dão atenção especial
para a qualidade, fiz uma consulta rápida a colegas dentro e fora
do Brasil. O objetivo era descobrir se as pressões do mercado afetavam
o desempenho editorial de seus jornais.
Responderam as cinco perguntas cerca de 30% dos membros da Organização
dos Ombdusmans de Imprensa _ONO, na sigla em inglês (dizem as más
línguas que se pronuncia ''oh, no''). Uma súmula dos resultados
pode ser vista no quadro acima.
De um modo geral, as respostas são tranquilizadoras. Em todas as
redações o cutelo se fez sentir, mas não prejudicou o cerne do noticiário.
Algumas poucas seções foram eliminadas, textos se tornaram mais
curtos.
Em alguns casos, os cortes de pessoal alcançaram até 20% nos dois
últimos anos. Um jornal eliminou a seção de gastronomia, outro encolheu
os quadrinhos, outro ainda aumentou os preços em 43%. Também houve
diminuição da área de circulação de suplementos. Isso gerou muitas
reclamações aos ombdusmans, mas nada que assuste (há sempre alguma
coisa dessas acontecendo num jornal _na Folha, todas ao mesmo
tempo).
Afinal, jornais são seres vivos, racionais até _embora nem sempre
sejam realmente espertos.
Leia mais
Por que ''gazetilhas''; Barretos;
Ombudsman online; Atrasos funestos
Colunas
anteriores
25/02/1996 - Desestatizar
o noticiário
18/02/1996 - Bananas, *&@$#...! e informação
11/02/1996 - Onde você mora
04/02/1996 - Apontando o lápis
28/01/1996 - A quimera
subir

|
|
|