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São
Paulo, domingo, 10 de março de
1996
MARCELO LEITE
O escritório
do ombudsman recebeu desde segunda-feira 278 manifestações sobre
as mudanças gráficas e industriais na Folha e sobre o caos
que provocaram na distribuição do jornal. Foram 56.800 as queixas
recebidas em toda a empresa até anteontem. Uma avalancha proporcional
à expectativa criada pelo lançamento da cor total.
É a ocasião propícia para predadores, mas terei de frustrar aqueles
que entendem a função de ombudsman como inimigo do jornal. Ele é
apenas um crítico, do qual se espera que seja rigoroso, não desleal.
Reza a cartilha da objetividade que se ponha a emoção de lado. Nada
melhor, assim, do que buscar amparo na aridez dos números.
O maior problema, de longe, foi com atraso e não-recebimento dos
jornais por assinantes, ou de exemplares incompletos. Dos que não
conseguiram falar com o serviço de atendimento (SAA), por causa
do congestionamento das linhas, 218 ligaram para o ombudsman. Em
cinco dias, foram tantas queixas sobre assinaturas quanto nos meses
de dezembro e janeiro.
O tipo de falha do último domingo erode o patrimônio maior de um
órgão de imprensa: confiança. Nessas horas, não dá para separar
o que é editorial do que é industrial. Ou a informação chega ao
leitor, ou não chega. Muitos assinantes se declararam perturbados,
antes de mais nada, com o fato de não faltarem exemplares completos
da Folha nas bancas. Ciente dessa interrogação na cabeça
de seus clientes mais fiéis, o jornal forneceu na edição de terça-feira
(pág. 1-11) uma explicação para o tratamento diferenciado:
''A Folha optou por suprimir cadernos de assinantes porque,
nesse universo, é possível saber quem foi prejudicado e ressarci-lo''
(com a prorrogação das assinaturas por três dias). Desde o início,
o jornal optou pela transparência, noticiando suas próprias mazelas.
O auge desse doloroso processo ocorreu na quarta-feira, com a publicação
de anúncio em um quarto da Primeira Página, ''Aos nossos leitores'':
''A Folha (...) compromete-se a mobilizar todos os recursos
para reduzir ao máximo esse período de transição e retomar, o mais
rapidamente possível, o plano original.
''Solicita, ainda, sua compreensão _em nome dos serviços que tem
procurado prestar à sociedade e do pioneirismo das melhoras que
está, mais do que nunca, empenhada em atingir.''
O projeto Entre os 60 leitores que procuraram o ombudsman para opinar
sobre aspectos gráficos, propriamente ditos, a maioria também foi
negativa. Houve 40 manifestações contrárias. Só 7 apresentaram elogios,
e outros 13 pesaram prós e contras.
Justiça seja feita: a maior parte dos que criticaram a nova Folha
o fizeram menos pelo novo projeto gráfico em si do que pelas derrapadas
em sua implantação.
Campeão de reclamações foi o problema de registro (precisão na impressão
de fotos compostas de várias cores). Essas falhas resultam em imagens
com ''fantasmas''. Muitos leitores fizeram piada dizendo que o jornal
deveria dar de brinde óculos de 3D, como nos cinemas especiais.
O caso PT
A Folha publicou na terça-feira uma manchete problemática:
''PT perde 600 mil filiados em 1 ano''. De início, não atentei para
suas deficiências e a elogiei na crítica interna da edição. Depois,
em contato com a direção do partido, ''revi posição'', como se dizia
no jargão estudantil de duas décadas atrás.
O PT tinha aí uns 700 mil filiados, arrebanhados na atmosfera de
encantamento operário em que nasceu. Quis fazer uma ambiciosa refiliação
e se deu mal: apenas 100 mil militantes atenderam ao chamado.
Pode-se discutir interminavelmente quantos militantes o partido
tem hoje. Desconfio de que a interpretação da Folha _expressa
em editorial na quinta-feira_ e a da agremiação são inconciliáveis.
Felizmente, para ambos.
Um título de jornal, porém, é um enunciado factual. E a afirmação
de que 600 mil pessoas deixaram em definitivo a condição de filiados
é no mínimo questionável. O PT diz que eles continuam legalmente
inscritos.
Do ponto de vista jornalístico, por fim, a manchete é maculada por
um pecado mortal: não é nova. Em 29 de junho do ano passado, ''O
Estado de S.Paulo'' publicou reportagem semelhante, com o título
''Refiliação mostra que PT encolheu''. Ali já se falava no número
de 100 mil refiliados.
O autor da reportagem da Folha, Fernando de Barros e Silva,
argumenta que a refiliação só se completou em 15 de dezembro: ''Em
junho, portanto, com a campanha em andamento, seria no mínimo precipitado
dizer que o PT havia encolhido''.
É a tal história das uvas verdes.
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