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São
Paulo, domingo, 17 de março de
1996
MARCELO LEITE
Não se
pode acusar a Folha por falta de arrojo ou criatividade.
O jornal agora inventou a solução para o problema da reforma agrária
no Brasil: distribuir as terras da Igreja Católica.
Foi o que propôs uma de suas manchetes mais enviesadas, em meses.
''Igreja poderia assentar mais de 20 mil famílias'', dizia o título
principal do último domingo. O sobretítulo seguia o mesmo diapasão:
''Propriedades católicas incluem área suficiente para instalar todos
os sem-terra''.
Um paraíso terrestre, despachando o equilíbrio para o quinto dos
infernos.
Não vou entrar no mérito da animosidade ideológica da manchete,
que parece evidente. Não é necessário. O trabalho era técnica e
jornalisticamente deficiente, uma raridade em se tratando dos dossiês
Tempo Real.
É melhor deixar de lado também traços cômicos da edição, como o
emprego de fotos urbanas numa reportagem sobre terras. Na pág. 1-9,
462 centímetros quadrados e coloridos mostravam o fausto da igreja
de São Francisco na Bahia, toda em ouro. Talvez fosse o caso de
repartir tudo entre os pobres.
Regra de três
Quem leu a reportagem nas págs. 1-8 a 1-10 logo percebeu o erro
implícito na aritmética jacobina da Folha. O jornal parece
conhecer somente a regra de três: se o Incra recomenda 15 hectares
por família, os 330 mil hectares supostamente da igreja resultariam
em 22 mil assentamentos.
A própria reportagem informava que 9.582 das 11.801 propriedades
tinham menos de 10 hectares, ou seja, não satisfaziam esse requisito
mínimo. Isso para não tocar na questão da (im)produtividade.
''O cálculo é apenas teórico'', protestei na crítica interna da
edição: ''Não acho que a igreja esteja acima do escrutínio público.
Mas acredito que não é com mensagens pueris (...) que se vai explicar
alguma coisa. Um bom material, empobrecido por uma edição tacanha''.
O pior ainda estava por vir. Anteontem, o jornal publicou o que
parecia um ''outro lado'', inclusive com chamada de capa, com a
versão da CNBB em nota oficial. A pág. 1-10 dava conta de que eram
só 195 mil os hectares passíveis de distribuição, suficientes para
13 mil famílias. Mas talvez nem isso seja correto.
A reportagem da sexta-feira omitiu uma informação fundamental da
CNBB. Logo no ponto 1, a nota deixa claro que as terras atribuídas
à Igreja Católica pelo jornal são as identificadas pelo Censo Agropecuário
de 1985 como pertencentes a ''instituições pias e religiosas'',
em geral. Nem todas, portanto, seriam propriedade católica.
''Houve falha de não incluir o trecho na reportagem'', diz Eleonora
de Lucena, secretária de Redação. O jornal planejava reconhecer
o erro na edição de ontem, mas na noite de sexta decidiu verificar
a informação da CNBB, antes de assumi-la como fato. A reportagem
ficou adiada para terça-feira.
Não dá para criticar a Folha por enfim fazer a coisa certa.
Mas é inescapável anotar que só se dispôs a fazê-lo no momento de
penitenciar-se. Será difícil convencer leitores ressabiados de que
a primeira pedra foi atirada apenas por distração ou imperícia,
não de propósito.
Pelo telefone
Na terça-feira, em Tóquio, foi o próprio jornal que virou vidraça,
mas deu a volta por cima pondo a boca no trombone. Publicou no dia
seguinte, na pág. 1-8, a reportagem ''Motta faz acusações contra
a Folha''. E deu conta de provocação lançada pelo ministro
das Comunicações na presença de vários jornalistas brasileiros.
Sérgio Motta, em resumo, disse que a Folha iria perder sua
independência porque participa de consórcio que concorrerá para
a operação de telefonia celular em São Paulo. O próprio jornal tinha
noticiado, dias antes, que se associara ao Unibanco e à Odebrecht
com essa finalidade.
Na resposta a Motta, a Folha disse que participa somente
por se tratar de um leilão, o que deveria afastar pressões políticas.
E devolveu a suspeita à incontinência do ministro: ''Existe, no
governo, o desejo de usar as licitações como meio de chantagem e
de intimidação''.
Uma boa resposta para uma declaração leviana. Os fiscais da independência
da Folha são seus próprios leitores, que tomaram _tanto quanto
Motta_ conhecimento de mais essa investida empresarial. Se cometer
a burrada de atrelar seu jornalismo a interesses comerciais, o jornal
estará dilapidando seu maior patrimônio: credibilidade.
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